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Las Otras,
de Aimée Bolaños, e a viagem em direção ao outro
Carlos Alexandre Baumgarten
O
tema da imigração tem se revelado, no âmbito da escrita
literária e das reflexões teórico-críticas, recorrente nas
últimas décadas. Contudo, mais do que a temática da imigração, o
que tem chamado a atenção dos estudiosos é a questão relativa à
produção literária de emigrantes cujo número, em tempos de
globalização, só tem aumentado, contribuindo para a diluição das
fronteiras nacionais, obrigando a que se pense a literatura
segundo outros parâmetros que não aqueles estabelecidos a partir
do conceito de estado-nação. Tal circunstância está, também,
intimamente vinculada ao conceito de identidade que, igualmente,
precisa ser redimensionado para que possam ser abarcados os
aspectos que envolvem a literatura produzida por emigrantes.
Stuart Hall, refletindo sobre a questão, registra que, numa
época de sistemas de comunicação globalmente interligados,
mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de
tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem
“flutuar livremente” (HALL, 1999, p. 75). Nessa perspectiva,
afirmam-se noções como as de literatura do exílio, voluntário ou
não, de desenraizamento, de desterritorialização, de
transculturalismo, entre outros, cujo objetivo é a explicação da
produção literária de emigrantes que, quantitativa e
qualitativamente, tem se revelado uma das mais significativas
ocorrências no campo da literatura contemporânea.
É
precisamente nesse âmbito que se situa a poesia de Aimée Bolaños,
poeta cubana, residente no Brasil há dez anos aproximadamente,
onde exerce as funções de professora de Literatura
Hispano-Americana, nos cursos de Graduação em Letras da Fundação
Universidade Federal do Rio Grande. Atua, além disso, no
Programa de Pós-Graduação em Letras da mesma Universidade,
especialmente na disciplina de Tópicos Avançados de História da
Literatura, onde focaliza a literatura latino-americana, aí
incluída a Literatura Brasileira. Antes de sua vinda para o
Brasil, Aimée Bolaños esteve, como professora visitante, por
várias vezes, fora de seu país natal. Tal circunstância permitiu
não só que entrasse em contato, intensa e diretamente, com
outras culturas, mas que também vivenciasse a condição do
constante deslocamento e do enfrentamento da diferença.
Desde sua
estada no Brasil, Aimée Bolaños, além de publicações de ordem
teórico-crítica, produziu dois livros de poemas: El libro de
Maat (2002), publicado no Brasil, e Las Otras (Antología
mínima del Silencio),
editado na Espanha, no ano de 2004. O exame do conjunto de
textos que integram as duas publicações referidas revela a
presença de um discurso atravessado por múltiplas
tradições/identidades culturais e, sobretudo, aberto a um
permanente diálogo com o outro/diferente que, ao ser
incorporado, torna-se responsável pela afirmação de uma
linguagem poética híbrida e multicultural. Nesse movimento, a
poeta torna-se agente de uma escritura que se caracteriza por
uma prática intertextual, construída semelhantemente a um
mosaico de citações, que promove a absorção e a transformação de
outros textos, comprovando, em certa medida, comentário feito
por Roland Barthes, em S/Z, de que le texte unique
vaut pour tous les textes de la littérature non en ce que’il les
represente (les abstrait et les égalise), mais en ce que la
littérature elle-même n’est jamais qu’un seul texte
(BARTHES, 1971, p. 18-19). A mesma idéia será retomada por
Barthes, em O prazer do texto, quando, ao comentar
passagem de autoria de Stendhal, conclui: E é isto o
intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito –
quer esse texto seja de Proust, ou o jornal diário, ou o écran
da televisão (BARTHES, 1983, p. 77).
É
provável, contudo, que Aimée Bolaños tenha buscado inspiração
não em Barthes, mas em Jorge Luis Borges, de cuja obra é atenta
estudiosa, para desenvolver uma produção poética que se insere
afirmativamente no âmbito da tradição literária ocidental, com a
qual dialoga. Por essa razão, a autora do prólogo de Las
Otras afirma que sua ‘antologia’, cumple dos funciones
legitimantes o, al menos, de atenuación: estremece, no importa
cuán levemente, el atribulado canon de la historia de la
literatura occidental patrilineal y metropolitana [...] y
a la vez nos depara algunos placeres sorprendentes. (p. 13)
Mais do que isso, parece que Aimée Bolaños vale-se de sugestão
de Borges, presente em La Biblioteca de Babel, segundo a
qual haveria uma biblioteca infinita que, percorrida por
um viajante, revelaria a presença dos mesmos volumes a se
repetirem em igual desordem. Veja-se o que diz Borges sobre a
biblioteca imaginária, ao final de seu texto antes referido:
Si un eterno viajero la atravesara em cualquier dirección,
comprobaría al cabo de los siglos que los mismos volúmenes se
repitem en el mismo desorden (que, repetido, sería un orden: el
Orden) (BORGES, 1989, t. I, p. 471).
Las Otras
(Antología
mínima del Silencio), así com mayúsculas para que alcanzara
alguna notoriedad (p. 12), nas palavras da autora, apresenta
um prólogo, “Palabras al lector”, e vinte e quatro poemas, cuja
autoria, a partir de um jogo de natureza puramente ficcional, é
creditada a mulheres poetas das mais diversas nacionalidades e
temporalidades, num esforço de dar visibilidade a vozes
pretensamente esquecidas, pois desenterrar poesía viva,
develar escrituras ocultas, despertar del sueño a veces
milenario, devolver voz y visibilidad, es ocasión jubilosa
(p. 13). Nessa perspectiva, surgem Cleis e Athil, de Lesbos,
representando poetas da Antigüidade Clássica; Sor Filomena da
Eucaristia, oriunda de Portugal; Sor Clara de la Gracia, da
Colômbia, ambas do século XVIII; Carla Terezinha de Souza e
Denise Ieda Alves, brasileiras, respectivamente dos séculos XIX
e XX; María de los Ángeles Cela, Calixta Rey, Adriana Sentmanat,
todas cubanas do século XX, entre outras tantas vozes femininas,
provenientes de países como o Japão, a China, a Itália, a
Alemanha e Porto Rico.
As
criações da Autora permitem que evoque poetas de existência
histórica comprovada, como é o caso de Safo, representada no
livro por sua filha Cleis; o mesmo se pode dizer de Delfina
Benigna da Cunha,
poeta sul-rio-grandense da primeira metade do século XIX, que
aparece em Las Otras na pele de Carla Terezinha de Souza.
Delfina Benigna, cega desde os dois anos de idade, publicou três
livros de poemas, entre os quais destaca-se Poesias
oferecidas às senhoras rio-grandenses (1834), primeiro livro
publicado no Rio Grande do Sul. Nele, faz-se presente uma poesia
em que se manifesta a influência da Arcádia Lusitana associada a
traços pré-românticos, notadamente quando a escritora gaúcha
explora temas relativos à sua própria condição existencial.
Aimée Bolaños, ao remeter à poesia de Delfina Benigna, não
apenas faz referência à condição de cega da poeta sulina, como
se vale de sugestões buscadas em sua própria obra, em que as
oitavas são reiteradamente utilizadas:
Prospera
com luces propias tu poesia
porque
humilde fluyes de lo profundo.
Hecha a
tientas com calma armonía,
nacida del
mar oscuro que circundo,
hoy te
escucho, amiga delicada y pía,
en tu
habitado claustro del mundo
sintiendo
que el estro es punta fina
y tus
cuitas, ciega voz que imagina.
(p. 38)
O universo
sul-rio-grandense comparece em outro texto, assinado por
Gertrudes de Veiga. Fundado na literatura de teor nativista, o
poema é constituído por sete quadras, de versos
predominantemente em redondilha maior, onde a poeta, focaliza,
simultaneamente, o espaço rural sulino e a região litorânea do
Rio Grande do Sul. Com relação ao primeiro, estabelece um
diálogo com a poesia gauchesca, de larga tradição, não só no Rio
Grande do Sul, mas também no âmbito da literatura
hispano-americana, como bem anotou Jesús Barquet, ao afirmar:
El poema de da Veiga remeda, curiosa pero justificadamente, los
temas de la poesía decimonónica hispánica:
Después de
la noche fría
y de tanta
pena soñada,
el sol
campero hace el día
como una
luz recobrada.
.....................................
Sea el
sonido trovado
en la
faena rural sencilla
cuando el
baquiano ensilla
y el
cantor canta callado.
(p. 39)
As poetas
religiosas, Sor Filomena de Eucaristia e Sor Clara de la Gracia,
são inspiradas, respectivamente, em Sóror Mariana Alcoforado e
Sóror Juana Inés de la Cruz, como sublinhado no “Palabras al
lector” (p. 16). Além disso, quando consideradas as alusões
constantes dos textos, como as presentes no poema de Sor
Filomena de Eucaristia, percebe-se a reinvenção da paixão
solitária de Mariana Alcoforado, aqui assumida, em verdade, pela
poeta:
A mi lado
en la hoguera
te invoco
y no respondes.
Arden los
leños ciegos
y como el
humo
tú
escapas.
Huyes del
dolor
o del
cansancio
que en mi
era
pasión
solitaria.
(p. 29)
Las Otras,
para além das poetas criadas por Aimée Bolaños, traz igualmente
mulheres de existência histórica e real comprovada, como ocorre
no poema atribuído a Artemísia Gentileschi, pintora do barroco
italiano, cuja vida foi marcada por um processo escandaloso, na
medida em que teria sido violentada por Agostinho Tassi, seu
professor de pintura e amigo de seu pai. O poema, revestido de
imagens de intensa plasticidade, vem marcado por um profundo
erotismo que, de resto, pode ser encontrado em muitos outros
textos constantes do livro:
Nada sé de
tu Ser
cuando te
das en el sexo.
Una
esfinge parecería más abierta.
Sólo sé
que te transformas.
Tus
músculos estallan en tensión,
La
delicada curva de las caderas,
Tan tuya
como de Praxiteles,
se asemeja
entonces
a un
círculo en llamas
y como una
cinta roja
se
adelgaza tu figura.
...........................................
Te miro y
solo así te detengo
en tu
estampida de animal de fuego.
Entras en
la eternidad del boceto
infinitamente carnal
divinizado
tu cuerpo de la vida
que dibujo.
(p. 25-26)
Nesse
mesmo âmbito, o das mulheres de existência histórica e real
comprovada, encontra-se a própria Aimée G. Bolaños que, no
livro, além de metamorfosear-se nas múltiplas vozes femininas
que o povoam, assume uma tríplice condição: a de responsável
pela organização da “antologia”, que se identifica como Aimée G.
Bolaños; a que assina o prólogo como Autora e, por fim, a que se
coloca como autora do penúltimo poema constante da publicação.
Trata-se, em verdade, de um jogo extremamente inventivo, a
partir do qual Aimée Bolaños, ao mesmo tempo em que explica o
processo de construção de sua ‘antologia’, reflete sobre sua
própria condição existencial de exilada. Nesse sentido, os
quatro poemas que encerram o livro, assumem um teor
essencialmente autobiográfico, a despeito de serem creditados a
distintas vozes, ora cubanas, ora brasileiras. O primeiro desses
poemas, tendo por título “Epitafio”, vem assinado por Vivien
Liaños, cuja data de nascimento e morte está marcada pelos anos
de 1943 e 1997, respectivamente. Tais datas, não por acaso,
remetem para o ano de nascimento da própria Aimée Bolaños (1943)
e para o ano em que deixou Cuba (1997), para residir no Brasil.
O poema, extremamente curto, contempla a idéia de morte, de
transformação, uma vez que a saída do país natal representa uma
fissura em sua configuração identitária e abarca, como assinalou
Jesús Barquet, un comentario doloroso sobre la condición del
desterrado, comentario que resulta ser común a cierta literatura
cubana de destierro (José Marti, Reinaldo Arenas): presentar el
abandono del país natal como el final de una existência física,
lo qual se evidencia, desde el título, en el poema “Epitáfio”,
de la finada Liaños, poema este de clara intertextualidad con La
isla en peso, de Virgilio Piñera (BARQUET, 2005, p. 4):
Epitafio
Isla
infinita,
Dame tu
piedra quieta,
devuélveme
el peso.
(p. 50)
A leitura
de “Epitafio” ganha maior significação quando relacionada ao
poema creditado, na “antologia”, a própria Aimée G. Bolaños. O
poema, sem título, traz um sujeito lírico que, transmutado,
apresenta-se como resultado da confluência de múltiplos
discursos: Me hago de retazos/ de innumerables trajes/
vestida [...] todas las letras me habitan (p. 51).
Colocado no final do livro, o poema afirma de modo definitivo
uma outra identidade, consciente de sua condição diaspórica, de
emigrante. Por essa razão, o eu lírico afirma categoricamente:
no me busco/ en la historia/ telón de fondo/ patético/ me
busco en el trasiego (p. 51). O texto estabelece, além
disso, um diálogo entre um passado não mais existente - ya
fui hija/ de una isla/ mediterránea (p.51) - e um
presente, no qual mi discurso es una ráfaga/ que me deshace/
en infinitos fuegos (p. 51).
O percurso
desenvolvido a partir de “Epitafio” completa-se com os dois
últimos poemas: o primeiro “Yo/Iansã”, atribuído à brasileira
Denise Ieda Alves; o segundo, “Declaración de amor al país
natal”, da cubana Alina César. No primeiro, mais uma vez, a
referência a Cuba é explicitada através da imagem da ilha,
colocada, via de regra, no passado - Nací en una isla/ y a
ella volvi dividida (p. 54). A ilha, retida pela memória,
permanece a mesma, ao passo que o sujeito lírico revela-se
outro, aberto à vida, pois arrasante y rasgada/ traigo la
renovación sin fin (p. 54).
O último
poema, “Delaración de amor al país natal”, assume, como
“Yo/Iansã”, um tom autobiográfico, em que a evocação do país de
origem, fruto da (des)memória, abre-se para um processo de
idealização, em que se manifesta uma Jubilosa saudade
de ti/ como eres/ como has sido nunca (p. 55). Mais do que
isso, o país natal perde sua concretude, para afirmar-se como
discurso poético: Innombrable y fijo/ como una imagen/
imposible de sueño borrada,/ te amo en cada signo (p.
55-56). Além disso, a utilização de saudade, palavra da língua
portuguesa, revela não só a apropriação do discurso do outro,
como também a afirmação de uma nova identidade, já não mais
definida pelos limites espaciais e temporais estabelecidos pelo
critério da nacionalidade, mas pela condição diaspórica. Dessa
condição, surge um sujeito que é o resultado do cruzamento de
múltiplos discursos e, nessa medida, simultaneamente, singular e
plural: o emigrante.
A análise
dos dois últimos poemas - “Yo/Iansã” e “Declaración de amor al
país natal” -assinados, respectivamente, pela brasileira Denise
Almeida Alves e pela cubana Alina César, sugere ainda uma outra
possibilidade de leitura, da qual emerge um eu lírico produto da
comunhão que se estabelece entre o universos hispano-americano e
brasileiro: uma identidade que, ao se construir pela ação da
diáspora e do desenraizamento, configura-se como híbrida,
multicultural e, por conseqüência, fragmentada, tal como já
confessara a poeta Aimée G. Bolaños, no texto que antecede aos
dois últimos da antologia: Me hago de retazos
[...] estoy partiendo/ y partida/ los trozos que soy/
me navegan. (p. 51)
Las Otras
apresenta, além disso, um conjunto de poetas mulheres que teriam
gravitado em torno de autores consagrados. Incluem-se, nesse
caso, Ulrica von Lebentzow, vinculada a Johann Wolfgang Goethe,
Kiria Hafis, ligada a Konstantinos Kavafis, e Jeanne Duval, a
Charles Baudelaire. Ao dar voz a essas mulheres, Aimée Bolaños
permite-lhes o estabelecimento de um contraponto entre a sua
própria escrita/poesia e aquela produzida pelos poetas a que
estiveram relacionadas. Assim, Ulrica von Lebentzow, afirma:
Como a tu amada Ifigenia/ me diste la inocencia/ para sufrirme/hasta
descubrir/ tu forma más exacta. (p. 33); contudo, ao
mesmo tempo, sente-se alijada e distante do mundo construído
literariamente por Goethe e, pelo exercício da poesia se
auto-define, revelando sua verdadeira identidade e lugar no
mundo, já que En el mar gélido/de la emoción escrita/ me
limito a esta menuda letra/ porque en tu mundo elocuente/ no
tengo nada que decir. (p. 33)
Jeanne
Duval, musa inspiradora de Baudelaire, aparece como autora de um
poema, em que refuta sua imagem, tal como concebida pelo autor
de Flores do mal. Assim, dirigindo-se ao poeta, refere a
forma como ele a percebeu: Pero tú me transformaste/ en ágata
y metal/ en tabaco y benjuí/ bajo tu mirada./ Desde los tibios
pies/hasta mi sexo desolado/ me cubriste con palabras. (p.
34); para, a seguir, declarar: Tus palabras/ no eran yo./ Ya
fui todas tus metáforas/ y me perdi en algunas./ Intenté
parecerme a ellas/ pero tenían fondo./ Nunca me viste como
imaginabas (p.35). O poema funciona como uma crítica à
representação da figura feminina através do olhar masculino,
incapaz de apreender a verdadeira face da mulher, que
Sacramente/ me rehago en el silencio/.Me devuelvo/ a mi
irradiante Nada. (p. 35)
Kiria
Hafis completa o conjunto de poetas que, presumidamente, teriam
vivido em torno um grande autor canônico da literatura
ocidental. Contudo, diferentemente do de Ulrica Lebentzow e,
sobretudo, do de Jeanne Duval, o poema de sua autoria, ao invés
de contrapor-se a qualquer imagem feminina criada por
Konstantinos Kavavis, funciona como um canto elegíaco à figura e
à poesia do poeta grego:
Eres en
este mar alejandrino
inhóspito,
radiante, rebelde
como el
mundo
que miras
desde tu ventana.
........................................
Muere mi
corazón
y la
lengua se trastorna
cuando te
nombro.
No volverá
mi mirada a fijarte:
belleza
que te escapas,
de este
amor inmenso
e incapaz.
(p. 36-37)
Há, em
Las Otras, um grupo de poemas, cuja autoria é distribuída
entre poetas cubanas e porto-riquenhas, em que a temática do
exílio e do desterro, tal como ocorre nos textos poéticos
colocados no final do livro, ganha força, vindo associada
normalmente à idéia da viagem e do deslocamento. Incluem-se,
nesse caso, os trabalhos apresentados como de Loriana Menéndez
de Ayala e Inés María Sepúlveda, de Porto Rico, Calixta Rey,
María de los Ángeles Cela e Adriana Sentmanat, todas cubanas. No
texto “Quasisoneto”, de Calixta Rey, a questão da diáspora e da
desterritorialização ganha relevo nas palavras da poeta:
Sueño
velado: destierro,
ceiba que
cobijas calma.
Halle
reposo el viajero
solo a la
sombra del ala.
(p. 44)
O problema
da diáspora tem marcado profunda e historicamente a vida de
autores cubanos, anteriores e posteriores à Revolução comandada
por Fidel Castro, daí ser o mesmo uma recorrência temática em
suas obras. Nessa perspectiva, a autora do prólogo “Palabras al
lector” anota ser sua intenção, a partir da reunião das várias
vozes femininas constantes da “antologia”, realizar la
celebración de identidades en tránsito, asumidas sin limites
terriotriales y esperanzado amor (p. 17) que,
contribuyendo a un movimiento excéntrico a partir de los propios
orígenes, apuntam hacia lo que quizás un día llamaremos poética
de la errancia (p. 18).
No mesmo
texto antes referido, Calixta Rey materializa os sentimentos de
errância e orfandade, vividos pelo desterrado/exilado, tal como
anunciado no prólogo: Huérfanos de la tierra amada/ sin el
signo y la mandala./ De la infinita luz refractada,/ apenas la
sombra del ala.(p. 44) Tal circunstância, ao mesmo tempo em
que subtrai uma identidade original, abre portas para a
afirmação de um novo rosto multifacetado e transcultural, já que
No nos engane el camino/ que la errancia es partida/ pero
también llegada./ Ítaca fulgura dividida/ en cien cristales de
fuego./ Y solo la sombra nos salva.(p. 44)
A reflexão
em torno da diáspora é igualmente desenvolvida no poema
atribuído a Adriana Sentmanat. O poema, sem título e constituído
por vinte e oito versos, é construído sem nenhum sinal de
pontuação, a exceção da interrogação final. A poeta, valendo-se
de um processo muito semelhante ao do fluxo de consciência,
declara sua condição de exilada, de sem pátria: Son las
cuatro de la noche/ de la noche despatriada/ indiferente/
inconmensurable/ en la que llegamos/ y nos vamos (p. 49).
Definida sua condição de expatriada, parte em busca de si mesma
até perceber-se outra: otra/ desconocida/ otra/ extranjera/
(p. 49). A situação de exilada/desterrada configura-se, no curso
do poema, como um sonho/sono no qual o sujeito lírico
encontra-se aprisionado e do qual duvida poder libertar-se, como
atesta a interrogação final: ¿ despertaremos, acaso? (p.
49) O uso da primeira pessoa do plural por parte do sujeito
lírico, ao longo de todo poema, não apenas revela sua condição
anímica particular, como serve de veículo para a inclusão de
todos aqueles que vivenciam e compartilham a mesma situação
imposta pelo exílio.
Las Otras,
no âmbito do jogo ficcional que propõe, apresenta também um
possível heterônimo feminino de Fernando Pessoa na figura da
poeta, supostamente portuguesa, Ana Teresa Ayres. No texto
apresentado como de sua autoria, Ana Tereza Ayres apropria-se da
idéia do poeta como um fingidor, presente na produção poética
pessoana: Locas de melancolía/ tus palabras/ fingen/
disfrazadas/ de muda sombra/ jugando a ser otras/ las de la
felicidad sonora. (p. 41-42) O poema, que tem por título “Requiem”,
alude, ainda, à personalidade poética proposta por Fernando
Pessoa, através de seus heterônimos, ao registrar seu caráter
fragmentado: Allí te descubro,/ hermano,/ de ti partido/ en
una infancia sin fin (p. 41). Nessa perspectiva, a
heteronímia pessoana, ao se configurar pela fragmentação
identitária, funciona como um espelho no qual se encontra e se
mira um sujeito poético também dividido e fragmentado: a poeta
emigrante, a poeta em situação de diáspora.
O exame do
conjunto de textos constante de Las Otras, de Aimée G.
Bolaños, revela que a poeta, a partir de um criativo jogo
estabelecido com o leitor, desenvolve profunda reflexão a
respeito da condição do emigrante, daquele cuja identidade se
faz no trânsito entre culturas de distintas procedências e
tradições. Nesse sentido, realiza um movimento que, ao se
apropriar do mundo, é responsável pela afirmação do que poderia
ser chamado de uma literatura transnacional e, portanto,
desterritorializada. Além disso, formula, tal como anunciado no
prólogo, uma poética da errância que, estabelecida na
confluência entre o próprio e o alheio,
configura-se como a expressão de significativa parcela da
produção literária contemporânea.
Finalmente, por sua engenhosa arquitetura, Las Otras
contempla a possibilidade de uma releitura da própria história
da literatura, que passa a ser pensada não mais como um discurso
de pretensão totalizadora e de caráter excludente, mas como um
discurso que, a despeito de seu caráter fragmentado, mantém-se
aberto ao outro. Em outras palavras, uma história da literatura
que se queira nova e capaz de abarcar as questões trazidas pela
contemporaneidade deve, necessariamente, abandonar o pressuposto
da uniformidade identitária, para afirmar-se pelo princípio da
diferença. É para esse caminho que aponta o discurso poético de
Aimée Bolaños, ao realizar, sem preconceito, uma viagem em
direção ao outro.
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