A Antologia
pessoal de Astrid Cabral (Thesaurus, 2008)
abre-se com uma introdução biográfica
adequadamente intitulada “Percurso de uma
paixão”, texto em que a escritora descreve sua
trajetória mesclando fatos e afetos relacionados
à literatura. Nascida em Manaus, Astrid viajou
com os pais por Salvador, Niterói e Recife
quando era ainda muito pequena; aos quatro anos,
com a morte de seu pai, retornou à casa dos avós
maternos, passando a morar num sobrado em frente
ao Palácio Rio Negro. Uma professora portuguesa
da vizinhança ensinou Astrid a ler quando ela
tinha cinco anos – e, “sem usar a temível
palmatória de algumas escolas”, apresentou à
futura escritora um “mundo mágico de fábulas e
contos de fada”. Dois seis ao oito anos, Astrid
frequentou o Colégio das Dotoréias, de onde saiu
“em protesto contra o diversificado tratamento
dado às alunas, segundo a posição
sócio-econômica”; por isso, concluiria o
primário no mais democrático Grupo Escolar Barão
do Rio Branco. Aos onze anos, descobriu a
literatura; aos dezesseis, publicou seus
primeiros artigos e crônicas na imprensa local.
Aos dezoito anos, Astrid ingressou na
universidade, cursando neolatinas na antiga
Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de
Janeiro; pouco depois, já formada, casada com o
poeta Afonso Félix de Sousa e mãe de dois
filhos, mudou-se para Brasília a fim de integrar
a primeira turma de docentes da recém-fundada
UnB.
Pode-se estranhar o fato de, até agora, nenhum
livro de Astrid ter sido mencionado. De fato,
sua face de escritora só viria a revelar-se em
1963, com a publicação do livro de contos
Alameda, aliás concluído cinco anos antes; e o
seu (mais conhecido) talento poético
permaneceria latente ainda por mais dezesseis
anos. O motivo dessa demora é explicado pela
própria autora: a entrega à vida familiar e os
afazeres profissionais não cediam espaço para a
literatura, o que evidentemente tinha o seu
peso: “Foram anos de silêncio e aridez com o
afastamento do núcleo criativo”. Mas Astrid
Cabral, a escritora, aguardava pacientemente o
momento de despertar, que finalmente chegaria em
1996 – quando, aposentada do serviço público,
surgiu uma oportunidade para que ela se
dedicasse ao labor literário. Aos livros até
então publicados esparsamente – além dos já
citados, Ponto de cruz (1979); Torna-viagem
(1981); Lição de Alice e Visgo da terra (1986);
e Rês desgarrada (1994) – , somaram-se
Intramuros (1998), Rasos d’água (2003), Jaula
(2006) e Ante-sala (2007), além de diversas
coletâneas: livros que trouxeram a lume uma das
obras poéticas mais importantes do Brasil de
hoje e de todos os tempos.
Basta uma folheada nesta Antologia pessoal para
comprová-lo. Ali está a extraodinária “Elegia
derramada”, síntese lírica das múltiplas faces
de Manaus (“Manaus de matinês que sabem a
flertes e chicletes, / Chaplin, bangue-bangues,
Gordo e Magro, astros a brilhar / nas telas dos
cines Politeama, Guarany, Avenida e Éden. /
Noturnas madrugadas de sinos, galos e lerdas
estrelas, / altura de lua morosa, sobras de
chuva pelas sarjetas.”). Ali está “Voz no
exílio”, angustiado desafogo da escritora que,
distante de sua terra, sopesa seus
contraditórios sentimentos (“Meu país, / o
lirismo não me deixe cega, / oh terra que me faz
feliz/infeliz / tão farta que estou / de tantos
falsos aristocratas / e mendigos tão reais.”).
Ali está o “Soneto” dedicado ao filho Giles,
falecido num acidente de carro aos vinte e dois
anos (“Junto a mim decorreu a tua vida / no
curto tempo em que fui tua casa. / Paredes de
osso e carne eram guarida / quando no sono o ser
desabrochavas.”). Ali está, enfim, a suma da
obra de Astrid Cabral – essa autora ímpar no
universo literário brasileiro que, mesmo quando
era impedida de dedicar-se às letras pelas
contingências da vida, ainda assim jamais deixou
de viver para a literatura.