Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

Henrique Wagner*


 

Sob Prescrição: O médico e o monstro

 

Herculano Neto, reconcavado em Santo Amaro, contista, letrista de raro talento, editor do fanzine O Ataque. Sua poesia é de corte, feita de instantâneos, aguda, ogival e pra dentro: ferindo a si mesma, a poesia de Herculano diz aos que vieram, sem se importar em dizer ao que veio – aliás, o livro inteiro é um libelo ao desprezo pelos olhos do cânone; o trabalho é pessoal, intimista, acústico, para platéias pequenas e que estejam bem próximas do autor, assim, como que um lual. Dividido entre o ser e o mundo, e portanto, entre o ser e o ser, escreve um auto-retrato (“O seu retrato”), mas também um poemeto chamado “Os outros”. O trabalho de Herculano parte de uma impiedosa consciência de si mesmo para a criação ou reconstrução expressionista do outro. Desinteressado pelas formas fixas, sobretudo as importadas de muito longe, seus versos são curtos em poemas curtos, mas sem se enquadrarem na paisagem mítica e insondável do haicai. Assim ele realiza o melhor de seus poemas, em minha opinião.

Encontramos em seus contos o deliberado “diário de adolescente” revisitado (em Sob Prescrição tudo é veneno e placebo ao mesmo tempo), mas também a prosa feita de intervalos de iluminação, desfechos dignos do título de contista, epifanias. Em “Monólogo de uma nota só” Herculano mostra ser capaz de entrar – e sair – no mais arriscado dos universos e ainda trazer intacto o desfecho da história: trágico e lírico até o osso. A propósito, osso é o adubo desse poeta: nada é sobra. Tudo é sobra. Palavras brancas sobre um quadro negro. O que vemos é o que queremos ver, mesmo que seja o que querem que vejamos – e aí entramos numa polêmica recente quanto ao teor de verdade e de ficção em documentários, feitos sempre sob a teleobjetiva de um homem ou um grupo de homens.

Em “Casa de Bonecas” Herculano maneja os instrumentos de uma cinematografia. Os cortes, e até mesmo os planos sugeridos sutilmente vão nos conduzindo, já inteiramente parciais, até o desfecho ibseniano da mulher, da garota, da mulher emancipada, ao menos interiormente.

“Less is more”. Com esse conto temos finalmente um raio-X preciso da vítima, e não do vilão.

Ah, e o auto-retrato:
 

O seu retrato já não
me incomoda
o seu sorriso já não
me incomoda
o seu perfume já não
me incomoda
sua lembrança já não
me distrai.


 

*Henrique Wagner é poeta e crítico de literatura, autor de As horas do mundo e A linguagem como estética do pensamento.

 

Leia Herculano Neto

 

 

 

 

 

 

10.11.2006