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EM EXCLUSIVO COM SANTIAGO MONTOBBIO: A POÉTICA DA DESCOBERTA

Jorge Sanglard

O essencial na poesia é a descoberta e a contribuição original de cada poeta, o carácter único e insubstituível de sua voz. A obra poética do escritor espanhol Santiago Montobbio dialoga com certas tradições da poesia contemporânea ou da poesia moderna, das quais pode ser um elo, mas, às vezes, simboliza uma ruptura, já que seus poemas estão marcados por uma forte personalidade e constituem uma contribuição original. O equilíbrio entre tradição e ruptura é uma marca de sua escrita. Entre as leituras que contribuíram para despertar seu amor pela poesia, podem ser destacados os grandes poetas de 27 (Manuel Altolaguirre, Luis Cernuda), algum grande poeta catalão (Espriu, Foix), os poetas neo-gregos da geração de 1930 e também os autores hispano-americanos, principalmente, Borges, porque outras devoções foram descobertas muito mais tarde, já adulto. Ao admitir que nunca teve nenhum modelo a seguir, ressalva algumas referências, reafirma que sua poesia é alheia a influências e argumenta que, talvez, seja o momento de assinalar que sua obra foi escrita a partir de uma profunda solidão, e nasceu em meio a um isolamento. O abandono, a morte e a solidão permeiam sua poética inicial, e, segundo Montobbio, escrever é um ato de desafiar tais questões que rondam a existência humana: “é uma maneira de convocá-las, de explorá-las e mergulhar nelas, para ver se nos aproximamos de seu fundo e se nos aprimoramos ou desaparecemos sobre ele: trata-se de, nelas, crescer para dentro”. De acordo com a velha raiz catártica, sua poesia é uma maneira de purgar, de superar e, de algum modo, também de desafiar estas questões. Assim, a motivação principal de Montobbio para escrever tem sido a de salvar a si mesmo. Certa vez, afirmou que a poesia é um ramo civil e laico da soterologia, a ciência da salvação, e assegura que, agora, é preciso dizer isso de novo e relacionado com o antigo e grego aspecto catártico da arte, através do qual purgaríamos ou superaríamos as paixões que perturbam. Assim, certos poemas sobre o suicídio podem ter ajudado o autor a escapar da tentação deste, ao expressá-la, ou conjurá-la e realizá-la deste modo no poema, e, de modo geral, escrever poemas indiscutivelmente sombrios pode ter contribuído para levar uma vida equilibrada e que não traduza esta tonalidade. Montobbio enfatiza: “escrevo para me salvar, o que significa expressar o que mais profundamente sou, resumir a mim mesmo em minha mais verdadeira medida. Escrevo por necessidade e desde um profundo amor. Com o desprendimento e a convicção que apenas o amor dá. Além de uma exploração e aprofundamento em si mesmo, escrever é um exercício radical de liberdade”. Afinal, “mais que escrever para todos e para ninguém, como queria Nietzsche, ao escrever se é todos e se é ninguém. Às vezes, ou indo um pouco mais longe, se poderia afirmar que, ao salvar-se a si mesmo, o poeta salva também a todos”. Viver é um desafio e, às vezes, afirma Montobbio, o único que podemos e devemos fazer. Algo semelhante sucede com a arte: “se é verdadeira, a criação artística implica um desafio. Mas não me impus nenhum desafio de maneira prévia ou programada, e escrever não teve para mim este sentido: escrevi o que me foi dado escrever, com paixão e intensidade, e com simplicidade, sem desejos específicos de alcançar ou transgredir nada”. Sobre seu destino na arte no futuro, alega não saber se é dar nova vida às palavras ou completar as já escritas com o silêncio, mas espera cumprí-lo com igual desinteresse, paixão e entrega: “creio que se pode encontrar uma exigência e uma aposta nesta naturalidade, e se escrevi no primeiro verso de meu primeiro livro ‘Não é bom apertar a alma, para ver se sai tinta’, posso dizer que fui fiel a este no meu trabalho poético”. A tradução para o português do livro “El anarquista de las bengalas” (March Editor – Barcelona), realizada pelo também poeta, ensaísta e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Fernando Fábio Fiorese Furtado, é vista pelo escritor como uma grande alegria: “tenho enorme estima pelo trabalho de seleção e tradução que Fernando Fábio Fiorese Furtado levou a cabo a partir de sua sensibilidade de poeta, e com grande acerto”. Sobre os poetas portugueses e brasileiros, Santiago Montobbio confessa que procurou lê-los em edições bilíngües, que “permitiram poder adentrar o texto original, e sentir assim a música e as palavras nesta língua irmã, apesar de não tê-la estudado”. Contundente, o poeta espanhol diz que é preciso que a indústria editorial, a imprensa e as livrarias tenham mais estima pelo texto com valor artístico: “o frágil mercado de poesia está saturado de livros de poetas sem nenhum valor, que publicam graças às relações de amizade e outras, e este extremo acomete também grande parte da crítica (se é que se pode chamá-la deste modo), servil e mediatizada, dois aspectos da grosseria moral que nos invade”. O autor argumenta que “deveria ser dedicado mais espaço à poesia nas publicações e suplementos literários e ter uma melhor distribuição, para que estivesse mais presente junto aos leitores; assim se contribuiria para ampliar este mercado tão minoritário, viciado por males endêmicos”. Licenciado em Direito e Filologia Hispânica pela Universidade de Barcelona, professor de Teoria da Literatura da Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED), vice-presidente da Association pour le Rayonnement des Langues Européennes (ARLE), de Neuilly-sur-Seine, e correspondente em Barcelona da revista Europe Plurilingue, publicada pelas Éditions Université Paris 8, Santiago Montobbio revela suas idéias literárias, em exclusivo, para o «das Artes das Letras».

JS Octavio Paz define a poesia moderna como “tradição de ruptura”. No quadro da lírica espanhola contemporânea, a sua poesia dialoga mais intensamente com a tradição ou com a ruptura? Ou acredita que já não vigora tal idéia acerca da arte moderna?

SM Resulta especialmente penetrante e acertado o lembrete de Oliverio Girondo: “A poesia sempre é o outro, aquele que todos ignoram até que o descobre um verdadeiro poeta”. Porque, em poesia, essencial é, na verdade, a descoberta e a contribuição original de cada poeta, o carácter único e insubstituível de sua voz – e se, de fato, assim não se dá, não há poeta. Esta contribuição, esta descoberta, implicam sempre um alargamento da realidade e da poesia que a engendra, e compreende uma ruptura com a precedente. Assim, parece-me acertada esta assertiva de Octavio Paz: a ruptura é já uma tradição, uma vez tratar-se de algo inevitável, sendo que a poesia moderna se constituiu assim em uma tradição de ruptura. Ainda que de forma tênue, meus poemas podem ser inscritos em uma tradição, ou considerá-los com em diálogo com ela. Em minha obra poética pode-se distinguir vários tipos de poemas (alguns complementam, explicam e fazem possíveis os outros), e estes dialogam com certas tradições (da poesia espanhola contemporânea ou da poesia moderna), das quais seriam elos ou, às vezes, uma ruptura nelas, já que estão marcados por uma forte personalidade e constituem uma contribuição original às mesmas. Talvez se possa pensar que minha poesia dialoga mais – é isto que me pergunta – com a ruptura do que com a tradição, considerando a singularidade de sua voz. Em todo caso, trata-se de ponto pessoal de equilíbrio entre tradição e ruptura, e assim se constitui como um elemento característico desta formulação que Octavio Paz faz da poesia moderna.

JS Quais são seus principais referenciais poéticos?

SM Entre minhas leituras formativas e que contribuíram para despertar meu amor pela poesia, posso destacar a dos grandes poetas de 27, algum grande poeta catalão (Espriu, Foix), os poetas neo-gregos da generação de 1930 e também os autores hispano-americanos, os quais sempre senti como meus e, dentre eles, mencionarei, pensando neste sentido, Borges, porque outras devoções foram descobertas muito mais tarde, já adulto, tal como a grande arte de poeta que há nos romances e contos de Augusto Roa Bastos, ou a poesia cristalizada de Roberto Juarroz. Junto à lembrança da delicadeza da poesia de Manuel Altolaguirre, quero, entre os poetas de 27, destacar o nome de Luis Cernuda. Aparte estas leituras iniciais, e as que se seguiram e me deram ajuda e companhia, além de contribuir para despertar, como já disse, meu amor pela poesia, devo assinalar que nunca tive nenhum modelo poético a seguir (se a isso se refere a pergunta), ainda que obviamente tenha referências. Parece-me uma conseqüência lógica da natureza da criação, que consiste na expressão profunda e radical de si mesmo. Assim, minha poesia é alheia a influências. Podem existir caminhos cruzados de maneira natural: se escrevemos poemas narrativos, cabe assinalar que, na modernidade, foi Cernuda que abriu esta possibilidade em minha língua. Mas esta linguagem pode nos ter sido imposta, como a ele, por necessidade íntima, de modo completamente pessoal. Talvez seja o momento de assinalar que minha poesia foi escrita a partir de uma profunda solidão, e nasceu em meio a um isolamento. E que se pode edificar um território poético que, para se expandir e crescer para dentro, se alimente sobretudo de si mesmo.

JS E suas motivações para escrever?

SM Minha motivação principal para escrever tem sido a de salvar a mim mesmo. Comentei alguma vez que a poesia é um ramo civil e laico da soterologia, a ciêcia da salvação, e diria isso de novo. Poderíamos relacioná-lo com o antigo e grego aspecto catártico da arte, através do qual purgaríamos ou superaríamos as paixões que nos perturbam, e não nos enganaríamos: assim, certos poemas sobre o suicídio (para os quais algum crítico chamou a atenção) podem ter-me ajudado a escapar da tentação deste, ao expressá-la (ou conjurá-la e realizá-la deste modo no poema), e, de modo geral, escrever poemas indiscutivelmente sombrios podem ter contribuído para levarmos uma vida equilibrada e que não traduza esta tonalidade. Assim, escrevo para me salvar, o que significa expressar o que mais profundamente sou, resumir a mim mesmo em minha mais verdadeira medida. Escrevo por necessidade e desde um profundo amor. Com o desprendimento e a convicção que apenas o amor dá. Além de uma exploração e aprofundamento em si mesmo, escrever é um exercício radical de liberdade.

JS O abandono, a morte e a solidão permeiam sua poética inicial. Escrever é um ato de desafiar tais questões que rondam a existência humana?

SM Entendo que sim. É uma maneira de convocá-las, de explorá-las e mergulhar nelas, para ver se nos aproximamos de seu fundo e se nos aprimoramos ou desaparecemos sobre ele: trata-se de, nelas, crescer para dentro. Também, de acordo com a velha raiz catártica que, como comentei, tem minha poesia, de purgá-las ou superá-las. Tudo isso e de algum modo também desafiá-las. Escrever é, sim, desafiar estas questões.

JS Como o estudo do direito, da ética e da filosofia marcou sua trajetória pessoal e literária?

SM Para um escritor, os estudos convencionalmente considerados não têm nenhuma importância, e é natural, portanto, que o artista tenha uma formação essencialmente auto-didata. Assim posso dizer que tem sido no meu caso em grande medida, pois sempre fui um leitor que lê por prazer, segundo os impulsos e interesses do momento, sem programas nem sistemas prefixados. Para um artista, a paixão intelectual está sempre preenchida pela arte, e, de um ponto de vista íntimo, pode não desejar nem necessitar cursar estudos regulares. Mas isto pode ser impensável em seu ambiente familiar e social e também uma decisão suicida ou ao menos equivocada para sua incorporação à vida. O tempo que nos tomam os estudos ou trabalhos alheios à literatura e que podem oprimir-nos por impedirem que nos dediquemos mais à arte é o mesmo, independentemente da matéria – é igual, neste sentido, estudar Direito, Medicina ou Engenharia. Largo é o viver, tudo nos nutre e nos conforma, e penso que é bom ter interesses culturais variados, assim como uma formação não exclusivamente literária. Porque, de algum modo, nada é alheio à literatura. Ainda mais necessário que a formação e os estudos é não se subtrair das tensões da vida, estar pronto para traduzir e expressar as pulsões que ela suscita e convoca em nós, desde o amor e também a abominação por ela. Não é da formação acadêmica e dos estudos que provém a criação artística, mas da necessidade de expressão que surge das contingências da vida. A partir delas e da misteriosa realidade da experiência interior se modula a personalidade artística e se produz a madureza de uma voz.

JS Até que ponto sua poesia opera muitas vezes sobre imagens de cunho surrealista?

SM Obviamente meus poemas não poderiam ser inscritos dentro do movimento surrealista, mas pode-se considerar que têm imagens com esta feição. Distantes de serem poemas desta escola, e não sendo um especial seguidor dela, persistem neles algumas de suas lições, já que estas imagens a que se refere provêm do grande exercício de liberdade que supunha o surrealismo, de uma liberação e potencialização da imaginação que perdura. Estas imagens, por sua vez, nascem assim de maneira natural na minha escrita, se inserem nela de modo completamente espontâneo. Sobrevive este aspecto do surrealismo porque ao potencializar a liberdade na criação não fez senão mergulhar no substrato natural da criação artística: fomentou e desenvolveu esta feição, que está na sua própria raiz. Caberia relacionar o modo pessoal como estão empregados os elementos – imagens – cuja procedência poderia referir ao surrealismo com o modo como o movimento se deu e foi aproveitado na Espanha. Luis Cernuda afirmou que era a corrente espiritual da juventude de uma época, diante da qual não quis nem pode permanecer indiferente – e, como sabemos, de fato, transformou sua poesia. Poderíamos completar esta bela assertiva indicando que, além de definir uma época, estava no ar, no ambiente dela mesma. Poderia exemplificar isso a experiência do filme Un chien andalou: Luis Buñuel conta em suas memórias que, quando o fez com Dalí, nenhum dos dois jamais ouvira falar do surrealismo; perguntado em Paris sobre se a película era surrealista, respondeu que acreditava que sim, e depois de projetá-la foi aclamada pelos membros do movimento como um produto emblemático do mesmo (e que tinha sido feito sem ter notícia de sua existência nem ouvido nomear). Também Lorca escreveu Poeta en Nueva York isolado e distante dos cenáculos parisienses, e as pontes pelas quais se abriu caminho ao movimento no país foram incertas e frágeis: assim Cernuda recordava a importância que tiveram para os poetas espanhóis os poucos poemas que publicou Juan Larrea em algumas revistas, e que foram suficientes para abrir uma porta para uma nova maneira de fazer arte. O surrealismo na Espanha foi empregado de maneira singular, sem seguir estritamente as pautas do movimento, e assim não se utilizou – por exemplo - a escrita automática. Em declarações que recolhe Gabriele Morelli em sua edição de Pasión de la tierra, Vicente Aleixandre afirma que cada um dos poetas de sua geração tinha sua maneira de escrever surrealismo. Este emprego pessoal do movimento talvez tenha produzido frutos mais altos, exagero que poderia resumir o juízo de Cernuda sobre Aleixandre, segundo o qual o surrealismo obteve com ele o que não tinha em sua terra de origem: um grande poeta. Poderíamos dizer algo semelhante do uso que fizeram do surrealismo os poetas neo-gregos da geração de 1930 e dos resultados que alcançaram. Corrente espiritual de uma época e da qual estava impregnado o ar da mesma, foi utilizado na Espanha de maneira pessoal, com excelentes resultados. E sua presença perdurou para além de sua época e dos limites históricos do movimento em alguns aspectos, porque entrelaçada com as entranhas da criação, dotando de maior força e liberdade elementos fundamentais da mesma; assim, em alguma medida, sua maneira de expressar e fazer arte poética transcendeu o seu tempo, e se incorporou a práticas poéticas não surrealistas, que têm dele apenas estes aspectos. É por isso que se pode considerar algumas ou muitas de minhas imagens de cunho surrealista, e – seguindo a tradição de meu país – entendo o emprego deste modo de fazer poético de uma forma muito pessoal.

JS Em muitos dos poemas de El anarquista de las bengalas empresta-se a voz ao outro, empregando imagens teatrais e cinematográficas. Qual o papel das dramatis personae na sua escrita?

SM O conhecido verso de Rafael Alberti (“Yo nací – ¡respetadme! – con el cine”) resume uma época, como também o faz aquele com que o emendou Jaime Gil de Biedma: “Yo nací (perdonadme) / en la edad de la pérgola y el tenis”. Mas não é meu tempo aquele em que o cinema era uma novidade deslumbrante, e estava presente, junto com outras, na poesia de maneira explícita, e, por outro lado, não fui especialmente cinéfilo (poderia recordar, a este respeito, o título de um poema muito breve: “Tendría que ir más al cine”). A semelhança que assinala de minha poesia com o cinema ou teatro pode ser explicada pelo que se percebe de maneira natural entre as artes, os seus modos de contar e representar podem recordar os de outra arte, sem ser um autor especialmente afetado por eles, e a presença de imagens delas porque a poesia é também – e fundamentalmente – uma representação. Um poema é uma profunda expressão de si mesmo, mas, às vezes, nessa expressão, há ou media certa distância, já que é uma representação, uma voz que se constrói, e neste sentido pode assemelhar-se com as outras duas artes citadas. O papel das dramatis personae em minha escrita exige uma resposta mais concreta e detida. “Dramatis personae” é o título da última seção de meu primeiro livro, Hospital de inocentes, estruturada por longos poemas narrativos, no que poderia qualificar-se de recapitulação ou, inclusive, ajuste de contas com si mesmo. É uma linguagem nova e, sem dúvida, de modulação moral (sendo que, por detrás de uma nova atitude formal, aponta, claro, uma imagem moral). Estes poemas de andamento meditativo, de feição moral, narrativos, estão presentes em outros livros contemporâneos (há alguns na última seção de El anarquista de las bengalas), e também podem ser encontrados em outros escritos mais adiante, com a natural evolução no tom. Poderia dizer que nestes poemas se escreve tanto com sabedoria como com distância (“como se a outro visse”, diz o primeiro poema), e que em sua postura o poeta não encerra nenhuma impostura. O título desta seção foi colocado com o sentimento de “isto é o que há”, ou seja, de que este – e assim se anuncia – é todo o teatro de que é capaz por si mesmo, a voz e o modo em que pode edificar-se. Seria bom sentir que este personagem que se constrói a si mesmo tem razão, isto é, que sua voz vence porque convence, e pode cumprir assim a única subversão verdadeira: que o leitor acredite nela – e assim a exija, acompanhe e ameace.

JS Escrevendo sobre o poeta português Eugénio de Andrade, o crítico Eduardo Lourenço afirma: “A Poesia não tem nome. À sua imagem, o poeta é o homem incógnito. Como poderia ter um nome se a Poesia é o homem à procura do seu nome? Porém, essa ausência de si que a palavra ‘Poesia’ mascara, é um apelo a todos os nomes reais do homem”. Na medida em que, também na sua poesia, a procura ou a perda do nome faz questão, poderia comentá-las?

SM Em minha poesia estão presentes, de fato, a conquista do nome e também sua perda, e a questão da identidade ao criar arte, de um modo tal que as palavras de Eduardo Lourenço me parecem especialmente acertadas e também que, não apenas podem se relacionar com minha obra poética, mas, de algum modo, quase poderiam predicá-la neste aspecto. É o que posso afirmar, e assinalar esta vontade de apropriação, de conquista e de forjar um nome que subjaz na escrita dos poemas, e também o temor e a presença de sua perda – assim como no final do poema “Os mortos” (“Porque perdido o nome, viver / é uma queda”), ou “Onde treme o nome”: “A solidão é uma fronteira onde treme o nome, / e atrás dela não há senão um inferno / onde as pontas dos dedos não guardam desenhos / que nos possam distinguir”. Ao escrever, o artista forja, busca e cria seu nome mais profundo e verdadeiro, e às vezes, de certo modo, este resta diluído em sua criação. É um pouco com este sentido que a questão da identidade está também presente de uma maneira particular em minha poesia (e nas palavras que me pede para comentar). Assim recordaria o primeiro poema de El anarquista de las bengalas, “Desde mi ventana oscura” (“A cidade que ninguém vê, e é a maior, / nela trabalham e estão condenados / a ser sempre iguais / todos os meus ninguéns”), e outro posterior, intitulado “Continuada derrota do sistema decimal” e que diz assim: “Planetário poeta em teus enigmas: / ninguém ser sendo tu todos,/ todos ser sendo já ninguém”. Em ambos encontra-se refletida esta questão, e especialmente no último: mais que escrever para todos e para ninguém, como queria Nietzsche, ao escrever se é todos e se é ninguém. Às vezes, ou indo um pouco mais longe, se poderia afirmar que, ao salvar-se a si mesmo, o poeta salva também a todos.

JS O premiado poeta brasileiro Iacyr Anderson Freitas afirma que “todo poeta nasceu para ser antologiado”. Para você, como é ser antologiado?

SM Borges afirmava que o destino de todo poeta era legar às antologias alguns poucos poemas (e nem este teria o protagonista de seu dístico “Un poeta menor”: “La meta es el olvido./ Yo he llegado antes”). Pode parecer um destino pobre, mas me parece natural que de uma obra reste uma antologia da mesma: numa obra poética se alcançam pontos mais altos, há poemas especialmente significativos e que se tornam muito representativos de uma forma de dizer e de criar arte, e é natural, como digo, que dela perdure o conjunto destes. Octavio Paz dizia que as obras breves resistem melhor ao tempo, e talvez a maneira de resistir a ele que as obras mais extensas têm seja restarem cifradas em uma antologia. Merece comentário o que representa para um poeta a possibilidade de fazer uma antologia de sua própria poesia. Tive a oportunidade de fazer uma por solicitação da Universidade de Siena, o que me permitiu levar em consideração minha poesia na perspectiva de seu conjunto, organizando-a de um modo mais orgânico e fluido, de modo a ficar mais próximo do modo como foi escrita. Em alguns de meus livros dispus de um espaço determinado e reduzido, o qual me levou a privilegiar algum tipo de fazer; apesar desta limitação de espaço, quis fazer livros, os quais tiveram unidade moral de livros. Uma antologia para a qual se disponha de espaço suficiente permite uma visão mais equilibrada de uma obra poética: possibilita organizá-la de novo, e que o leitor possa acercar-se dela com uma nova estrutura, distinta daquela que seria uma mera reunião dos livros como tais. Ao compilar sua poesia completa, Gerardo Diego decidiu que não ia tocar nos livros publicados, e que os deixaria como estavam. Pode-se sentir, então, que os livros são entendidos como algo fossilizado e intocável, ainda que, às vezes, sua decisão seja em parte compreensível e tenha algo de acertado, porque os poemas já estariam enlaçados e unidos desta maneira, fixados assim, e não podemos ignorá-lo. Essas estruturas e organizações já ganharam foro de cidadania dentro de uma poesia. É por isso que as tive em mente ao realizar esta antologia, mas apenas em certa medida, já que combinei suas estruturas com uma nova ordenação, respeitando em parte os grupos de poemas já criados e, às vezes, entrelaçando-os e dispondo de novo modo, contemplando minha poesia como um todo. Falo da possibilidade que supõe alguém realizar uma antologia da própria poesia, o que lhe permitiria traçar uma visão de conjunto dela, superando os condicionamentos que motivaram as estruturas impostas (e neste sentido mais artificiais) dos livros, de forma que estas sejam agrupadas em uma ordenação mais natural e fluida, quando, às vezes, as funde e dilui. Outra coisa é ser antologiado por outra pessoa, destino que, como disse, me parece natural para um poeta e que pode cumprir-se com maior ou menor sorte segundo o antologista.

JS Como é ver sua obra selecionada e traduzida para o português por um outro autor?

SM É uma grande alegria que minha poesia possa ser lida nesta língua irmã, e tenho enorme estima pelo trabalho de seleção e tradução que Fernando Fábio Fiorese Furtado levou a cabo a partir de sua sensibilidade de poeta, e com grande acerto. Entendo que as realizou a partir de um sentimento de proximidade e comunhão com minha poesia e entre ambas as línguas, e que ele se tansparece em sua tarefa.

JS Qual é o seu principal desafio literário?

SM Viver é um desafio e, às vezes, o único que podemos e devemos fazer. Algo semelhante sucede com a arte. Se é verdadeira, a criação artística implica, desde um radical exercício de liberdade, um desafio: assim me parece que é essencialmente. Mas, às vezes, nunca planejei me escrever como tal de maneira premeditada ou muito consciente, como programa ou ideário, embora o tenha realizado com a maior e mais espontânea e livre naturalidade. Não me impus nenhum desafio de maneira prévia ou programada, e escrever não teve para mim este sentido: escrevi o que me foi dado escrever, com paixão e intensidade, e às vezes com simplicidade, sem desejos específicos de alcançar ou transgredir nada. Creio que cumpri o destino que me foi dado na arte com absoluta honestidade, e que escrevi com fidelidade e rigor, segundo me ditou o que sentia que devia escrever. Assim, posso sentir a criação artística como um trabalho cumprido. Não sei qual será o meu destino na arte no futuro, se dar nova vida às palavras ou completar as já escritas com o silêncio, mas espero cumprí-lo com igual desinteresse, paixão e entrega. Porque escrever é e deve ser um desafio, mas insisto em assinalar que o levei a cabo como a atividade mais natural que se possa conceber, em indissolúvel união com o viver, atividade tão natural e inevitável quanto pode ser respirar. Creio que se pode encontrar uma exigência e uma aposta nesta naturalidade, e se escrevi no primeiro verso de meu primeiro livro (“Não é bom apertar a alma, para ver se sai tinta”), posso dizer que fui fiel a este no meu trabalho poético.

JS Como você analisa as políticas de incentivo à leitura na Espanha? E o papel da literatura na escola?

SM As políticas de fomento à leitura na Espanha têm sido sempre esporádicas e insuficientes, e em geral não resultaram demasiado afortunadas, talvez porque tampouco tiveram um enfoque atrativo que as ajudasse. Algo semelhante se pode dizer dos escassos programas sobre livros na televisão, em inconveniente faixa horária, habitualmente tediosos, mal conduzidos e sem atrativos, pelo que não conseguem despertar interesse. Não tenho uma idéia precisa de qual é o papel reservado atualmente à literatura nas escolas, mas creio que lhe são dados espaço e uma atenção por completo insuficientes. O modo como se aborda a literatura nelas parece estar acometido de um mal endêmico: promover a leitura de textos de clássicos que dificilmente podem se conectar com a sensibilidade dos jovens. Dever-se-ia iniciá-los na leitura com textos mais contemporâneos e que lhes fossem mais próximos – chegariam aos clássicos mais tarde. Assim, talvez fosse possível despertar o seu amor pela literatura e o seu interesse pela leitura, e não se desperdiçaria a oportunidade de inculcar tais sentimentos em uma idade decisiva para sua formação, na qual tudo é absorvido de maneira plástica e imediata. É lamentável não aproveitar esta oportunidade de abrir-lhes esta janela para vida, mas assim parece acontecer. Vicente Aleixandre recordava que os textos que o fizeram ler no colégio não tinham despertado nele nenhum interesse, e que este nasceu ao ler Rubén Darío, cuja poesia lhe foi apresentada pelo amigo Damaso Alonso em um dos verões que passavam juntos. Senão a sua vocação, esta leitura despertou, ao menos, sua afeição pela poesia. E todos somos, neste caso, Vicente Aleixandre, porque as leituras que fizeram nascer nosso amor e interesse pela literatura não são as que realizamos no colégio, mas as que nos aconselharam algum amigo, irmão ou pessoa próxima.

JS Qual sua relação com a poesia contemporânea brasileira e portuguesa?

SM Não tenho um conhecimento especialmente amplo delas, embora tenha lido alguns de seus clássicos e autores principais. Procurei lê-los em edições bilíngües, que me permitiram poder adentrar o texto original, e sentir assim a música e as palavras nesta língua irmã, apesar de não tê-la estudado. Mas são tradicionalmente poucas estas edições bilíngües – recordo-me de uma dos anos oitenta do maravilhoso livro de poemas em prosa de Eugénio de Andrade, Vertientes de la mirada – Vertentes do olhar. Jean Cocteau afirmava que um escritor deveria ter leitores apenas entre as pessoas de sua própria língua, e quero recordá-lo porque me parece que é fundamentalmente certo. Mas talvez pudéssemos fazer uma exceção entre as línguas românicas e a natural comunidade que formam. Assim Borges censurava que se traduzisse a Divina commedia ao castelhano, porque isto fomentava a superstição – falsa – de que castelhano e italiano eram dois idiomas distintos. Pode-se qualificar de boutade, mas também reconhecer que – como ocorre com muitas delas – encerra uma verdade. Porque é certa a profunda proximidade e irmandade que nos une a outra língua românica, a gozosa semelhança que percebemos em sua maneira de sentir a realidade. Assim, procurei ler a poesia brasileira e portuguesa em parte na língua original, com a ajuda da tradução. Confio em poder prescindir no futuro desta ajuda, já que espero estudar e aprender breve esta língua, e que isto me permita ter acesso a sua poesia em seu texto original, de forma que possa lê-la e apreciá-la com maior profundidade, aumentando meu desfrute e conhecimento dela.

JS O que é preciso fazer para romper o cerco que limita a difusão literária atualmente? No caso da poesia, a limitação é ainda maior na Espanha?

SM Seria preciso que a indústria editorial, a imprensa e as livrarias tivessem mais estima pelo texto com valor artístico, e não estivessem tão submetidas à voracidade comercial e a seus lucros. Defrontamo-nos com verdadeiras imposições e absurdos. O frágil mercado de poesia está saturado de livros de poetas sem nenhum valor, que publicam graças às relações de amizade e outras, e este extremo acomete também grande parte da crítica (se é que se pode chamá-la deste modo), servil e mediatizada, dois aspectos da grosseria moral que nos invade. O livro de um poeta medíocre e o espaço que lhe dedica uma crítica absurdamente elogiosa deslocam e sufocam a autores mais valiosos, cujas obras permanecem inéditas ou são publicadas de maneira precária, das quais o leitor não pode aproximar-se. Deveria, evidentemente, ser dedicado mais espaço à poesia nas publicações e suplementos literários, e ter uma melhor distribuição, para que estivesse mais presente junto aos leitores; assim se contribuiria para ampliar este mercado tão minoritário, viciado por males endêmicos. Na Espanha, encontramos também absurdos que não têm explicação do ponto de vista da cultura: uma literatura é definida por seu idioma, a nossa é aquela escrita em castelhano, mas há dificuldades para dispor de edições dos poetas hispano-americanos. Deveria ser possível encontrar numa livraria a poesia de Juarroz ou Girondo, tanto quanto a de Machado ou Alberti. Mas não é assim.  

[Originalmente publicada em O Primeiro de Janeiro (Porto, Portugal): 30/06/2008.]

 

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