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Henrique Marques Samyn


 

A dama da lapa


Falaz madrugada:
vagando na rua
de espelhos tecida,
a dama vai, nua,
as coxas ungidas
na noite da Lapa.

Vai trôpega, exausta
dos anos vividos
nos sórdidos becos,
hotéis embebidos
dos negros segredos
da Lapa devassa.

Feraz madrugada:
nos becos, um leito
a dama faz. Freme:
traz no frágil peito
a agonia ingente
de saber-se amada.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904) - Phryne before the Areopagus

 

Henrique Marques Samyn


 

Marinês


Marinês espera, à noite, nas esquinas,
por alguém que nunca chega, nem jamais
chegará – se quando o sol arrosta o beco

dele espanta os visitantes, qual formigas,
como a alguém confiará ela os segredos
se seu rosto só descobre à luz do dia?

Queda, espera – como faz há vinte anos
Marinês, que agora conta trinta e quatro,
mas só quatro ela viveu de desenganos:

toda puta fica esperta muito rápido.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

Henrique Marques Samyn


 

Dentro da noite
(de um conto de João do Rio)


I.

No cálice, a gota de sangue
bailava no leito de vidro.
No meio da noite emplumada,
a pálida dama de negro
trilava uma airosa risada
no quente terraço da Glória.


II.

Os lábios de Elisa feriam
a alvíssima pele enlevada
da que se amparava em seus braços:
os olhos felinos, rasgados
no rosto de triste boneca
buscavam Elisa. Chorava
a etérea e mais lívida musa
que os pés debatia, ferindo
a noite – treva aveludada.

III.

Bacante, feroz e faminta –
nas garras, a débil donzela
fremia – ruidosa felina
a se desfazer em gemidos;
as unhas na carne. Incontidos
sussurros e juras de amor –
Je t’aime, mon chéri... mon amour...
– desfeitos lençóis de loucuras;
e os lábios que os lábios tocaram
abriram-se, róseos, molhados
num inelutável suspiro.

IV.

O corpo deitado. Alvas mãos
de Elisa entre os áureos cabelos
que a noite da Glória douravam;
e um beijo no corpo gelado –
e a púrpura marca sagrando
o corpo da vítrea vestal.

V.

No cálice, a gota:
no cálice,
a gota mais rubra bailava,
no vidro,
 uma valsa fatal.

E os risos de Elisa, enlevada,
que aos gritos, carpia a adorada
no leito dourado da Glória.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São Jerônimo, de Caravaggio

 

Henrique Marques Samyn


 

Na final de 50


Barbosa, cabisbaixo, se levanta
e segue, a passos lentos, rumo à meta.

Caminha. Numa solidão de asceta,
não vê o mundo em volta. Só a bola

que, morta, jaz na rede, entorpecida.
Barbosa se levanta. Não vê nada,

mas ouve a multidão emudecida.


[de “´Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sandro Botticelli, Saint Augustine, Ognissanti's Church, Firenze

 

Henrique Marques Samyn


 

O canto do Arlequim


Eu, trôpego Arlequim, te beijo e faço
meu leito nos teus lábios: vem, menina,
dormir nos braços desse que te ensina
a ser, viver e amar. Venha, que a chuva
que este teu corpo infante encharca e embebe
jamais há de lavar a áurea saliva
com que eu, na saturnal desta Avenida,
teus seios frescos cubro, e as coxas nuas...
Pra ti, altares ergo nestas ruas:
teu sátiro e consorte, eu, Arlequim,
te fiz, criança, a minha Colombina!


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Henrique Marques Samyn


 

Na mansão do Estácio


I.

Lacera a carne a cúpida chibata
e asperge a pele o jorro rubro e intenso.
De quatro – eqüina – geme a ofensa amada:
a máscara na cara oculta o extático
arroubo que na boca se anuncia.
Em volta, os Arlequins apaixonados
à cena assistem. Na mansão do Estácio,
o amor se esquiva à estranha luz do dia.

II.

No corpo a Colombina aceita o corte
que a faca do Arlequim, precisa, traça,
com a graça de um perverso carnaval.
Retorce o dorso. Geme. Assim, devassa,
em meio aos foliões, oferta o seio.
Perdida em meio às pânicas paixões,
faz-se em berço de Baco, apaixonada
não por alguém, mas pelo inato enleio.

III.

Lá fora da mansão, na noite fria
do Estácio, asceta, em sestra solidão,
triste, o Pierrô lamenta a negra sorte.
Na branca veste, fere-o, feito açoite,
a rósea marca – o beijo: a Colombina
ali deixou-o. Ouvindo sua consorte
fremir nas trevas, o Pierrô vacila:
não quer mais vê-la. Ansia, antes, a morte.


[de “Poemário do desterro”]

 

 

 

 

 

 

28.06.2006