Um evento em que as duas principais
"vedetes" são as próprias línguas portuguesa e
espanhola. O curador da 8ª Bienal Internacional do
Livro do Ceará, o escritor cearense Floriano
Martins, preferiu, ao invés de nomes reconhecidos
nacionalmente no mundo das letras, uma seleção
diversa de escritores nacionais e estrangeiros, a
maioria hispano-americanos ainda não editados no
país.
Poeta, ensaísta e tradutor, Floriano se dedica ao
estudo da literatura hispano-americana, é editor do
site Banda Hispânica, que reúne informações sobre
escritores de língua espanhola, e autor de
antologias sobre essa produção poética, segundo ele,
profundamente ignorada pelo Brasil.
"O fato de não conhecermos esses autores não é
justificativa para que permaneçam em tal condição",
escreveu ele em uma entrevista por e-mail que vai
publicada abaixo. A Bienal, para ele, será o momento
de começar a desfazer esse desconhecimento. Os
encontros entre esses escritores e o público serão
alguns dos espaços propícios para esse diálogo, que,
como defende Floriano, se desenrolará durante toda a
programação do evento como, por exemplo, no espaço
intitulado Ilha dos Continentes, que abrigará
editoras estrangeiras.
A curadoria do evento, que será realizado no Centro
de Convenções e na Universidade de Fortaleza (Unifor),
buscou um equilíbrio entre cultura e mercado,
tentando desviar do rumo "desgastado" do modelo de
Bienal praticado no país. "Basicamente arrumamos a
casa, pois anteriormente circular pela Bienal em
muito lembrava os corredores de um atacadão em sua
mais completa bagunça", diz o curador.
Na entrevista, Floriano também escreveu sobre o
aspecto político do evento, minimizando o peso do
atual contexto político do continente na orientação
da Bienal, que traz nomes como o líder do MST, João
Pedro Stédile, e o Ministro da Cultura de Cuba, Abel
Pietro, além de dedicar um pavilhão especial à Cuba
e Venezuela, dois dos países que lideram o avanço de
governos de esquerda na região.

O POVO - O tema da Bienal desse ano se ocupa
do diálogo cultural entre duas comunidades
lingüísticas, principalmente na América Latina. Esse
tema está diretamente ligado a um anseio de
integração latino-americana? Qual a razão de sua
escolha?
Floriano Martins - Mais do que anseio,
trata-se de uma necessidade, de uma exigência
natural, de uma imposição histórica, que até daria
aos eventuais acordos econômicos existentes entre
nossos países uma configuração mais legítima e
substanciosa. Agora, o importante frisar é que se
trata de uma grande festa em torno de um aspecto que
nos aproxima que é a mestiçagem cultural. Evocar os
pontos de confluência de nossas raízes culturais, e
até mesmo compreender melhor as nossas distinções.
Embora a Bienal sendo um evento literário, aqui
teremos também manifestações artísticas de outras
áreas, como a música, o vídeo, as artes plásticas
etc. Portanto, este é um primeiro momento que assume
conotação mágica, uma festa de integração de países
que possuem mais afinidades do que se possa
imaginar. E consideremos, afinal, o aspecto
pioneiro, posto de forma coerente e corajosa, como
pauta principal de um Governo de Estado no Brasil,
justamente aquele Estado que é o mais periférico em
relação à América Latina. Esta é uma imensa
conquista do povo cearense.
OP - A mesa de abertura do evento, Cultura de
resistência e mudanças sociais na América Latina,
aponta para uma discussão política dessa integração.
Em que medida o atual cenário político do
continente, marcado por governos de esquerda como os
da Venezuela e Bolívia, orientou a sua curadoria?
Floriano - A curadoria não tem orientação
alguma no sentido ideológico, pensando no termo de
uma maneira apequenada. Interessa-nos essencialmente
discutir quais as relações possíveis entre política
e cultura, deixando bem claro que é o aspecto
cultural que deve sair reforçado desse diálogo.
OP - A relação entre literatura e política
parece ser um dos pontos centrais da Bienal. Qual a
atualidade desse debate? E quais os rumos dessa
discussão que você identifica na literatura que
estará presente na Bienal?
Floriano - São duas vertentes. Evidente que
se trata de estabelecer uma relação entre cultura e
política. Ao mesmo tempo, não estamos propondo
investigar uma literatura de cunho político.
Interessa-nos, sobretudo, dar a conhecer uma
literatura que é tão ignorada no Brasil, no que pese
seu reconhecimento internacional, que sempre que
falamos em América Latina reduzimos o tema ao âmbito
político.
OP - Quais foram os critérios de escolha dos
autores estrangeiros?
Floriano - Em todos os casos, o que não
exclui os autores brasileiros, a preocupação mescla
qualidade da obra e diversidade estética e
geracional. Reitero que a estranheza que se possa
ter em relação à maior parte dos nomes não é
demérito da parte deles e sim reflexo de nosso
descompasso cultural em relação a esses países.
OP - Você pode destacar alguns deles?
Floriano - Destaco trios em áreas distintas,
variando também os países: na prosa, temos o peruano
Carlos Garayar de Lillo, o galego Carlos Quiroga e o
cubano Abel Prieto; na poesia, este imenso poeta que
é o peruano Carlos Germán Belli, ao lado do
argentino Rodolfo Alonso e do colombiano Jotamario
Arbeláez; entre os palestrantes contamos com as
excelências do mexicano Carlos Montemayor, da
portuguesa Joana Ruas e da paraguaia Susy Delgado.
Mas não devemos esquecer de destacar também a
presença brasileira, que naturalmente inclui
cearenses como Ana Miranda, Isabel Lustosa e Chico
Anysio, quanto não-cearenses, a exemplo de Lêdo Ivo,
Afonso Henriques Neto e Lauro César Muniz.
OP - Os autores convidados da América Latina
integram de alguma forma uma rede literária que atua
nesses diferentes países?
Floriano - A grande rede poderia ser proposta
aqui, no ambiente da Bienal, considerando a
importância de ter esses nomes todos reunidos no
Brasil e em diálogo com escritores brasileiros. De
qualquer maneira, a estrutura da Bienal propicia
discussões em torno dos mecanismos de atuação das
editoras universitárias, dos encontros
internacionais de escritores, dos Centros de Estudos
Brasileiros (CEB) na América Latina, das editoras
independentes e diretores de revistas de cultura e
literatura, aspectos tais como tradução e crítica
literária etc., o que aponta na direção de uma
integração que somente se limitará a seu aspecto
retórico se o permitirmos.
OP - A maioria dos autores ainda não foi
editada no Brasil. Como promover um diálogo a partir
desse contexto de desconhecimento?
Floriano - O mercado editorial brasileiro
encontra-se em um momento indefinido, com uma insana
reserva de provincianismo que já atinge o
vulgarismo. As exceções apenas confirmam a regra.
Uma exceção: o acordo entre governo português e
algumas editoras brasileiras para que aqui sejam
editados autores de Portugal. A grande maioria dos
autores estrangeiros convidados para a Bienal
encontra-se publicada no México, na Venezuela e na
Espanha, que são exemplos de grandes mercados
editoriais. O fato de não conhecermos esses autores
não é justificativa para que permaneçam em tal
condição. O diálogo será valiosamente facilitado
pela imprensa, ao nos ajudar nesta difícil tarefa de
trazer a literatura desses povos para o Ceará.
OP - Por que a Bienal optou pela ausência de
nomes reconhecidos pelo grande público?
Floriano - Em momento algum tal aspecto foi
tratado como meta. Aquilo que entendemos como nomes
de mídia já de muito vem se desgastando até mesmo
diante do grande público. Há um momento em que se
precisa frear um processo de diluição. A definição
da Bienal é de ordem conceitual e estrutural. Em
primeiro plano, as duas famílias lingüísticas
convidadas, que resultam nas grandes vedetes do
evento. Em seguida, a definição de uma estrutura, a
partir das culturas de línguas portuguesa e
espanhola, que seja ao mesmo tempo consistente e
diversificada. Somente a partir daí pensar em nomes,
priorizando sempre a excelência de cada um em sua
área.
OP - A poesia é o gênero com maior espaço na
Bienal. Qual a razão dessa ênfase?
Floriano - Considerando a estrutura acima
referida, a realidade é que há uma predominância de
poetas (e não de prosadores) entre ensaístas,
tradutores, diretores de revistas e instituições,
críticos, jornalistas etc.
OP - Como foi pensada a relação dessa Bienal
com o mercado editorial?
Floriano - A idéia era alcançar um equilíbrio
entre cultura e mercado, considerando de certa forma
já desgastado um modelo de Bienal que vem sendo
praticado no país. Basicamente arrumamos a casa,
pois anteriormente circular pela Bienal em muito
lembrava os corredores de um atacadão em sua mais
completa bagunça. Além disto, criamos um espaço,
intitulado Ilha dos Continentes, que permite a vinda
de editoras estrangeiras de pequeno e médio porte, o
que inclusive em muito remedia este quadro de
desconhecimento nosso em relação aos convidados do
diversos países aqui presentes.
OP - Você considera a curadoria dessa Bienal
uma aposta arriscada?
Floriano - Toda atividade humana digna de
respeito é arriscada. A Bienal é um projeto de
Governo de Estado no sentido de enriquecimento de
seu patrimônio cultural. Não é possível avançar em
tal direção sem riscos. De outra maneira teríamos
uma cultura cristalizada e conseqüentemente devorada
pela ação depredatória do mercado.