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Henrique Marques Samyn




A menina e a morte




 

 

Na poesia de Ruy Espinheira Filho há uma menina – uma menina morta. No entanto, essa menina recusa-se a respeitar a distância solicitada pelos viventes, a fim de manter o mistério num recanto seguro; e, por isso, espreita em janelas e sonhos, insistindo em trazer à tona aquilo que a razão gostaria de manter oculto na arca do esquecimento, sepultado num passado distante. Essa necessidade de esquecimento, por sua vez, se explica por tudo aquilo que esta menina traz consigo: a frustração diante dos absurdos do mundo, a percepção da impossibilidade de retorno ao idealizado paraíso perdido da infância, a insuportável certeza da brevidade da existência, como bem notou Iacyr Anderson Freitas em seu estudo sobre o poeta.

O lar desta menina é a memória: é nas viagens rumo às distantes terras do passado biográfico, percurso comum na poesia de Ruy Espinheira, que ela é encontrada. Esta trajetória é minuciosamente delineada em "A janela do espaço". O poeta começa descrevendo sua passagem através da janela erguida entre os tempos:

Nela me debruço
e olho a paisagem
de morros distantes,
bois no verde, brisa
cheirando a terra úmida.
Galgo o parapeito
e salto:
pouso suave
embora a altura
de mais de trinta anos.

 

E, após correr pela grama e recordar as coxas nuas das lavadeiras, depara-se o poeta com a presença inevitável:

A menina morta
sorri e me acena
por trás da vidraça.

 

A menina surge à distância: o poeta é surpreendido por sua presença. Parte dela a iniciativa do encontro, sempre súbito, sempre perturbador: é como que uma intrusa nas caminhadas pelas trilhas da memória e do sonho, para as quais se dirige o poeta em busca de uma evasão da sufocante realidade. Nesta medida, a menina morta representa o ponto de convergência entre dois mundos – não apenas o encontro entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, mas também o encontro entre o tempo presente e a memória, entre a realidade e o sonho.

Já era assim quando a menina surgiu na vida daquele que, agora, é por ela assombrado. Prova-o a imagem do vestido, o vestido branco que essa menina sempre ostenta, que é o mesmo que cobre os infantes corpos das outras meninas que permanecem na memória. Estes vestidos foram os causadores de uma perturbação singular na infância do poeta, acontecimento referido em "Vestidos":

Dos vossos vestidos brancos
vinha uma luz que esplendia
e desfazia o que era
sombra da noite vazia.

(Ou pior: noite habitada
de ânsias, melancolia,
desejos da carne, assombros,
e outros charcos de agonia.)
 

Fremindo melodias, trazendo dias e avassalando noites, estes vestidos já traziam consigo a eclosão de um outro mundo: um mundo de desejos, assombros e ânsias, nesta medida destruidor do real – porque capaz de fazê-lo estremecer, dando à luz dias em meio à banalidade do cotidiano. A menina que agora retorna na "ilha mnemônica" traz consigo, novamente, este vestido; e, junto a ele, esse outro – mais profundo – estremecimento do real: a morte.

A menina, não nos esqueçamos, é uma menina morta. Como lemos em "Se agora me procurasses",

É só a menina branca
que, num sono inviolável,
lá se vai para a colina
em seu caixão pequenino
sob a garoa da tarde.

 

Desta maneira, aquela mesma menina que, outrora, despertou os desejos do menino, com seu vestido branco e seus "seios que adolescem", numa intensa celebração da vida, é associada à morte – e, por conseguinte, à mais brutal forma de aniquilação dos desejos. Para seu corpo convergem, portanto, a afirmação e a negação, a esperança e o desencanto. Em "Aqui, antes da noite", encontramos imagens desta multiplicidade de contradições:

1. Antigamente era janeiro.
Agora também é janeiro, mas só uma palavra,
porque não pode ser janeiro sem os longos
verdes ondulantes que iluminam a memória
e ela, branca,
na janela da casa
branca,
na branca manhã de domingo
(que era sempre domingo em janeiro
e certa vez – aquela, essa vez – foi janeiro
por muitos anos).

2. Sei: com o tempo
só os mortos sobrevivem. Como você,
que passa distraída entre as árvores
e não me vê, distante, noutro plano;
e você
que me olha
com uma infância pungente
e me fala
com voz de lã.

 

Outrora, houve um janeiro de "longos verdes ondulantes": um janeiro em que sempre era domingo; um janeiro em que havia alguma esperança – já que "tudo estava ainda por vir", e viria "imensamente luminoso e bom". Mas esse janeiro, um tempo em que a menina, branca, olhava pela janela da casa, também branca, ficou para trás. Tudo o que deveria acontecer permaneceu como mera possibilidade, como sonho não realizado. Tudo o que deveria vir, não veio.

Se janeiro permanece, o faz morto – porque "com o tempo / só os mortos sobrevivem". Também morta permanece a menina branca, não mais capaz de enxergar o poeta; como um vulto que vaga, cegamente, entre as árvores – mas que conserva a "infância pungente" em seu olhar. E, se esse olhar é tão perturbador, é precisamente porque nele é possível enxergar a infância que ainda habita na memória. Recordar esta infância, no entanto, é perceber tudo o que não se realizou; é reencontrar a frustração que acompanha a consciência desse fracasso.

Mesmo a menina, em certa medida, pertence à categoria dessas coisas não realizadas. O poeta, afinal, a amava:

5. Tu não sabes, mas te amei como
talvez nem merecesses. Te amei como
só então e ali era possível,
sombra melancólica à tua sombra,
tantas vezes morto
(menos para
o sentido da dor). Ah, te amar assim eu – apesar
de tudo, de mim – não merecia.

 

Todo esse amor que a menina despertou não foi, jamais, consumado. A menina está morta – e sua morte transforma, de uma vez por todas, esse amor em algo para sempre irrealizável. E, como essa menina havia dado um sentido à infância – porque havia, junto às outras meninas e seus vestidos brancos, impregnado o real de sonhos, desejos e anseios –, sua morte representa um abalo fundamental neste sentido, uma condenação ao fracasso: como se tudo o que a menina trouxe fossem promessas que, com a sua morte, jamais poderão ser cumpridas. O poeta está condenado à perda.

Na poesia de Ruy Espinheira Filho há uma menina. Uma menina que ao surgir, na infância, trouxe consigo uma esperança branca; mas que foi arrancada do mundo e da vida, transformando aquela esperança numa perda irreparável – e, num golpe terrível, atirando o poeta de encontro ao absurdo. Daí a indagação de "A menina e o anjo":

Onde estava ele,
o Omisso,
a quem eu diria as mais terríveis palavras
se o encontrasse?
(Palavras
que, afinal, seriam inúteis,
sem sentido,
pois todos os Anjos, principalmente os da Guarda,
são assim,
por sua própria natureza, que é a dos deuses,
para os quais nada significa uma menina branca, vestida
de branco,
num caixão branco,
e menos ainda um homem que a recorda desde a infância,
que nunca deixou de vê-la, por toda a vida,
na mesma tarde cinzenta com um sino tocando e um sol
escasso
pondo um ouro fosco e frio
nos telhados).

 

Morta, a menina jamais deixou de acompanhar o poeta; poeta que, talvez, o seja justamente por causa da menina. O lirismo, como afirmou Manuel Bandeira em sua "Poética", deve ser libertação; e talvez a poesia de Ruy Espinheira Filho tenha sua origem na necessidade de libertação deste fado, desta condenação à perda.
Da morte da menina nasceu o lirismo.
 



Ruy Espinheira Filho
Leia a obra de Ruy Espinheira Filho
 

 

 

 

08/07/2005