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Florisvaldo Mattos
Prêmio de reconhecimento
Ariano Suassuna

10/08/2002 - Arte
Embora
muitos na Bahia, admiradores da obra de seu principal escritor,
preferissem que a primeira versão do Prêmio Jorge Amado de
Literatura/2002 laureasse um escritor conterrâneo, a atribuição da
glória a outro nordestino - e sendo o vencedor um artista literário
da estatura do paraibano Ariano Suassuna - não deixou de significar
um certo alívio. Ficando na própria região de seu patrono, o
Nordeste, afastou-se o perigo de que, mais uma vez, imperasse a
hegemonia cultural zarolha do Centro-Sul e salvou-se a láurea de
mais uma fatalidade.
Lógico que qualquer
um dos dois ficcionistas baianos presentes na lista final de nove
nomes, selecionados conforme o regulamento do prêmio - João Ubaldo
Ribeiro e Hélio Pólvora, ambos autores nacionalmente reconhecidos -,
podia muito bem receber o troféu e se honraria da mesma forma a
memória do patrono. A comissão julgadora, porém, indigitou Suassuna,
romancista, dramaturgo, ensaísta, poeta e competente agitador
cultural, e, com isso, manteve o nível elevado e a dignidade do
projeto original que instituiu essa importante premiação.
Além da adequação
cultural e geográfica da escolha, a concessão do prêmio a Suassuna
cumprirá ainda um outro papel: o de contribuir para que a Bahia
fortaleça seus laços interregionais, sempre prejudicados, em relação
a Pernambuco, onde o escritor, desde que se mudou da Paraíba,
forçado por circunstâncias de transe familiar (o pai, João Suassuna,
assassinado no Rio de Janeiro, em 09.10.1930, na bojo dos
acontecimentos revolucionários, desencadeados com o assassinato de
João Pessoa, em 26 de julho daquele ano, por João Dantas, primo de
dona Rita de Cássia Suassuna, mãe de Ariano), irá verdadeiramente
construir sua formação cultural e uma carreira literária, teatral e
ensaística, que o consagrará no País e o fará conhecido no
estrangeiro.
Dá-se assim
continuidade a um trabalho de aproximação e quebra de antigas e
empedernidas resistências político-culturais, a que não faltaram a
alimentá-las e enrijecê-las pirotecnias várias, que começou
provavelmente lá pelos anos 40 com a chegada a Salvador do poeta e
jornalista pernambucano Odorico Tavares e seu conterrâneo, o
compositor e radialista Antônio Maria, e prosseguiu com o projeto de
universidade redentora e culturalmente atuante de Edgar Santos; com
a lucidez de Lina Bo Bardi, no incentivo e resgate da cultura
nacional de raízes, e com Glauber Rocha, ao correr o Nordeste em
busca de inspiração e subsídios para os fundamentos estéticos de seu
Cinema Novo, sem descartar traços do universo mítico-popular e
nordestino-sertanejo, presentes na tapeçaria de Genaro de Carvalho,
que persistem na pintura, perfeitamente identificáveis em fases da
obra de Sante Scaldaferri, Chico Liberato, Juraci Dórea, Washington
Queirós e outros, e no cinema, teatro e vídeo de Paulo Gil Soares.
O primeiro deles,
Odorico Tavares, dirigindo os Diários Associados se interessa em
promover um tipo de intercâmbio cultural, que fará da Bahia palco e
trânsito de experiências e diálogo com intelectuais do porte de
Gilberto Freyre, de opções novas da criação plástica moderna,
através da obra que vinham realizando Francisco Brennand e Lula
Cardoso Ayres, na escultura e na pintura, da poesia de Carlos Pena
Filho e Mauro Motta. Edgar Santos estimulou ainda mais esse
processo, quando resolveu trazer o pernambucano Martim Gonçalves
para simplesmente fundar e dirigir na Ufba a primeira Escola de
Teatro do Brasil, cujo êxito na cena dramática e no cinema dispensa
alusões.
As conquistas
prosseguirão e o processo se aguçará, quando Lina Bardi, tendo
capitaneado a criação do Museu de Arte Moderna da Bahia, a ele
agregou, instalado no Solar do Unhão (1963), um Museu de Arte
Popular, trazendo para sua inauguração nada menos que o próprio
Ariano Suassuna, acompanhado de outros intelectuais pernambucanos,
entre eles o poeta e ensaísta César Leal, e de valioso acervo de
peças de arte popular provenientes de vários pontos do Nordeste. Um
pouco antes, entre os cabedais nordestinos que arrecadara em seu
périplo de curiosidade cultural, já Glauber Rocha trouxera, para
êxtase de jovens intelectuais que se agitavam em redor das edições
da revista Mapa e das sessões do Clube de Cinema, a figura
monumental - corpanzil de quase 2m de altura e 150kg, encimado por
um vasto chapéu de aba larga - e a grande poesia do mítico poeta
pernambucano Ascenso Ferreira, a declamar, em salas de concerto e
bares da cidade, poemas modernos de inspiração e fundamento
regional, constantes de seus livros Catimbó e Cana caiana.
A Academia de Letras
da Bahia, é justo lembrar, porá alguns tijolos nessa alvenaria
diplomática, ao aproximar-se gentilmente da personalidade e da obra
do autor de Casa Grande & Senzala, em momentos diversos, e mais
recentemente, quando promoveu salutar intercâmbio com a Fundação
Joaquim Nabuco, patrocinando inclusive seminários, lançamentos e
exposições de obras.
Por tudo isso e
muito mais, não se pode considerar o intelectual Ariano Suassuna um
estranho. Muito do que criou e construiu tem aqui repercutido; ele
se liga à Bahia não por laços pessoais, mas pelas características de
sua robusta obra literária, poética e teatral, com seus romances e
peças de grande força criativa, profundidade temática e estilo
inconfundível, unindo o clássico, o popular e o moderno, e também
por suas realizações em outros campos, como um ativo e consciente
agitador cultural, de que são exemplos o Teatro Popular do Nordeste,
que fundou em 1961 com Hermilo Borba Filho e outros intelectuais,
entre os quais o grande ficcionista Osman Lins, cujo manifesto (vai
publicado na íntegra como memória-documento adiante) consagra novos
e ousados rumos à arte dramática brasileira, e o Movimento Armorial,
que representou um salto na criação musical, ao se bater por uma
música erudita inspirada em raízes populares nordestinas, fazendo a
tradição ressoar, como recriação, na contemporaneidade e, assim,
produzir seus reflexos em outros campos da criação artística.
Quanto ao primeiro,
de cujo manifesto Ariano Suassuna foi redator, consistiu num
vigoroso movimento, que na sua amplitude não se restringia apenas ao
teatro, mas significava um passo adiante da cultura moderna
(rotulava-se antiacadêmico e contra as frivolidades da arte),
processando-se em vários pontos do Nordeste, inclusive na Bahia, a
partir da herança da arte popular, com seu epicentro em Recife, pelo
conjunto de intelectuais que o apoiavam, embora sem ligação
interregional, semelhando o movimento do romance nordestino dos anos
30, em que os vários autores publicavam suas obras impondo um novo
traçado estético à ficção, sem qualquer articulação entre si -
Raquel de Queirós, no Ceará, José Lins do Rego, na Paraíba,
Graciliano Ramos, em Alagoas, Amando Fontes, em Sergipe, e Jorge
Amado na Bahia. Os defensores pernambucanos das idéias do TPN,
estavam ligados geracionalmente desde os tempos do Teatro do
Estudante de Pernambuco, fundado em 1946 por Hermilo Borba Filho.
O Movimento Armorial
ganhou impulso logo no seu lançamento, no ocaso dos anos 60, com o
espetáculo Três Séculos de Música Nordestina - do Barroco ao
Armorial e uma exposição de gravura, pintura e escultura realizada
nos espaços da Igreja de São Pedro dos Clérigos, em Recife. Além da
própria dramaturgia de Ariano Suassuna, projetou seus reflexos em
outras linguagens, com destaque para a gravura na obra de Gilvan
Samico, a cerâmica e a louça de Zélia Suassuna e Socorro Maia Côca,
a tapeçaria de Maria da Conceição Brennand Guerra, a pintura, a
escultura e a arquitetura, induzindo à recriação de matérias-primas
nacionais e à utilização das cores do sertão - vermelho, ocre,
castanho, amarelo, azul e verde, marcadas pela nostalgia barroca de
um imaginário povoado de madeira, pedra, frutos, animais, profetas,
virgens, santos (os martirizados, São Sebastião e Antônio
Conselheiro) e mitos, assim como na poesia e na prosa literária.
Tanto um quanto
outro movimento - o teatral e o musical - produziram efeitos na
Bahia, refletindo-se principalmente na estética do tropicalismo,
tendo em certo sentido fertilizado (registra-se) o trabalho do
primeiro Gilberto Gil, além de influenciar outros criadores Brasil
afora, sem esquecer a própria música popular e coreografia
nordestinas, pernambucanas diga-se, a partir dos anos 70, a obra de
Chico Science, Nação Zumbi, Mestre Ambrósio, Lenine, Cascabulho e
Antônio Nóbrega, entre outros.
Hoje, aos 75 anos,
completados em 16 de junho último, membro das academias brasileira e
pernambucana de letras, aposentado como professor de duas
instituições de ensino superior, Suassuna assiste sereno e
impassível à ascensão e consolidação de seu prestígio pelo êxito
crescente de sua obra - quatro romances, entre eles o consagrado
Romance d’A pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta
(1971), 10 peças de teatro, onde fulge seu célebre Auto da
Compadecida (1955), oito livros de poesia, uma antologia (Seleta em
prosa e verso, 1974), centenas de ensaios, prefácios, conferências,
artigos de jornal e entrevistas (no caso dele, algumas adquirem a
dimensão de arte no arranjo das idéias), traduzida e estudada em
vários países, reproduzida no cinema, na televisão e em vídeo,
encenada em espetáculos de teatro e dança, pelo que, naturalmente,
recebe direitos autorais, para viver tranqüilo em sua casa de
Recife, a Ilumiara Suassuna, com seus oitões plenos de azulejos e
peças de cerâmica e ferro, como a de Jorge Amado, nos altos do Rio
Vermelho, em Salvador.
Questiúnculas
regionalistas à parte, o prêmio foi inegavelmente merecido e boa a
escolha, posto que os universos de Jorge Amado e de Suassuna em
algum ponto convergem e se tocam, seja quanto à própria ordem
temática, seja pelos elementos lúdicos e a vasta gama de
personagens. Tal como em muito do que criou o baiano-grapiúna, a
alma do paraibano adotado por Pernambucano lampeja, como disse
Hermilo Borba Filho, seu amigo e colaborador, em “uma arte feita de
pedra, animais, árvores ressequidas, couro, sol - o sertão - e
cangaceiros, amarelinhos, padres, juízes, prostitutas, palhaços,
cantadores - a humanidade”, rica de símbolos e povo, ao que, em
Amado, se acrescentou um inegável peso ideológico, com base nas
contradições da sociedade e à luz de um momento histórico convulso.
Quem o viu e ouviu,
certa feita, em improvisado e rústico auditório do Teatro Castro
Alves incendiado, magro, esguio e ereto, jeitão tímido de sertanejo,
sotaque regional carregado, falando de cultura popular e de um
Nordeste picaresco, épico, tradicional - quando disse, para riso
geral, que “a Bahia era o único lugar onde se elogiava cangaceiro”,
lembra Sante Scaldaferri - pode tê-lo achado levemente presunçoso e
próximo do rude, pronto para o soslaio e a tirada cômica, em
resposta a alguma pergunta carimbada de subliminar má-vontade, mas,
depois, em contato com a obra sólida e variada, sentiu e percebeu o
que fez Ariano Suassuna permanecer como expressão maior da cultura
brasileira. Ele é leve, mas a sua obra, recriadora das tradições de
um Nordeste vibrante e popular, com muita identidade com a Bahia,
sertaneja e rural, vale quanto pesa.
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