Jornal de Poesia, editor Soares Feitosa

 

Henrique Marques Samyn


 

Pastorinhas


A estrela d'alva no céu desponta
e, tonta, a pastora vagueia na rua.
Versos não tem. Canções, esqueceu,
desde que aquele que amava partiu.

Vai pela rua. E não vaga sozinha:
é só mais uma dentre as pastorinhas
que, para enlevo e consolo da lua,
todas as noites caminham, silentes,

como num bando de tímidas musas
que, de tão tristes – já que abandonadas –
na ânsia de serem amadas, frementes,
deram-se à estrela – morenas e nuas.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

Henrique Marques Samyn


 

Balada do Bate-bola


Bate-bola bate a bola,
sai da escola já montado,
mascarado, bate a bola
pronto pra assombrar o mundo:
faz das ruas o seu palco
vira-mundo bate-bola,
vence uma calçada, e outra,
só de um salto; a larga capa
lança, lesto, e ameaça
quem se mete em seu caminho;

Bate-bola bate a bola,
mas jamais parte sozinho:
tem seu bando o bate-bola,
mil e tantos mascarados,
clóvis multicoloridos
que, em impávidas passadas,
Avenidas, aguerridos,
fazem suas: bravas pátrias,
terras que – até Quarta Feira –
não serão mais de ninguém;

Bate a bola o bate-bola,
bate, sem saber a quem
intimida, o bate-bola,
pouco importa: nesta terra
muitos são os inimigos,
e, entre mortos e feridos,
se um qualquer inda restar,
também este o bate-bola
terá, forte, de enfrentar,
e o fará, seja quem for:

porque desconhece o medo
e o perigo o bate-bola.
Sob a máscara, ferino,
toda a dor ele suporta:
sabe da morte os segredos –
e, se morto, um dia volta.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravaggio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

Henrique Marques Samyn


 

Quarta-Feira de Cinzas


E quando a Quarta-Feira enfim chegou
e em cinzas transformou toda a folia,
rasgou, despudorada, a fantasia
que tantos mascarados deslumbrou;

e quando a Quarta-Feira enfim chegou,
fingiu não ver o mais cinzento dia;
e, em meio à rua clara e tão vazia,
cantou marchinhas e canções de amor.

No corpo nu calou toda a tristeza:
deitou-se, doida de melancolia,
na cama de confetes da calçada.

Tigresa, fez da quarta-feira presa:
lançou-se, incontrolável, sobre o dia –
bebeu, sedenta e só, a madrugada.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

 

Henrique Marques Samyn


 

Segundo canto de amor

a L. A.



És mar bravio. És mundo, imensidão,
em meu deserto, és luz do sol a pino:
és música que encanta. E este menino
a ti pertence; e em ti, é coisa pouca,
não mais do que um vestígio do que outrora
um homem se chamou. E nele, agora,
não há nada de homem, nem de fera:
há apenas uma turva e doce espera
por ti. E por teu corpo. E por tua alma:
Senhora, só teu beijo embebe e acalma
este homem que por ele implora, louco,
e tanto que seu canto é fraco e rouco.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), A Classical Beauty

 

Henrique Marques Samyn


 

Cantiga de amigo V


Amigo já não tenho,
querida já não sou:
se vive meu senhor,
bem longe, me esqueceu.

Não quero mais cantiga,
nem tenho mais amor:
de tanto amar em vão,
meu coração morreu.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

Henrique Marques Samyn


 

Três barcarolas (revisitadas)

a Stella Leonardos


(fragmento)


I

Na capela, sozinha, eu esperava
por aquele que outrora me adorava.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Na capela, esperava, enquanto o mar
sem demora, ansiava me abraçar.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Por aquele que outrora me adorava,
eu aguardava, e às águas me entreguei.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Sem demora, ansiava me abraçar
o alto mar. Na alva espuma me deitei.
Esperando o meu amigo,
e virá?

Eu aguardava, e às águas me entreguei:
seus lábios me beijaram, tão salgados.
Esperando o meu amigo,
e virá?

O alto mar. Na alva espuma me deitei,
e do mar fiz o meu sempiterno amado.
Esperando o meu amigo,
e virá?


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

12.06.2006