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Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Harold Alvarado Tenorio

Collage, Floriano Martins

 

Harold Alvarado Tenorio: "agora sou o mais pobre e humilde dos hombres" (entrevista)

Darío Henao Restrepo

Decano da Escola de Literatura – Univalle Harold Alvarado Tenorio (Buga, 1945) é uma das vozes mais singulares e refinadas da poesia contemporânea colombiana. Suas viagens imaginárias e reais pelo mundo lhe ofertaram uma vasta experiência, matéria de uma obra poética que ele soube decantar com a paciência de um monge chinês. De seu primeiro livro, Pensamientos de um hombre llegado el invierno (1972), passando por En el valle del mundo (1976), Recuerda cuerpo (1983), Libro del extrañado (1986), El Ultraje de los años (1986) até Espejo de máscaras (1987) assistimos à acumulação de um pouco mais que noventa poemas nos quais mantém uma alta feitura e uma rara ternura que nasce da perplexidade e de um assombro renovado em cada poema.

Assim como seu mestre Borges, como adverte James J. Alstrum, Alvarado angustia-se pela passagem inexorável do tempo e preocupa-se com o gozo do momento efêmero e com a perduração da lembrança através da palavra. O corpo como espaço prazeroso e frustrante ao mesmo tempo, lição aprendida do grego Constantino Kavafis, a quem traduziu com muito acerto, é um tema medular em sua obra. A mágica e sóbria síntese de reflexão, corpos amados e esquecidos, indistinção de vozes masculinas e femininas, melancolia, cidades e amores extraviados, nostalgias, desencanto, raiva, dor e asco das misérias do mundo, configuram uma lúcida consciência, uma firme e exuberante personalidade poética. A força sustentada de seus poemas expressa um homem vital, que é capaz de adentrar em todas as formas da experiência humana e não tem reato para argüir sua própria vida. Sem enfeites, subterfúgios ou recatos, na contramão da tradição pacata da poesia colombiana, Alvarado levanta véus e instala seu olhar descarnado e irônico.

Depois de ter rematado seu ciclo como docente e pesquisador da Universidade Nacional da Colômbia, com uma importante obra ensaística e colaborações em revistas e jornais do mundo inteiro, o poeta Alvarado está de regresso ao Vale do Cauca. Em Buga, onde se recupera de alguns abalos de saúde, concedeu-nos a presente entrevista.

Quando você começa a escrever poesia?

Fiz poemas no curso secundário, mas os únicos que conservo são de quando comecei meus estudos universitários. Mostrei-os a alguns de meus amigos que consideraram que valia a pena publicá-los. Carlos Jiménez foi o primeiro que publicou meus poemas em um jornal que se chamava La Gaceta na Universidad del Valle. Ligia González animou-me para que continuasse escrevendo poesia; ela pagou a edição de meu primeiro livro de poemas, Pensamientos de un hombre llegado el invierno (1972).

Um poeta que foi fundamental para você é Borges. Você começa a lê-lo na universidade?

Não. Eu li Borges quando estudava no curso secundário em Bogotá e o descubro na biblioteca Luis Ángel Arango. Ia às tardes para matar o tempo e aí li Sartre, Camus e Borges. Antes, em Buga, na biblioteca do Colégio Acadêmico, tinha lido Dostoyeski, Oscar Wilde. Primeiro eu li muitos narradores, muito ensaio, revistas como Eco, da qual tinha a coleção completa.

Da poesia colombiana, o que lembra em seus primeiros anos? De que poetas gostava?

Isso é muito estranho, mas a poesia colombiana nunca me entusiasmou, não sei por que. Mesmo assim eu lembro que lia a os poetas do Vale do Cauca como Ricardo Nieto. Lembro porque eu fazia minha irmã chorar com um poema dele que se chama La vaca ciega. Eu o declamava. Eu sabia de memória poemas de Lorca, El brindis del bohemio e coisas assim. Aprendi no Libro del declamador.

Sua época de estudante de Filosofia e Letras na Univalle foi muito intensa, o que ficou disso?

É um período definitivo. Não somente porque pude comprar mais livros, pude permutar e conversar sobre livros com meus companheiros da época, como também tivemos professores que nos orientaram como Oscar Gerardo Ramos, Armando Romero e Lino Gil Jaramillo. Também tivemos muito bons professores estrangeiros como Walter Lanforg, Jean Bucher, que foi quem me formou, pois eu tive uma formação agreste com Borges, mas uma rigorosa com Paul Valery. Ainda que não me entusiasmasse Valery, porque é um planeta muito frio, sentia sim prazer pelo rigor com que ele me foi inculcado pelo meu mestre. Em algum momento, minhas ânsias de imitar Borges cruzavam-se com esse rigor carrancudo de monsieur Teste. Tivemos um professor húngaro, mas não recordo seu nome e um professor americano, excelente, que talvez não tenhamos aproveitado o suficiente; chamava-se Stressino. Era um louco inspirado em Ezra Pound.

O que pode contar de seu périplo espanhol?

A vida espanhola me toca em duas épocas: a do franquismo e a da transição. Eu vivi ambas. Em minha poesia e em minha formação muitas coisas são de índole espanhola. Ali conheci muito bem a todos os poetas espanhóis. Soube quem era Lorca, Cernuda, qual era o valor de Rafael Alberti e conheci os poetas da geração de 50: Paco Brines, Ángel González, Jaime Gil e Caballero Bonald. Com todos convivi e conservo ainda sua amizade e minha admiração. Eu dou graças à fortuna que me permitiu conhecer a Borges.

Conheceu Borges na Espanha?

Sim, quando estava na Complutense. Depois o vi e conversei com ele muitas vezes em outros lugares. Eu o conheci muito jovem; antes que alguém soubesse aqui quem era Borges eu era borgiano. Tanto é assim que minha tese de grau eu fiz em 1970 sobre Borges. E na Espanha a primeira tese de doutorado que se fez sobre Borges é a minha. Esse mérito não me tira ninguém; contra vento e maré, porque os espanhóis franquistas não gostavam de Borges, porque ele se tinha zombado deles e escrito contra Américo Castro.

Quando foi morar em Nova York?

No início dos anos oitenta. Trabalhei vários anos em uma universidade de mulheres, Marymount Manhattam College. Ali dirigi o Departamento de Literaturas hispânicas e dirigi uma coleção que publicou muitos escritores de língua espanhola, apresentava-os em um importante teatro de Manhattam com muito bom público.

O que mais destaca desse período nova-iorquino?

Duas coisas descobri nos Estados Unidos. Primeiro, a poesia norte-americana, li muita poesia. E segundo, a literatura do Brasil que me causou um deslumbramento muito superior ao que me causa a literatura em inglês.

Leu Guimarães Rosa?

Sim, claro. Já eu tinha ouvido falar dele na Espanha por Ángel Crespo, que depois seria o tradutor de Grande sertão: veredas ao espanhol. Agora, a mim assombrou foi em português, pois aí, apesar das dificuldades, se percebe o esplendor da prosa de Guimarães, um ponto culminante da literatura. A enorme distância de muitos dos nossos romances famosos.

Neste período você começa a traduzir Kavafis?

Como não. Traduzo com uma grega amiga minha que se chama Rena Frantzis. Eu o conheci na Espanha pelas traduções do poeta José Ángel Valente. Na Colômbia, o primeiro que traduziu poemas de Kavafis foi Fernando Arbeláez. A primeira tradução volumosa foi feita por um espanhol das Ilhas Canárias chamado Santana;, eu conheci essa edição e causou-me um deslumbramento impressionante.

E por que esse deslumbramento?

Bom, não somente pela maneira de tratar a História, mas sim fundamentalmente pela visão do mundo erótico. Não sei, é muito estranho, mas eu nunca pensava em Kavafis como um homossexual passivo, mas sim que pensava que era ativo, e então, depois, as mulheres que liam comigo me faziam ver o feminino, que é o que me atrai: como Kavafis alimenta esse lado feminino que todos nós temos e esse desejo também de travestir nossa masculinidade. E isso me parecia maravilhoso. Em Nova York conheci o poeta Regas Kappatos, tradutor ao grego de Neruda e de muitos poetas latino-americanos, e ele lia Kavafis em grego para mim e assim percebi a diferencia nos tons com o espanhol. Aí me entusiasmei e com Rena, também grega e que era aluna minha e uma mulher cultíssima que sabia umas seis línguas, começamos a trabalhar na tradução diretamente do original. Fizemos 112 poemas, mas eu deixei uns 50 em uma edição mimeografada que foi para Chiapas onde fizeram uma edição e depois na Univalle fizeram outra.

Traduziu depois T. S. Eliot?

Sim, uma tradução que muitos que conhecem bem o inglês consideram interessante, a proposta que eu faço para ler a Eliot em espanhol. No entanto, minha sorte como tradutor é pouca, acabam de lançar um livro sobre tradução em uma prestigiosa editora de poesia em Bogotá no qual sou ignorado como tradutor.

Ao longo dos anos você foi recopilando todos os seus poemas como fossem de um só livro. Nunca teve a preocupação de publicar vários livros de poesia?

É verdade. Eu faço como fazia Walt Whitman. Nunca acreditei nessa superstição de que tem de publicar livros coerentes. Os versos sobrevivem sós, não sobrevivem em companhia de outros versos. Isso é uma mentira do tamanho de um elefante. Uma pessoa escreve bons versos ou não os escreve. Com dez que escreva bons, já está, posso me dar por bem servido.

Como vê sua própria poesia? Quais são os assuntos que a alimentam?

A única coisa que posso dizer, depois de tantas coisas que me aconteceram, é que comprovo que estive dedicado à purificação da arte, que eu sou como um monge chinês que repete e corrige sua caligrafia. Demoro-me muito, não escrevi muitos poemas, não me preocupa. A única coisa de que tenho certeza é que aprendi a trabalhar a arte de fazer poemas. O resto, que o diga o destino. Interessa-me mais o que possa gozar do presente que do futuro.

Você tem muito da rebeldia e do desencanto de sua geração, a exploração do corpo e a condição efêmera do humano. O que pode dizer-nos sobre isso?

Eu me formo por um lado no marxismo, passei noites em claro lendo Marx e todos os Althuseres. Por outro lado, tinha a Borges e a literatura latino-americana, e depois descubro a Kavafis, sua visão da Historia me põe em alerta. Tudo isso me parecia literário, me parecia imaginário, ficção, mas é que me toca viver a cruel realidade, o desbaratamento de minha geração.

Como assim o desbaratamento?

Muitos de meus companheiros terminaram sendo uns sem-vergonha e os melhores de então agora são os piores. E isso aos montes. De modo que não é um desencanto gratuito. E por muito valentes que sejam, inclusive muitos dos poetas dessa geração, que se chamaram muito encantados, estão hoje muito desencantados; não porque se tenham saído mal, mas por suas próprias ações, por querer ser poetas ou ocupar lugares de primeira fila também venderam a alma ao diabo. Por nada, grátis. Não foram capazes de resistir um pouquinho, ouviram tilintar as moedas e atiraram-se sobre elas. Isso não só aconteceu com meus amigos políticos, mas também com meus amigos poetas. Por isso, eu guardo minha profissão de poeta muito retirada do mundo frívolo no qual se move a poesia colombiana hoje.

E sua relação com a China?

Desde menino sonhei com visitar a China. Não tenho nenhuma explicação para este desejo que se realizou nos anos noventa. A China muda minha vida, minha maneira de pensar, de amar, de ser. Pude viver diretamente as experiências de meus colegas na vida cotidiana e pude conhecer livros e autores que sem ir à China é muito difícil conhecer e compreender. Meus amigos chineses levaram-me por muitos lugares de maravilha e não tenho senão gratidão para com eles. Não só publicaram meus poemas, meus escritos, como também me convidaram a escrever em suas revistas e me publicaram tanto em chinês quanto em outros quatro ou cinco idiomas. Um de meus mais queridos livros, Poemas chinos de amor, foi feito em Beijing com a colaboração de tradutores chineses. Se a vida me dá vida, muitos destes anos eu dedicarei ao estudo de assuntos chineses, como o budismo, a poesia e a história dessa grande nação.

A China muda sua vida?

Completamente. Agora sou o mais pobre e o mais humilde dos homens. Ali assumo outra maneira de ver a vida e o mundo. Enquanto nutri a alma na China, em Nova York nutri foi o corpo.

Essa experiência foi tremenda. Sua poesia de Nova York é muito dolorosa?

Sim, mostra a crueldade dessa cidade, por isso intitulo os poemas como El libro del extrañado.

Você foi ao Brasil faz uns anos, como foi isso?

Foi uma vivencia maravilhosa. Pena que não foi uma vivência prolongada. Com essa ducha que tomei, comprovei com sobras tudo o que tinha lido.

Também foi a Buenos Aires?

Estive várias vezes, mas como tinha lido tanto não me causou a impressão do Brasil. Como ensinei tantos anos Borges e literatura romântica latino-americana, da qual muitos de seus principais autores são argentinos, Buenos Aires era-me muito familiar.

Qual foi a dor ou o amor que moveu sua poesia?

O que me moveu é o mistério da arte.

E o mistério do corpo?

Como diz o poema, não deixei nada por realizar.

Sua poesia rompe com essa tradição contida e morigerada colombiana?

Essa sim é uma das causas de minha poesia. Impulsiona-me a possibilidade de romper com essa tradição pacata. E também dessas maneiras afetadas como a de Barba Jacob que não gosto. Ele fala sim de coisas impuras, mas muito conservadoramente, muito como da Idade Media, como se às escondidas. Não há nada de modernidade nele. Ao contrário, eu sim tratei de por em meus poemas as vozes do feminino e do masculino e de confundir o leitor, de propósito. Não me importa o gênero nos poemas, nem na vida real.

Finalmente, poeta, agora que volta ao Vale do Cauca, que projetos tem?

Quero fazer publicações pequenas, com anotações críticas, com o maior número possível de poetas do mundo. Fazê-las com amigos daqui e de outras partes do mundo. Esse é o projeto que tenho. Quero escrever alguns ensaios e gostaria de escrever um romance. Estive lendo o romance de Luis Fayad, La caída de los puntos cardinales, acho maravilhoso e me dá muita vontade de fazer uma coisa ainda que fosse parecida a essa.

E de poesia?

Se as musas querem, seguirei escrevendo poemas e se não, também. Se alguns dos noventa ou cem poemas que escrevi servem para algo, para que mais. Vários deles foram traduzidos ao português, inglês, chinês, alemão, grego, francês e italiano.

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