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Henrique Wagner*
Sob Prescrição: O
médico e o monstro
Herculano Neto, reconcavado em Santo
Amaro, contista, letrista de raro talento, editor do fanzine O
Ataque. Sua poesia é de corte, feita de instantâneos, aguda,
ogival e pra dentro: ferindo a si mesma, a poesia de Herculano diz
aos que vieram, sem se importar em dizer ao que veio – aliás, o
livro inteiro é um libelo ao desprezo pelos olhos do cânone; o
trabalho é pessoal, intimista, acústico, para platéias pequenas e
que estejam bem próximas do autor, assim, como que um lual. Dividido
entre o ser e o mundo, e portanto, entre o ser e o ser, escreve um
auto-retrato (“O seu retrato”), mas também um poemeto chamado “Os
outros”. O trabalho de Herculano parte de uma impiedosa consciência
de si mesmo para a criação ou reconstrução expressionista do outro.
Desinteressado pelas formas fixas, sobretudo as importadas de muito
longe, seus versos são curtos em poemas curtos, mas sem se
enquadrarem na paisagem mítica e insondável do haicai. Assim ele
realiza o melhor de seus poemas, em minha opinião.
Encontramos em seus contos o
deliberado “diário de adolescente” revisitado (em Sob Prescrição
tudo é veneno e placebo ao mesmo tempo), mas também a prosa feita de
intervalos de iluminação, desfechos dignos do título de contista,
epifanias. Em “Monólogo de uma nota só” Herculano mostra ser capaz
de entrar – e sair – no mais arriscado dos universos e ainda trazer
intacto o desfecho da história: trágico e lírico até o osso. A
propósito, osso é o adubo desse poeta: nada é sobra. Tudo é sobra.
Palavras brancas sobre um quadro negro. O que vemos é o que queremos
ver, mesmo que seja o que querem que vejamos – e aí entramos numa
polêmica recente quanto ao teor de verdade e de ficção em
documentários, feitos sempre sob a teleobjetiva de um homem ou um
grupo de homens.
Em “Casa de Bonecas” Herculano maneja
os instrumentos de uma cinematografia. Os cortes, e até mesmo os
planos sugeridos sutilmente vão nos conduzindo, já inteiramente
parciais, até o desfecho ibseniano da mulher, da garota, da mulher
emancipada, ao menos interiormente.
“Less is more”. Com esse conto temos
finalmente um raio-X preciso da vítima, e não do vilão.
Ah, e o auto-retrato:
O seu retrato já não
me incomoda
o seu sorriso já não
me incomoda
o seu perfume já não
me incomoda
sua lembrança já não
me distrai.
*Henrique Wagner é poeta e crítico
de literatura, autor de As horas do mundo e A linguagem como
estética do pensamento.

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Herculano Neto
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