Soares Feitosa
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O bafômetro
 
Art. 165 - Dirigir sob a influência de álcool, em nível superior a seis decigramas por litro de sangue, ou de qualquer substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica.
Infração - gravíssima;
Penalidade - multa (cinco vezes) e suspensão do direito de dirigir;
Medida administrativa - retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e recolhimento do documento de habilitação.
Parágrafo único - A embriaguez também poderá ser apurada na forma do art. 277. [Código Brasileiro de Trânsito]

           Tive o cuidado de me informar: o senhor Carlos Graieb não bebe. Porque se bebesse, o nome deste artiguete seria outro; ou, compromisso meu com os bêbados, com as crianças, com as donzelas e com as mulheres de resguardo, sequer o teria escrito. Se o senhor Graieb não bebe, nem está de resguardo, tanto pior; melhor que bebesse, melhor que parisse; livre estaria. Em assim sendo, como nem bebeu, nem pariu, com sua sua licença, meu caro senhor Graieb, dois pontos:

           Porque ele, Graieb, afaga: [in Veja, 20.10.1999]
 

De toda a rica herança de Cabral, só mesmo o rigor formal parece ter sido plenamente explorado pelos poetas que o sucederam. A poesia brasileira está hoje cheia de escritores competentes, virtuoses da palavra e do verso.
           E, no mesmo afago, cospe: [in Veja, 20.10.1999]
 
A lição construtivista de Cabral, não há dúvida, foi aprendida. Está viva na obra de um paulista como Regis Bonvicino ou de uma maranhense como Lu Menezes. São versos, porém, que não falam de nada, a não ser de
eventos insignificantes e objetos do cotidiano. Falsa magra, essa poesia esconde, por trás da silhueta sequinha, um barrigão que é quase parnasiano em seu fetiche pela forma. O viés social que João Cabral procurou imprimir à sua obra também ficou esquecido. Poucos se deixam assombrar por essa idéia, a de pensar o Brasil em rimas.


           E, depois de cuspir, morde: [in Veja, 20.10.1999]
 

Finalmente, o problema da comunicação poética foi sepultado. Os poetas concretos, justiça seja feita, o levaram em conta no início de seu movimento. Depois, perderam-se na erudição hermética. Na década de 70, a poesia marginal tentou restabelecer algum contato com o público. Mas logo veio a fenecer, sob o peso de sua mediocridade e inconseqüência. Hoje, reina o nada. Os poetas brasileiros não falam a ninguém e parecem resignados com isso. Contentam-se em ser um mero "acúmulo de material rico em seu tratamento do verso, da imagem e da palavra, mas atirado desordenadamente numa caixa de depósito". A frase é de João Cabral. Pertence a seu ensaio de 1954, mas descreve à perfeição o insosso cenário atual da poesia brasileira. 


           Um bafômetro urgente para o escritor Carlos Graieb. Ele bebe. Ou,  alfazema e sene o choro e o cheiro do nenê recém; o crítico Graieb pariu; está de resguardo, e, sobre ele as atenuantes do puerperal. 

           Com todo o respeito, 

                                                    Soares Feitosa, 
                                                                    leitor assíduo de Veja e de Graieb

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