Cruz e Sousa

Carnaval de Ontem e de Hoje
 
 
Do apartamento de Dora
Ouve-se o ruído lá fora
Do carnaval que já vem.
O samba do morro desce
E a gente do morro esquece
Do gosto que a vida tem.

A Vovó fica alarmada!
Que terror esta enxurrada
De gente suja e brutal!
As mulheres, quase nuas,
Homens de saia, nas ruas,
— Meu Deus, isto é carnaval?

“No seu tempo”, felizmente,
Era tudo diferente
À neta ela explica, então:
— Gente distinta, educada,
Batalhava na calçada
Do Jockey, que animação!

O corso era uma beleza!

Que elegância, que riqueza
De confeti e serpentinas!
Sobre as capotas descidas
Moças bonitas, vestidas
Das fantasias mais finas.

Nos bailes, que brincadeira!
Nem pulos, nem bebedeira,
Todos podiam dançar.
Mas de outro modo, distinto:
Se era “família” o recinto,
Ninguém mais podia entrar.

Dançava-se o tempo todo.
Brincava-se mesmo a rodo,
Sem mal, contente e feliz.
E o lança-perfume, eu penso
Não era usado no lenço
E abusado, no nariz!

Às vezes, um mascarado
Chegava, alegre e engraçado,
Metido num dominó.
Passava, dando os seus trotes,
Depois lá ia, aos pinotes,
Brincalhão, como ele só!

E a Vovó contava à neta... 
Dorinha ouvia, bem quieta
Mas, de repente diz: - Qual,
Vovó, desculpe o que eu digo
Mas que chato é o tempo antigo!
Meu Deus, isso é Carnaval?

                    
                         
Remetente: Walter Cid

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 Página editada  por  Alisson de Castro,  Jornal de Poesia,  24  de  Julho  de  1998