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Henrique Marques Samyn
A
alma da pedra
(resenha de “João Cabral de Melo Neto:
o homem sem alma & Diário de tudo”, de José Castello)
Henrique Marques Samyn
publicado em 18/05/2006 na revista Speculum(http://www.speculum.art.br)
É possível que, para muitos, este não
pareça ser um livro sobre João Cabral. Este nome, afinal de contas,
evoca a conhecida figura do poeta seco e desprovido de afetividade;
no entanto, na maior parte das vezes, quem aparece nestas páginas é
um outro homem: o homem por trás do poeta João Cabral – o homem que,
de maneira calculada e obstinada, se ocultava sob a sólida carapaça
do poeta desprovido de sentimentos.
Em João Cabral de Melo Neto: O homem sem alma, José Castello nos
revela como este homem construiu sua couraça poética. Trata-se de um
homem que descobre a poesia tardiamente, porque sempre a associava à
dicção parnasiana ou ao sentimentalismo romântico; que, mesmo quando
descobre – através de Drummond – que é possível fazer “poesia sem
oratória”, lê menos os versos dos poetas que seus escritos teóricos;
e que, desde cedo, procura influência menos na história da poesia do
que em arquitetos e pintores. Mas é, sobretudo, um homem que precisa
desesperadamente da realidade, a fim de aplacar a incômoda alma que
insiste em fabricar os afetos com os quais nunca soube lidar; por
isso, procura a carreira diplomática – para fugir de si mesmo; para
inebriar-se de matéria.
É assim que nasce João Cabral. Um poeta à parte porque, como
observou Drummond a respeito de O auto do frade, é capaz de escrever
“poema sem poesia” (isso diz muito, sobretudo se entendermos a
observação drummondiana como se referindo a uma poesia sem lirismo:
na verdade, há lirismo na poesia cabralina – se não tivesse, não
seria poesia; mas há também uma peleja contumaz contra este lirismo,
que permanece cuidadosamente cravado sob as áridas camadas da dicção
de João Cabral, sempre áspera, dura e fragosa. E é desta tensão que
escapa a força da poesia cabralina). Mas é um poeta que nasce com um
objetivo: “sevilhizar o mundo”, isto é, fazer do mundo uma “cidade
que veste o homem / sob medida”. De fato, Sevilha sempre será a
cidade privada do poeta, o lar ao qual não se cansa de retornar –
porque ali pode se perder em ruas estreitas que parecem levar sempre
ao mesmo lugar; ali pode encontrar, em plena realidade, as cores e
as intensidades de luz que procurava nos quadros. Sevilha é, enfim,
uma cidade que pode ser vestida – como uma roupa justa e confortável
que guarda uma surpresa em cada bolso.
Mas Cabral, este poeta que se faz poeta não para poetizar o real,
mas para assentar o mundo, jamais se livra de todo da alma. E ela
surge, com toda a força, no Diário de tudo – livro no qual Castello
revela as notas que tomava nas entrevistas que originaram O homem
sem alma, feitas quando o poeta, já com mais de setenta anos, vivia
em meio às sombras de seu apartamento no Flamengo, sofrendo
infindáveis crises de depressão (ou de angústia, como ele preferia
dizer). Como João Cabral se defendia quase que instintivamente da
ameaça do gravador, pedindo que fosse desligado cada vez que
pressentia a chegada de desafogos ou emoções, o jornalista passou a
tomar notas, em seu caderno, sobre tudo o que ficava fora das fitas:
desde oscilações de humor, confissões e desabafos, até as turbações
da relação de Cabral com sua segunda esposa, Marly de Oliveira. E é
aqui que surge, de maneira mais impressionante, o homem que o poeta
escondia.
Este homem melancólico, que sofre com a solidão e a velhice, está
longe de ter uma alma de pedra. Pelo contrário: os sentimentos o
perseguem, insistindo em tentar romper a sólida couraça com que se
envolve. E, vez por outra, conseguem – como quando vêm à tona seus
ciúmes por Marly, por quem está apaixonado; ou na bela cena em que
vai entregar a Castello um volume autografado de seus Primeiros
poemas, livro publicado em 1990, em edição restrita, organizado pelo
crítico e poeta Antonio Carlos Secchin: “Antes mesmo que eu abra o
livro, ele avisa que há uma dedicatória, mas se desculpa porque, na
hora de autografar, estava ainda com as mãos vacilantes, e tremeu
justamente no momento em que escrevia a palavra amizade, que foi
obrigado a riscar e a reescrever”.
Algo especialmente notável no livro é que José Castello revela não
apenas a intimidade de João Cabral, mas também sua própria
intimidade, descrevendo seus temores, suas vacilações e deslizes na
difícil rotina das entrevistas. Em um momento de despedida, enquanto
o poeta e o jornalista caminham para o elevador, Marly aparece no
hall e começa a desabafar com João. No dia anterior, o casal
oferecera uma pequena recepção a Sérgio Paulo Rouanet, então novo
secretário de Cultura da presidência; Marly diz que só não convidara
Castello porque não tinha seu telefone, e pede que o anote em um
pedaço de papel para que, nas próximas vezes, possa convidá-lo. O
jornalista arranca uma folha do caderno, anota o número e segura-o
na mão estendida; mas, absorta em desabafos e reclamações, Marly não
percebe e não pega o papel. “É uma cena tola, um pequeno
desencontro, benigno, uma besteira, mas que, no meu modo de ver,
ilustra, sintetiza as dificuldades que tenho com o casal de poetas”,
confessa o jornalista. “Eles me oferecem o privilégio de
compartilhar um pouco de sua intimidade. Contudo, impõem também
rígidos e súbitos limites, que devo respeitar. Nunca sei se estou
sendo invasivo ou, ao contrário, escrupuloso. A verdade é que ainda
não encontrei meu tom”. É assim, entre aproximações e afastamentos,
que vai se tecendo o diálogo – e Cabral vai expondo, ao longo dos
encontros, sua geografia interior.
Estas dificuldades, no entanto, são parte essencial desta jornada
pelas trilhas cabralinas, quase tão importante quanto as
resistências de Cabral. Há um pouco disso na capa do livro, que traz
em relevo as iniciais “JC” – que se referem, obviamente, a João
Cabral, mas que são também as iniciais de José Castello: os dois
andarilhos em um território que, em certa medida, resiste a ambos.
Abaixo dos nomes, uma bela foto do poeta sentado em uma cadeira,
exibindo um olhar sólido e rijo como uma pedra. Uma pedra, sim; mas
uma pedra com alma.
Leia José Castello
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