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Banda Hispânica (collage, Floriano Martins)

Alvaro Mutis

Collage, Floriano Martins

 

A poesia de Alvaro Mutis

Floriano Martins

A publicação recente de uma antologia poética do colombiano Alvaro Mutis no Brasil (Poesias, seleção e tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, Editora Record, RJ, 2000) é novamente oportunidade para a discussão de dois aspectos: nosso crônico desconhecimento da literatura dos países vizinhos e os excessos cometidos talvez em nome de um equívoco facilismo quando se trata da tradução do espanhol para o português.

Mutis já foi publicado entre nós em duas outras ocasiões, através das novelas A neve do Almirante e Ilona chega com a chuva, ambas pela Companhia das Letras. Talvez seja curioso que tais livros não tenham alcançado o êxito merecido, mas está claro que isto não tem a ver com a obra em si, e sim com a falta de perspectiva de nosso mercado editorial. Basta pensar no volume de 702 pgs editado pela espanhola Alfaguara, contendo todas as novelas de Mutis: Siete novelas (Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero).

Na Colômbia, é possível encontrar um volume de 734 pgs dedicado à poesia e à prosa de Mutis, livro editado pelo Instituto Colombiano de Cultura, como prova de que a ação institucional, no âmbito cultural, não pode ser desconsiderada por governo algum. A frase não é gratuita se pensarmos tanto no descaso dado ao tema no Brasil como em sua recente capitulação por parte do governo colombiano.

Não há dúvida de que Alvaro Mutis (1923) seja um dos autores mais consistentes e renovadores na literatura hispano-americana deste século findo. No prólogo do livro aqui comentado, William Ospina acentua a necessidade da América se fazer presente na obra de seus escritores, afirmando que "o toque de vastidão que a América impõe" não se encontra na obra dos modernistas, a exemplo de Leopoldo Lugones ou Rubén Darío.

Ao falar de uma correlação entre língua e canto da terra, recorrendo a uma mito-poética defendida, por exemplo, por Ernesto Cardenal, Ospina arrisca a afirmação de que Mutis "é um dos primeiros poetas em que essa correspondência é total". Uma leitura apressada desse aspecto nos levou ao equívoco do realismo mágico. Uma outra segue impondo a inúmeros autores um obscurecimento imperdoável.

Importa referir-se à poética de Alvaro Mutis por uma certa inversão de valores estéticos entre prosa e verso, mais do que pelo vertiginoso mergulho em uma degradação da espécie humana ou uma entrada na vastidão americana. Ali mescla-se o verso, a prosa poética, a crônica, o relato histórico e o ensaísmo, independente do resultado se apresentar como poesia ou ficção. Em tal aspecto radica a grande novidade de sua obra.

É curioso que não se faça referência à participação de Mutis no grupo Mito, na Bogotá dos anos 50, onde compartilhou com intelectuais como Fernando Arbeláez, Rogelio Echavarría, Fernando Charry Lara e Jorge Gaitán Durán. Como recorda Charry Lara, "queríamos conciliar a vigília e o sonho, a consciência e o delírio", acrescentando que "a exatidão deveria valer tanto como o mistério".

Dentro de uma tradição colombiana, não se pode deixar de discutir a poética de Mutis por dois ângulos: um deles refere-se ao tratamento da linguagem - no caso de Aurelio Arturo (1906-1974), vinculado ao grupo "Piedra y Cielo", de excessivo apego formalista - enquanto que o outro está ligado à criação de personagens - e aqui é imprescindível a menção ao grande León de Greiff (1895-1976), de geração anterior, conhecida como "Los Nuevos".

Se vamos discutir o autor Alvaro Mutis, esta edição da Record é insuficiente por não situá-lo na tradição poética colombiana ou hispano-americana. Mutis, um monarquista irreconciliável, já em 1948 dizia: "o grande fracasso que desde o começo dos tempos é a poesia não creio caritativo compartilhá-lo com ninguém". Posteriormente declararia: "a única função que deve ter uma obra de arte é criar valores estéticos permanentes".

Não resta dúvida de que a tradução interfere na compreensão desses valores estéticos. Há casos em que lhes dá uma idéia tão distorcida que compromete tudo o que porventura sabíamos acerca do autor em questão. Até que ponto o casual pode ser considerado menos criminoso do que o intencional? A tradução desta antologia de Mutis nos leva a pensar que não basta ser poeta para ser bom tradutor. É preciso ainda mais do que o conhecimento da língua em suas minúcias, sendo da ordem da identificação a exigência mais radical.

Na prática, a tradução de Geraldo Holanda é oscilante, equivocando-se em abrandamentos ("la sal de los dormidos", por "o sal do sono", ou "torrenteras del delta" por "águas do delta"), miopia poética ("madera en sombra" por "tronco encoberto"), presunção que impede ida ao dicionário ("retenido" por "refletido", "ramas" por "remos", "cerco" por "círculo", "subir" por "escapar"), como sobretudo não percebe que a voragem contida da poética de Mutis se opõe à completa submissão estrutural de nossa geração de 45.

O livro acaba resultando em desserviço a um diálogo que devemos estabelecer entre cultura brasileira e hispano-americana. Editores precisam entender que tal diálogo permanece fora do MERCOSUL, de seu princípio gerador, uma vez que não se trata isoladamente de pôr no mercado, mas sim de criar uma relação, ainda que de mercado, consistente, respaldada em profissionais que, em uma e outra margem, sejam considerados pelo trabalho em si e não por indicações fortuitas.

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