Álvaro de Campos
 
Não
 
    Não, não é cansaço... 
    É uma quantidade de desilusão  
    Que se me entranha na espécie de pensar,  
    E um domingo às avessas 
    Do sentimento, 
    Um feriado passado no abismo...  

    Não, cansaço não é... 
    É eu estar existindo 
    E também o mundo, 
    Com tudo aquilo que contém, 
    Como tudo aquilo que nele se desdobra 
    E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. 

    Não.  Cansaço por quê? 
    É uma sensação abstrata 
    Da vida concreta  
    Qualquer coisa como um grito  
    Por dar, 
    Qualquer coisa como uma angústia  
    Por sofrer, 
    Ou por sofrer completamente,  
    Ou por sofrer como... 
    Sim, ou por sofrer como... 
    Isso mesmo, como... 

    Como quê?... 
    Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço. 

    (Ai, cegos que cantam na rua,  
    Que formidável realejo 
    Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!) 

    Porque oiço, vejo. 
    Confesso: é cansaço!...

 
 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *