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EM
EXCLUSIVO COM SANTIAGO MONTOBBIO: A POÉTICA DA DESCOBERTA
Jorge
Sanglard
O
essencial na poesia é a descoberta e a contribuição original de
cada poeta, o carácter único e insubstituível de sua voz. A obra
poética do escritor espanhol Santiago Montobbio dialoga com
certas tradições da poesia contemporânea ou da poesia moderna,
das quais pode ser um elo, mas, às vezes, simboliza uma ruptura,
já que seus poemas estão marcados por uma forte personalidade e
constituem uma contribuição original. O equilíbrio entre
tradição e ruptura é uma marca de sua escrita. Entre as leituras
que contribuíram para despertar seu amor pela poesia, podem ser
destacados os grandes poetas de 27 (Manuel Altolaguirre, Luis
Cernuda), algum grande poeta catalão (Espriu, Foix), os poetas
neo-gregos da geração de 1930 e também os autores
hispano-americanos, principalmente, Borges, porque outras
devoções foram descobertas muito mais tarde, já adulto. Ao
admitir que nunca teve nenhum modelo a seguir, ressalva algumas
referências, reafirma que sua poesia é alheia a influências e
argumenta que, talvez, seja o momento de assinalar que sua obra
foi escrita a partir de uma profunda solidão, e nasceu em meio a
um isolamento. O abandono, a morte e a solidão permeiam sua
poética inicial, e, segundo Montobbio, escrever é um ato de
desafiar tais questões que rondam a existência humana: “é uma
maneira de convocá-las, de explorá-las e mergulhar nelas, para
ver se nos aproximamos de seu fundo e se nos aprimoramos ou
desaparecemos sobre ele: trata-se de, nelas, crescer para
dentro”. De acordo com a velha raiz catártica, sua poesia é uma
maneira de purgar, de superar e, de algum modo, também de
desafiar estas questões. Assim, a motivação principal de
Montobbio para escrever tem sido a de salvar a si mesmo. Certa
vez, afirmou que a poesia é um ramo civil e laico da soterologia,
a ciência da salvação, e assegura que, agora, é preciso dizer
isso de novo e relacionado com o antigo e grego aspecto
catártico da arte, através do qual purgaríamos ou superaríamos
as paixões que perturbam. Assim, certos poemas sobre o suicídio
podem ter ajudado o autor a escapar da tentação deste, ao
expressá-la, ou conjurá-la e realizá-la deste modo no poema, e,
de modo geral, escrever poemas indiscutivelmente sombrios pode
ter contribuído para levar uma vida equilibrada e que não
traduza esta tonalidade. Montobbio enfatiza: “escrevo para me
salvar, o que significa expressar o que mais profundamente sou,
resumir a mim mesmo em minha mais verdadeira medida. Escrevo por
necessidade e desde um profundo amor. Com o desprendimento e a
convicção que apenas o amor dá. Além de uma exploração e
aprofundamento em si mesmo, escrever é um exercício radical de
liberdade”. Afinal, “mais que escrever para todos e para
ninguém, como queria Nietzsche, ao escrever se é todos e se é
ninguém. Às vezes, ou indo um pouco mais longe, se poderia
afirmar que, ao salvar-se a si mesmo, o poeta salva também a
todos”. Viver é um desafio e, às vezes, afirma Montobbio, o
único que podemos e devemos fazer. Algo semelhante sucede com a
arte: “se é verdadeira, a criação artística implica um desafio.
Mas não me impus nenhum desafio de maneira prévia ou programada,
e escrever não teve para mim este sentido: escrevi o que me foi
dado escrever, com paixão e intensidade, e com simplicidade, sem
desejos específicos de alcançar ou transgredir nada”. Sobre seu
destino na arte no futuro, alega não saber se é dar nova vida às
palavras ou completar as já escritas com o silêncio, mas espera
cumprí-lo com igual desinteresse, paixão e entrega: “creio que
se pode encontrar uma exigência e uma aposta nesta naturalidade,
e se escrevi no primeiro verso de meu primeiro livro ‘Não é bom
apertar a alma, para ver se sai tinta’, posso dizer que fui fiel
a este no meu trabalho poético”. A tradução para o português do
livro “El anarquista de las bengalas” (March Editor –
Barcelona), realizada pelo também poeta, ensaísta e professor da
Universidade Federal de Juiz de Fora, Fernando Fábio Fiorese
Furtado, é vista pelo escritor como uma grande alegria: “tenho
enorme estima pelo trabalho de seleção e tradução que Fernando
Fábio Fiorese Furtado levou a cabo a partir de sua sensibilidade
de poeta, e com grande acerto”. Sobre os poetas portugueses e
brasileiros, Santiago Montobbio confessa que procurou lê-los em
edições bilíngües, que “permitiram poder adentrar o texto
original, e sentir assim a música e as palavras nesta língua
irmã, apesar de não tê-la estudado”. Contundente, o poeta
espanhol diz que é preciso que a indústria editorial, a imprensa
e as livrarias tenham mais estima pelo texto com valor
artístico: “o frágil mercado de poesia está saturado de livros
de poetas sem nenhum valor, que publicam graças às relações de
amizade e outras, e este extremo acomete também grande parte da
crítica (se é que se pode chamá-la deste modo), servil e
mediatizada, dois aspectos da grosseria moral que nos invade”. O
autor argumenta que “deveria ser dedicado mais espaço à poesia
nas publicações e suplementos literários e ter uma melhor
distribuição, para que estivesse mais presente junto aos
leitores; assim se contribuiria para ampliar este mercado tão
minoritário, viciado por males endêmicos”. Licenciado em Direito
e Filologia Hispânica pela Universidade de Barcelona, professor
de Teoria da Literatura da Universidade Nacional de Educação à
Distância (UNED), vice-presidente da Association pour le
Rayonnement des Langues Européennes (ARLE), de Neuilly-sur-Seine,
e correspondente em Barcelona da revista Europe Plurilingue,
publicada pelas Éditions Université Paris 8, Santiago Montobbio
revela suas idéias literárias, em exclusivo, para o «das Artes
das Letras».
JS
Octavio Paz define a poesia moderna como “tradição de ruptura”.
No quadro da lírica espanhola contemporânea, a sua poesia
dialoga mais intensamente com a tradição ou com a ruptura? Ou
acredita que já não vigora tal idéia acerca da arte moderna?
SM
Resulta especialmente penetrante e acertado o lembrete de
Oliverio Girondo: “A poesia sempre é o outro, aquele que todos
ignoram até que o descobre um verdadeiro poeta”. Porque, em
poesia, essencial é, na verdade, a descoberta e a contribuição
original de cada poeta, o carácter único e insubstituível de sua
voz – e se, de fato, assim não se dá, não há poeta. Esta
contribuição, esta descoberta, implicam sempre um alargamento da
realidade e da poesia que a engendra, e compreende uma ruptura
com a precedente. Assim, parece-me acertada esta assertiva de
Octavio Paz: a ruptura é já uma tradição, uma vez tratar-se de
algo inevitável, sendo que a poesia moderna se constituiu assim
em uma tradição de ruptura. Ainda que de forma tênue, meus
poemas podem ser inscritos em uma tradição, ou considerá-los com
em diálogo com ela. Em minha obra poética pode-se distinguir
vários tipos de poemas (alguns complementam, explicam e fazem
possíveis os outros), e estes dialogam com certas tradições (da
poesia espanhola contemporânea ou da poesia moderna), das quais
seriam elos ou, às vezes, uma ruptura nelas, já que estão
marcados por uma forte personalidade e constituem uma
contribuição original às mesmas. Talvez se possa pensar que
minha poesia dialoga mais – é isto que me pergunta – com a
ruptura do que com a tradição, considerando a singularidade de
sua voz. Em todo caso, trata-se de ponto pessoal de equilíbrio
entre tradição e ruptura, e assim se constitui como um elemento
característico desta formulação que Octavio Paz faz da poesia
moderna.
JS
Quais são seus principais referenciais poéticos?
SM
Entre minhas leituras formativas e que contribuíram para
despertar meu amor pela poesia, posso destacar a dos grandes
poetas de 27, algum grande poeta catalão (Espriu, Foix), os
poetas neo-gregos da generação de 1930 e também os autores
hispano-americanos, os quais sempre senti como meus e, dentre
eles, mencionarei, pensando neste sentido, Borges, porque outras
devoções foram descobertas muito mais tarde, já adulto, tal como
a grande arte de poeta que há nos romances e contos de Augusto
Roa Bastos, ou a poesia cristalizada de Roberto Juarroz. Junto à
lembrança da delicadeza da poesia de Manuel Altolaguirre, quero,
entre os poetas de 27, destacar o nome de Luis Cernuda. Aparte
estas leituras iniciais, e as que se seguiram e me deram ajuda e
companhia, além de contribuir para despertar, como já disse, meu
amor pela poesia, devo assinalar que nunca tive nenhum modelo
poético a seguir (se a isso se refere a pergunta), ainda que
obviamente tenha referências. Parece-me uma conseqüência lógica
da natureza da criação, que consiste na expressão profunda e
radical de si mesmo. Assim, minha poesia é alheia a influências.
Podem existir caminhos cruzados de maneira natural: se
escrevemos poemas narrativos, cabe assinalar que, na
modernidade, foi Cernuda que abriu esta possibilidade em minha
língua. Mas esta linguagem pode nos ter sido imposta, como a
ele, por necessidade íntima, de modo completamente pessoal.
Talvez seja o momento de assinalar que minha poesia foi escrita
a partir de uma profunda solidão, e nasceu em meio a um
isolamento. E que se pode edificar um território poético que,
para se expandir e crescer para dentro, se alimente sobretudo de
si mesmo.
JS
E suas motivações para escrever?
SM
Minha motivação principal para escrever tem sido a de salvar a
mim mesmo. Comentei alguma vez que a poesia é um ramo civil e
laico da soterologia, a ciêcia da salvação, e diria isso de
novo. Poderíamos relacioná-lo com o antigo e grego aspecto
catártico da arte, através do qual purgaríamos ou superaríamos
as paixões que nos perturbam, e não nos enganaríamos: assim,
certos poemas sobre o suicídio (para os quais algum crítico
chamou a atenção) podem ter-me ajudado a escapar da tentação
deste, ao expressá-la (ou conjurá-la e realizá-la deste modo no
poema), e, de modo geral, escrever poemas indiscutivelmente
sombrios podem ter contribuído para levarmos uma vida
equilibrada e que não traduza esta tonalidade. Assim, escrevo
para me salvar, o que significa expressar o que mais
profundamente sou, resumir a mim mesmo em minha mais verdadeira
medida. Escrevo por necessidade e desde um profundo amor. Com o
desprendimento e a convicção que apenas o amor dá. Além de uma
exploração e aprofundamento em si mesmo, escrever é um exercício
radical de liberdade.
JS
O abandono, a morte e a solidão permeiam sua poética inicial.
Escrever é um ato de desafiar tais questões que rondam a
existência humana?
SM
Entendo que sim. É uma maneira de convocá-las, de explorá-las e
mergulhar nelas, para ver se nos aproximamos de seu fundo e se
nos aprimoramos ou desaparecemos sobre ele: trata-se de, nelas,
crescer para dentro. Também, de acordo com a velha raiz
catártica que, como comentei, tem minha poesia, de purgá-las ou
superá-las. Tudo isso e de algum modo também desafiá-las.
Escrever é, sim, desafiar estas questões.
JS
Como o estudo do direito, da ética e da filosofia marcou sua
trajetória pessoal e literária?
SM
Para um escritor, os estudos convencionalmente considerados não
têm nenhuma importância, e é natural, portanto, que o artista
tenha uma formação essencialmente auto-didata. Assim posso dizer
que tem sido no meu caso em grande medida, pois sempre fui um
leitor que lê por prazer, segundo os impulsos e interesses do
momento, sem programas nem sistemas prefixados. Para um artista,
a paixão intelectual está sempre preenchida pela arte, e, de um
ponto de vista íntimo, pode não desejar nem necessitar cursar
estudos regulares. Mas isto pode ser impensável em seu ambiente
familiar e social e também uma decisão suicida ou ao menos
equivocada para sua incorporação à vida. O tempo que nos tomam
os estudos ou trabalhos alheios à literatura e que podem
oprimir-nos por impedirem que nos dediquemos mais à arte é o
mesmo, independentemente da matéria – é igual, neste sentido,
estudar Direito, Medicina ou Engenharia. Largo é o viver, tudo
nos nutre e nos conforma, e penso que é bom ter interesses
culturais variados, assim como uma formação não exclusivamente
literária. Porque, de algum modo, nada é alheio à literatura.
Ainda mais necessário que a formação e os estudos é não se
subtrair das tensões da vida, estar pronto para traduzir e
expressar as pulsões que ela suscita e convoca em nós, desde o
amor e também a abominação por ela. Não é da formação acadêmica
e dos estudos que provém a criação artística, mas da necessidade
de expressão que surge das contingências da vida. A partir delas
e da misteriosa realidade da experiência interior se modula a
personalidade artística e se produz a madureza de uma voz.
JS
Até que ponto sua poesia opera muitas vezes sobre imagens de
cunho surrealista?
SM
Obviamente meus poemas não poderiam ser inscritos dentro do
movimento surrealista, mas pode-se considerar que têm imagens
com esta feição. Distantes de serem poemas desta escola, e não
sendo um especial seguidor dela, persistem neles algumas de suas
lições, já que estas imagens a que se refere provêm do grande
exercício de liberdade que supunha o surrealismo, de uma
liberação e potencialização da imaginação que perdura. Estas
imagens, por sua vez, nascem assim de maneira natural na minha
escrita, se inserem nela de modo completamente espontâneo.
Sobrevive este aspecto do surrealismo porque ao potencializar a
liberdade na criação não fez senão mergulhar no substrato
natural da criação artística: fomentou e desenvolveu esta
feição, que está na sua própria raiz. Caberia relacionar o modo
pessoal como estão empregados os elementos – imagens – cuja
procedência poderia referir ao surrealismo com o modo como o
movimento se deu e foi aproveitado na Espanha. Luis Cernuda
afirmou que era a corrente espiritual da juventude de uma época,
diante da qual não quis nem pode permanecer indiferente – e,
como sabemos, de fato, transformou sua poesia. Poderíamos
completar esta bela assertiva indicando que, além de definir uma
época, estava no ar, no ambiente dela mesma. Poderia
exemplificar isso a experiência do filme Un chien andalou: Luis
Buñuel conta em suas memórias que, quando o fez com Dalí, nenhum
dos dois jamais ouvira falar do surrealismo; perguntado em Paris
sobre se a película era surrealista, respondeu que acreditava
que sim, e depois de projetá-la foi aclamada pelos membros do
movimento como um produto emblemático do mesmo (e que tinha sido
feito sem ter notícia de sua existência nem ouvido nomear).
Também Lorca escreveu Poeta en Nueva York isolado e distante dos
cenáculos parisienses, e as pontes pelas quais se abriu caminho
ao movimento no país foram incertas e frágeis: assim Cernuda
recordava a importância que tiveram para os poetas espanhóis os
poucos poemas que publicou Juan Larrea em algumas revistas, e
que foram suficientes para abrir uma porta para uma nova maneira
de fazer arte. O surrealismo na Espanha foi empregado de maneira
singular, sem seguir estritamente as pautas do movimento, e
assim não se utilizou – por exemplo - a escrita automática. Em
declarações que recolhe Gabriele Morelli em sua edição de Pasión
de la tierra, Vicente Aleixandre afirma que cada um dos poetas
de sua geração tinha sua maneira de escrever surrealismo. Este
emprego pessoal do movimento talvez tenha produzido frutos mais
altos, exagero que poderia resumir o juízo de Cernuda sobre
Aleixandre, segundo o qual o surrealismo obteve com ele o que
não tinha em sua terra de origem: um grande poeta. Poderíamos
dizer algo semelhante do uso que fizeram do surrealismo os
poetas neo-gregos da geração de 1930 e dos resultados que
alcançaram. Corrente espiritual de uma época e da qual estava
impregnado o ar da mesma, foi utilizado na Espanha de maneira
pessoal, com excelentes resultados. E sua presença perdurou para
além de sua época e dos limites históricos do movimento em
alguns aspectos, porque entrelaçada com as entranhas da criação,
dotando de maior força e liberdade elementos fundamentais da
mesma; assim, em alguma medida, sua maneira de expressar e fazer
arte poética transcendeu o seu tempo, e se incorporou a práticas
poéticas não surrealistas, que têm dele apenas estes aspectos. É
por isso que se pode considerar algumas ou muitas de minhas
imagens de cunho surrealista, e – seguindo a tradição de meu
país – entendo o emprego deste modo de fazer poético de uma
forma muito pessoal.
JS
Em muitos dos poemas de El anarquista de las bengalas
empresta-se a voz ao outro, empregando imagens teatrais e
cinematográficas. Qual o papel das dramatis personae na sua
escrita?
SM
O conhecido verso de Rafael Alberti (“Yo nací – ¡respetadme! –
con el cine”) resume uma época, como também o faz aquele com que
o emendou Jaime Gil de Biedma: “Yo nací (perdonadme) / en la
edad de la pérgola y el tenis”.
Mas não é
meu tempo aquele em que o cinema era uma novidade deslumbrante,
e estava presente, junto com outras, na poesia de maneira
explícita, e, por outro lado, não fui especialmente cinéfilo
(poderia recordar, a este respeito, o título de um poema muito
breve: “Tendría que ir más al cine”). A semelhança que assinala
de minha poesia com o cinema ou teatro pode ser explicada pelo
que se percebe de maneira natural entre as artes, os seus modos
de contar e representar podem recordar os de outra arte, sem ser
um autor especialmente afetado por eles, e a presença de imagens
delas porque a poesia é também – e fundamentalmente – uma
representação. Um poema é uma profunda expressão de si mesmo,
mas, às vezes, nessa expressão, há ou media certa distância, já
que é uma representação, uma voz que se constrói, e neste
sentido pode assemelhar-se com as outras duas artes citadas. O
papel das dramatis personae em minha escrita exige uma resposta
mais concreta e detida. “Dramatis personae” é o título da última
seção de meu primeiro livro, Hospital de inocentes, estruturada
por longos poemas narrativos, no que poderia qualificar-se de
recapitulação ou, inclusive, ajuste de contas com si mesmo. É
uma linguagem nova e, sem dúvida, de modulação moral (sendo que,
por detrás de uma nova atitude formal, aponta, claro, uma imagem
moral). Estes poemas de andamento meditativo, de feição moral,
narrativos, estão presentes em outros livros contemporâneos (há
alguns na última seção de El anarquista de las bengalas), e
também podem ser encontrados em outros escritos mais adiante,
com a natural evolução no tom. Poderia dizer que nestes poemas
se escreve tanto com sabedoria como com distância (“como se a
outro visse”, diz o primeiro poema), e que em sua postura o
poeta não encerra nenhuma impostura. O título desta seção foi
colocado com o sentimento de “isto é o que há”, ou seja, de que
este – e assim se anuncia – é todo o teatro de que é capaz por
si mesmo, a voz e o modo em que pode edificar-se. Seria bom
sentir que este personagem que se constrói a si mesmo tem razão,
isto é, que sua voz vence porque convence, e pode cumprir assim
a única subversão verdadeira: que o leitor acredite nela – e
assim a exija, acompanhe e ameace.
JS
Escrevendo sobre o poeta português Eugénio de Andrade, o crítico
Eduardo Lourenço afirma: “A Poesia não tem nome. À sua imagem, o
poeta é o homem incógnito. Como poderia ter um nome se a Poesia
é o homem à procura do seu nome? Porém, essa ausência de si que
a palavra ‘Poesia’ mascara, é um apelo a todos os nomes reais do
homem”. Na medida em que, também na sua poesia, a procura ou a
perda do nome faz questão, poderia comentá-las?
SM
Em minha poesia estão presentes, de fato, a conquista do nome e
também sua perda, e a questão da identidade ao criar arte, de um
modo tal que as palavras de Eduardo Lourenço me parecem
especialmente acertadas e também que, não apenas podem se
relacionar com minha obra poética, mas, de algum modo, quase
poderiam predicá-la neste aspecto. É o que posso afirmar, e
assinalar esta vontade de apropriação, de conquista e de forjar
um nome que subjaz na escrita dos poemas, e também o temor e a
presença de sua perda – assim como no final do poema “Os mortos”
(“Porque perdido o nome, viver / é uma queda”), ou “Onde treme o
nome”: “A solidão é uma fronteira onde treme o nome, / e atrás
dela não há senão um inferno / onde as pontas dos dedos não
guardam desenhos / que nos possam distinguir”. Ao escrever, o
artista forja, busca e cria seu nome mais profundo e verdadeiro,
e às vezes, de certo modo, este resta diluído em sua criação. É
um pouco com este sentido que a questão da identidade está
também presente de uma maneira particular em minha poesia (e nas
palavras que me pede para comentar). Assim recordaria o primeiro
poema de El anarquista de las bengalas, “Desde mi ventana oscura”
(“A cidade que ninguém vê, e é a maior, / nela trabalham e estão
condenados / a ser sempre iguais / todos os meus ninguéns”), e
outro posterior, intitulado “Continuada derrota do sistema
decimal” e que diz assim: “Planetário poeta em teus enigmas: /
ninguém ser sendo tu todos,/ todos ser sendo já ninguém”. Em
ambos encontra-se refletida esta questão, e especialmente no
último: mais que escrever para todos e para ninguém, como queria
Nietzsche, ao escrever se é todos e se é ninguém. Às vezes, ou
indo um pouco mais longe, se poderia afirmar que, ao salvar-se a
si mesmo, o poeta salva também a todos.
JS
O premiado poeta brasileiro Iacyr Anderson Freitas afirma que
“todo poeta nasceu para ser antologiado”. Para você, como é ser
antologiado?
SM
Borges afirmava que o destino de todo poeta era legar às
antologias alguns poucos poemas (e nem este teria o protagonista
de seu dístico “Un poeta menor”: “La meta es el olvido./ Yo he
llegado antes”). Pode parecer um destino pobre, mas me parece
natural que de uma obra reste uma antologia da mesma: numa obra
poética se alcançam pontos mais altos, há poemas especialmente
significativos e que se tornam muito representativos de uma
forma de dizer e de criar arte, e é natural, como digo, que dela
perdure o conjunto destes. Octavio Paz dizia que as obras breves
resistem melhor ao tempo, e talvez a maneira de resistir a ele
que as obras mais extensas têm seja restarem cifradas em uma
antologia. Merece comentário o que representa para um poeta a
possibilidade de fazer uma antologia de sua própria poesia. Tive
a oportunidade de fazer uma por solicitação da Universidade de
Siena, o que me permitiu levar em consideração minha poesia na
perspectiva de seu conjunto, organizando-a de um modo mais
orgânico e fluido, de modo a ficar mais próximo do modo como foi
escrita. Em alguns de meus livros dispus de um espaço
determinado e reduzido, o qual me levou a privilegiar algum tipo
de fazer; apesar desta limitação de espaço, quis fazer livros,
os quais tiveram unidade moral de livros. Uma antologia para a
qual se disponha de espaço suficiente permite uma visão mais
equilibrada de uma obra poética: possibilita organizá-la de
novo, e que o leitor possa acercar-se dela com uma nova
estrutura, distinta daquela que seria uma mera reunião dos
livros como tais. Ao compilar sua poesia completa, Gerardo Diego
decidiu que não ia tocar nos livros publicados, e que os
deixaria como estavam. Pode-se sentir, então, que os livros são
entendidos como algo fossilizado e intocável, ainda que, às
vezes, sua decisão seja em parte compreensível e tenha algo de
acertado, porque os poemas já estariam enlaçados e unidos desta
maneira, fixados assim, e não podemos ignorá-lo. Essas
estruturas e organizações já ganharam foro de cidadania dentro
de uma poesia. É por isso que as tive em mente ao realizar esta
antologia, mas apenas em certa medida, já que combinei suas
estruturas com uma nova ordenação, respeitando em parte os
grupos de poemas já criados e, às vezes, entrelaçando-os e
dispondo de novo modo, contemplando minha poesia como um todo.
Falo da possibilidade que supõe alguém realizar uma antologia da
própria poesia, o que lhe permitiria traçar uma visão de
conjunto dela, superando os condicionamentos que motivaram as
estruturas impostas (e neste sentido mais artificiais) dos
livros, de forma que estas sejam agrupadas em uma ordenação mais
natural e fluida, quando, às vezes, as funde e dilui. Outra
coisa é ser antologiado por outra pessoa, destino que, como
disse, me parece natural para um poeta e que pode cumprir-se com
maior ou menor sorte segundo o antologista.
JS
Como é ver sua obra selecionada e traduzida para o português por
um outro autor?
SM
É uma grande alegria que minha poesia possa ser lida nesta
língua irmã, e tenho enorme estima pelo trabalho de seleção e
tradução que Fernando Fábio Fiorese Furtado levou a cabo a
partir de sua sensibilidade de poeta, e com grande acerto.
Entendo que as realizou a partir de um sentimento de proximidade
e comunhão com minha poesia e entre ambas as línguas, e que ele
se tansparece em sua tarefa.
JS
Qual é o seu principal desafio literário?
SM
Viver é um desafio e, às vezes, o único que podemos e devemos
fazer. Algo semelhante sucede com a arte. Se é verdadeira, a
criação artística implica, desde um radical exercício de
liberdade, um desafio: assim me parece que é essencialmente.
Mas, às vezes, nunca planejei me escrever como tal de maneira
premeditada ou muito consciente, como programa ou ideário,
embora o tenha realizado com a maior e mais espontânea e livre
naturalidade. Não me impus nenhum desafio de maneira prévia ou
programada, e escrever não teve para mim este sentido: escrevi o
que me foi dado escrever, com paixão e intensidade, e às vezes
com simplicidade, sem desejos específicos de alcançar ou
transgredir nada. Creio que cumpri o destino que me foi dado na
arte com absoluta honestidade, e que escrevi com fidelidade e
rigor, segundo me ditou o que sentia que devia escrever. Assim,
posso sentir a criação artística como um trabalho cumprido. Não
sei qual será o meu destino na arte no futuro, se dar nova vida
às palavras ou completar as já escritas com o silêncio, mas
espero cumprí-lo com igual desinteresse, paixão e entrega.
Porque escrever é e deve ser um desafio, mas insisto em
assinalar que o levei a cabo como a atividade mais natural que
se possa conceber, em indissolúvel união com o viver, atividade
tão natural e inevitável quanto pode ser respirar. Creio que se
pode encontrar uma exigência e uma aposta nesta naturalidade, e
se escrevi no primeiro verso de meu primeiro livro (“Não é bom
apertar a alma, para ver se sai tinta”), posso dizer que fui
fiel a este no meu trabalho poético.
JS
Como você analisa as políticas de incentivo à leitura na
Espanha? E o papel da literatura na escola?
SM
As políticas de fomento à leitura na Espanha têm sido sempre
esporádicas e insuficientes, e em geral não resultaram demasiado
afortunadas, talvez porque tampouco tiveram um enfoque atrativo
que as ajudasse. Algo semelhante se pode dizer dos escassos
programas sobre livros na televisão, em inconveniente faixa
horária, habitualmente tediosos, mal conduzidos e sem atrativos,
pelo que não conseguem despertar interesse. Não tenho uma idéia
precisa de qual é o papel reservado atualmente à literatura nas
escolas, mas creio que lhe são dados espaço e uma atenção por
completo insuficientes. O modo como se aborda a literatura nelas
parece estar acometido de um mal endêmico: promover a leitura de
textos de clássicos que dificilmente podem se conectar com a
sensibilidade dos jovens. Dever-se-ia iniciá-los na leitura com
textos mais contemporâneos e que lhes fossem mais próximos –
chegariam aos clássicos mais tarde. Assim, talvez fosse possível
despertar o seu amor pela literatura e o seu interesse pela
leitura, e não se desperdiçaria a oportunidade de inculcar tais
sentimentos em uma idade decisiva para sua formação, na qual
tudo é absorvido de maneira plástica e imediata. É lamentável
não aproveitar esta oportunidade de abrir-lhes esta janela para
vida, mas assim parece acontecer. Vicente Aleixandre recordava
que os textos que o fizeram ler no colégio não tinham despertado
nele nenhum interesse, e que este nasceu ao ler Rubén Darío,
cuja poesia lhe foi apresentada pelo amigo Damaso Alonso em um
dos verões que passavam juntos. Senão a sua vocação, esta
leitura despertou, ao menos, sua afeição pela poesia. E todos
somos, neste caso, Vicente Aleixandre, porque as leituras que
fizeram nascer nosso amor e interesse pela literatura não são as
que realizamos no colégio, mas as que nos aconselharam algum
amigo, irmão ou pessoa próxima.
JS
Qual sua relação com a poesia contemporânea brasileira e
portuguesa?
SM
Não tenho um conhecimento especialmente amplo delas, embora
tenha lido alguns de seus clássicos e autores principais.
Procurei lê-los em edições bilíngües, que me permitiram poder
adentrar o texto original, e sentir assim a música e as palavras
nesta língua irmã, apesar de não tê-la estudado. Mas são
tradicionalmente poucas estas edições bilíngües – recordo-me de
uma dos anos oitenta do maravilhoso livro de poemas em prosa de
Eugénio de Andrade, Vertientes de la mirada – Vertentes do
olhar. Jean Cocteau afirmava que um escritor deveria ter
leitores apenas entre as pessoas de sua própria língua, e quero
recordá-lo porque me parece que é fundamentalmente certo. Mas
talvez pudéssemos fazer uma exceção entre as línguas românicas e
a natural comunidade que formam. Assim Borges censurava que se
traduzisse a Divina commedia ao castelhano, porque isto
fomentava a superstição – falsa – de que castelhano e italiano
eram dois idiomas distintos. Pode-se qualificar de boutade, mas
também reconhecer que – como ocorre com muitas delas – encerra
uma verdade. Porque é certa a profunda proximidade e irmandade
que nos une a outra língua românica, a gozosa semelhança que
percebemos em sua maneira de sentir a realidade. Assim, procurei
ler a poesia brasileira e portuguesa em parte na língua
original, com a ajuda da tradução. Confio em poder prescindir no
futuro desta ajuda, já que espero estudar e aprender breve esta
língua, e que isto me permita ter acesso a sua poesia em seu
texto original, de forma que possa lê-la e apreciá-la com maior
profundidade, aumentando meu desfrute e conhecimento dela.
JS
O que é preciso fazer para romper o cerco que limita a difusão
literária atualmente? No caso da poesia, a limitação é ainda
maior na Espanha?
SM
Seria preciso que a indústria editorial, a imprensa e as
livrarias tivessem mais estima pelo texto com valor artístico, e
não estivessem tão submetidas à voracidade comercial e a seus
lucros. Defrontamo-nos com verdadeiras imposições e absurdos. O
frágil mercado de poesia está saturado de livros de poetas sem
nenhum valor, que publicam graças às relações de amizade e
outras, e este extremo acomete também grande parte da crítica
(se é que se pode chamá-la deste modo), servil e mediatizada,
dois aspectos da grosseria moral que nos invade. O livro de um
poeta medíocre e o espaço que lhe dedica uma crítica
absurdamente elogiosa deslocam e sufocam a autores mais
valiosos, cujas obras permanecem inéditas ou são publicadas de
maneira precária, das quais o leitor não pode aproximar-se.
Deveria, evidentemente, ser dedicado mais espaço à poesia nas
publicações e suplementos literários, e ter uma melhor
distribuição, para que estivesse mais presente junto aos
leitores; assim se contribuiria para ampliar este mercado tão
minoritário, viciado por males endêmicos. Na Espanha,
encontramos também absurdos que não têm explicação do ponto de
vista da cultura: uma literatura é definida por seu idioma, a
nossa é aquela escrita em castelhano, mas há dificuldades para
dispor de edições dos poetas hispano-americanos. Deveria ser
possível encontrar numa livraria a poesia de Juarroz ou Girondo,
tanto quanto a de Machado ou Alberti. Mas não é assim.
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