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Henrique Marques Samyn


 

Notas poéticas: A lição de Anchieta
Henrique Marques Samyn
[publicado em 21/04/2006 na revista Speculum (http://www.speculum.art.br)]

 

Sempre será controversa a decisão de se inserir José de Anchieta entre os pioneiros autores brasileiros, sendo ele herdeiro, em todos os sentidos, de uma tradição poética puramente ibérica, mas ao mesmo tempo demonstrando aquilo que tantos caracterizam como um autêntico “sentimento nativista”. Na verdade, a posição de Anchieta é deslizante em mais sentidos: sua poesia apresenta ao mesmo tempo traços tardo-medievos, sobretudo no tocante à métrica e à estrutura poética, e um sentimento universalista de feições renascentistas; seu impulso pragmático e evangelizador não o impede de criar uma poesia de grandes qualidades líricas e formais.

Embora a ameaça da falsa atribuição dificilmente possa ser de todo descartada, hoje em dia já se percebe com maior nitidez o que deve ter sido, de fato, criado pela pena de Anchieta; deparamo-nos, então, com uma obra poética de inegável criatividade. A dicção é de uma limpidez notável; o lirismo ora traz uma simplicidade de sabor popular, ora um tom solene e meditativo; o desenvolvimento formal é elaborado, por vezes beirando o virtuosismo. Em relação a este último aspecto, vale destacar alguns trechos de um de seus mais conhecidos e bem urdidos poemas, “Do Santíssimo Sacramento” – aquele que começa com a seguinte estância:
 

Ó que pão, ó que comida,
ó que divino manjar
se nos dá no salto altar
       cada dia!

 

Veja-se a riqueza rítmica e sonora das estrofes:
 

É fonte de todo bem,
da qual quem bem se embebeda
não tenha mêdo da queda
      do pecado.
 

Ó que divino bocado,
que tem todos os sabores!
Vinde, pobres pecadores,
      a comer!

 

Além do interessante emprego das aliterações, é interessante notar, na primeira estrofe, o uso da diáfora, por meio da qual o poeta utiliza duas vezes o mesmo vocábulo (“bem”) com diferentes significações. A penúltima estrofe do poema é de beleza rara:
 

Pois não vivo sem comer,
coma-vos, em vós vivendo,
viva a vós, a vós comendo,
       doce amor!

 

Para os poetas de hoje, Anchieta deixa uma lição: movendo-se em meio a tendências poéticas sedimentadas, sem introduzir inovações temáticas ou formais – mesmo seus poemas em tupi não se afastam, em fundo e forma, da tradição ibérica – , foi capaz de, ainda assim, criar uma obra de perene valor. Para o grande criador, afinal, pouco importam circunstâncias sociais ou históricas; quando encontram desenvolvimento adequado, a inspiração e a originalidade, elementos centrais das maiores obras poéticas, sempre se manifestam de forma singular e autêntica.

 

 

 

 

 

28.06.2006