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jorge luis borges

Jorge Luis Borges

1975 - Uma glória cansada de viver

Malu Sierra

Talvez ganhe finalmente o escorregadio Prêmio Nobel que, segundo alguns, deveria ter recebido, na América Latina, antes que Neruda e Asturias[1]. Mas nem essa honra máxima nem as muitas honras que tem colecionado em seus 76 anos são capazes de vencer seu profundo desalento. Triste, cansado e sem fé, diz que escreve porque não sabe fazer outra coisa e para não morrer de tédio. Mas se tivesse que tornar a viver, não o faria.

O encontrei em seu apartamento de Viamonte com Reconquista, um prédio antigo, escuro e pouco acolhedor, com cheiro de incenso. O lugar de um homem cego e só, que parece estar apenas contando o tempo para morrer. Em uma fria tarde do inverno portenho falamos sobre a vida e a literatura. E mesmo que ele tenha feito todo o possível para ficar na pura literatura - tal como o fez durante toda a vida -, chegamos finalmente a conversar sobre a vida. Do amor negligenciado pelos livros, de Deus, no que não crê, e dessa terrível solidão que o faz sentir-se cansado de viver.

É algo incrível estar falando nada menos do que com Borges, um dos homens mais admirados da literatura contemporânea, e sentir que tem tão pouco a dizer como homem. Ao princípio, qualquer um acreditaria que está sendo deliberadamente cínico. Ou que trata de provocar espanto. Ou que lhe interessa tão pouco dar uma entrevista que na realidade está apressado. Mas não. É verdade que a vida lhe parece um castigo inútil, é verdade que pensa - por exemplo - que os negros são uma raça inferior, e, na realidade, as entrevistas lhe agradam porque talvez rompam, por um momento, sua solidão.

Somente ao final e com muito pudor deixou sair o ser humano, entreabrindo um pouco as páginas empoeiradas desse livro-vida em que se confundiu sua residência nesta terra. E apareceu então um patético velho-menino, indefeso e genial, a quem se deseja compreender, querer, acompanhar.

Personalidade única, a de Borges. Alheio a todas as regras, mesmo as do sentido comum. Sobretudo as do sentido comum. Imprevisível e incompreensível. De onde tira o que escreve, se não vive?

Diz ele que dos livros. De outros livros. Da literatura inglesa, que é sua única paixão. De uma frase, uma imagem, uma descrição. Sabe de literatura qualquer quantidade. Deve ter lido toda a biblioteca do mundo e sem dúvida foi uma eleição genial a de quem o nomeou Diretor Geral de Bibliotecas, cargo que abandonou ao retornar do exílio Perón, porque - disse - não quis colaborar com ele. Quando já não podia ler, porque foi ficando cego, outros começaram a ler para ele e assim seguiu devorando livros, quanto mais antigos melhor, porque os contemporâneos não lhe interessam. Só lhe interessa o passado.

E o passado nos livros. Que devem ser europeus ou - no máximo - norte-americanos, porque a América Latina não produziu nada que realmente valha a pena para Borges. Poderia ser apagada e não aconteceria nada, diz. Dos escritores argentinos, talvez Bioy Casares e Chirinos Campos[2]. Dos chilenos, Huidobro[3] lhe parece francamente mal e dos dois prêmios Nobel pensa que foi mais uma questão geográfica. De La Mistral[4], melhor nem falar, e de Neruda, somente da poesia política porque - afirma - o comunismo influiu beneficamente em sua poesia.

Próximo do fim de sua vida, insiste que sua obra não vale grande coisa, principalmente porque lhe faltou vida. Mas quando lemos seus livros, seus contos incríveis, suas observações tão extraordinárias, não podemos deixar de duvidar desta não vida. E de indagar se na realidade não viveu ou se somente dissimulou a vida. Se essa mescla de burguês latino-americano e fidalgo britânico acaso não lhe impediu de reconhecer-se a si mesmo como um homem normal igual a todos. Mas, de qualquer maneira, teve que viver, amar, sofrer. E reproduzir depois - genialmente - suas subterrâneas experiências.

Custa entrar em sua vida privada e resulta duro escarvar em sua solidão, em sua falta de amor, no porque de haver casado tarde e fracassado tão de imediato, mas justo então aparece sua melhor veia, a do humor um pouco cínico, do homem que apesar de tudo não se leva muito a sério.

Vive no centro de Buenos Aires e praticamente não sai do apartamento que, até o momento da entrevista, compartilha com sua mãe, que tinha 99 anos e morreu dias depois. Um apartamento sem calor de lar, com móveis e quadros que foram ali colocados alguma vez e que ninguém voltou a vê-los nunca. Cheiro de benjoim, como ele chama o incenso; livros em inglês, a Enciclopédia Britânica, alguns objetos de prata, fotografias antigas, estatuetas chinesas, uma lâmpada de lágrimas, cortinas nas janelas, cobertas nas poltronas. Claro que ele é cego e não vê, mas talvez tampouco tenha visto. Sente-se o frio na alma.

Com dificuldade, senta-se e se dispõe a conversar, educadamente. Explico que trabalho para uma revista chilena. Concorda. E comenta:

 

JLB - Como não leio revistas, tampouco leio jornais. Não li um jornal em minha vida. Não são recomendáveis. São notícias, digamos, efêmeras, feitas às pressas.

MS - Não lhe interessa saber o que está se passando no mundo?

JLB - Em geral, sim, mas não o que se passou hoje ou ontem, especialmente. Isso se sabe depois. Geralmente os fatos importantes são importantes muito depois. Quando ocorrem não se sabe que são importantes. Eu pensava na crucificação, por exemplo. Que foi um fato importante. Isso, sem dúvida, não teria figurado em nenhum jornal. A execução de um criminoso ao lado de outro… Teria sido dado um grande espaço, por exemplo, ao fato de que César foi de Roma à Grécia, a Nápoles. Assim, os jornais estão cheios de coisas totalmente frívolas, como as viagens dos Presidentes…

MS - Mas você escreve…

JLB - É certo… Escrevo porque se não o faço me sinto infeliz. Não é que eu creia que o que escrevo seja bom. Quando me dizem que sou um grande escritor, parece que cometem um erro, não? Quando estive em Estocolmo com uma jornalista, nas vésperas do Prêmio Nobel, em que eu era um dos candidatos, disse a mim mesmo o que pensava disso. Disse: “Bem, se me dão o Prêmio Nobel vou agradecer muito, claro, e vou aceitá-lo, mas creio que seria um grave erro se o fizessem, porque eu não mereço.”

MS - É verdade que pensa isto? Verdadeiramente?

JLB - Sim. Penso isto. Se penso que o deram a Shaw, por exemplo, a Bertrand Russel, por que dariam a mim? Me parece quase cômico o contraste.

[É a primeira vez que menciona Shaw, mas não a última, no curso da entrevista. É um de seus ídolos e não o oculta.]

MS - E do que escreve, do que é que mais gosta?

JLB - Bem, creio que ao final de cinqüenta anos de atividade literária - acabam de sair minhas obras completas em um volume, embora ali não se tenha incluído o Libro de arena, publicado por esses dias -, creio que não me desonram todas essas páginas. Creio que estão feitas por uma pessoa que conhece o ofício e que tem o sentido das palavras, algum sentido literário.

MS - Sentido literário e algo a dizer, também…

JLB - Sim, suponho, mas tantas outras pessoas podem dizê-lo melhor do que eu.

MS - O que é que lhe interessa dizer?

JLB - Em cada caso é uma coisa distinta, que provavelmente não tenha nenhuma importância, mas que tinha que fazê-lo. Porque nunca busquei temas em minha vida. Nunca os propus a mim. Por exemplo, acho ridículas essas pessoas que viajam para um país para escrever sobre ele. Uma amiga minha publicou um livro sobre a Pérsia depois de uma viagem, mas se tivesse lido a história da literatura persa ou a história persa saberia muito mais sobre a Pérsia do que depois de visitar durante um mês os hotéis da cidade. Contato humano? Com garçons, com hoteleiros?

MS - E de onde lhe vem a inspiração?

JLB - Não sei. Vem de todos os livros que li, de conversas casuais, de pessoas que conheço, de coisas que ouço. E, sem dúvida, sou devedor de todos os escritores que li e de muitos outros que não li e que me chegaram através de outros. E da própria linguagem, que é uma tradição. Porque tudo o que um indivíduo pode ser é mínimo. Isso me indagaram muitas vezes, até onde podemos inovar? Creio que muito pouco. Seja como for, o fato é que a literatura é distinta. Com sensibilidades distintas.

[Embala-se em uma longa descrição do Quixote e depois em uma espécie de estudo comparativo da literatura que se produziu na Inglaterra entre a conquista germânica, em meados do século V, e a invasão normanda. Sobre o sentido da paisagem, das cores, do lugar dos fatos.]

MS - Mas você, como escritor, o que quer dizer ao homem contemporâneo?

JLB - É igual. Bem, claro, não mudaram tanto as coisas. Quando penso… minha vida…, uma vida sedentária. E penso em meu avô Borges, que morreu em um combate na Guerra Civil e guerreou conta os índios araucanos, poderia dizer que eram mais violentas antes. Agora estamos em um período de violência, mas uma violência mais do tipo policial do que outra coisa. Muitos dos crimes que se cometem diariamente em Buenos Aires - sejam da direita ou da esquerda -, creio que são cometidos por mercenários. Não creio que haja paixão nem vejo as pessoas arriscarem-se…

MS - Mas para você, hoje, o que interessa escrever? Porque em seus últimos contos, como em El Congreso, sobretudo, há um profundo sentido trágico da vida.

JLB - Sim. Isto é certo. No entanto, não, porque ao final termina com uma espécie de arrebatamento místico. Esse conto me emocionou muito quando o escrevi. Não sei se emocionará aos outros…

MS - Qual é para você o sentido do que escreve? O sentido da vida. Em seus livros há muito de um não sentido…

JLB - Sim. Pode ser. É muito possível. Mas atualmente, claro, estou em uma situação bastante triste porque, 76 anos, uma crescente cegueira, que dizem os médicos ser irreparável, e que será total. Minha mãe, que está desejando morrer, que todas as noites pede a Deus que a leve e que pela manhã chora ao ver que não morreu durante a noite. Que sofre dores físicas e que está morrendo aqui ao lado. Minha pátria, bem, em um estado anárquico. Se isso ocorresse somente na República Argentina, bem, é um país que não é muito importante, em um continente tampouco muito importante, América do Sul. Mas é o mundo inteiro que anda mal.

MS - Você acredita que a América do Sul não seja um continente importante?

JLB - Não. Não produziu quase nada. Poderia ser apagada da história e quase não se notaria. A América do Norte, sim. Produziu Poe, Whitman. Mas a América Latina…, quase ninguém. Talvez seja porque a herança espanhola não é demasiado boa. E a herança católica, que eu creio que é inferior à protestante.

MS - A América Latina tem grandes escritores: Cortázar[5], Mistral, você mesmo…

JLB - Mas não vão passar para a história. O que seria da literatura atual sem Whitman ou sem Poe? Ao contrário, o que temos nós: Vicente Huidobro, por exemplo, me parece francamente mal. Isso não se leva a sério. Não se pode comparar a Bertrand Russel.

MS - Dos argentinos, qual lhe agrada mais?

JLB - Bioy Casares é muito bom. Creio que Chirinos Campos[6]. Aos contemporâneos conheço muito pouco. Li algo de Sábato[7]. Sim. É um bom escritor. Mas um pouco grandiloqüente. Um estilo assim como voluntariamente descuidado. Mas é muito inteligente. Muito inteligente e muito amargurado. Mallea é muito bom.

MS - Qual sua opinião sobre os dois Nobel chilenos?

JLB - Creio que foi mais uma questão geográfica. Havia que se premiar a um latino-americano… Claro que Neruda é muito superior a Mistral, claro! Pessoalmente não o conheci. E eu sou anticomunista. Mas creio que o comunismo influiu beneficamente em Neruda. Foi um bom estímulo para ele. Os poemas sentimentais são maus. Os Vinte poemas de amor e uma canção desesperada me parecem pueris. Ao contrário, o poema a Stalingrado é lindo. Todo o mundo diz o contrário de mim, mas creio que é um erro.

MS - Sente-se um escritor argentino? Tem raízes aqui?

JLB - Sim. Sinto-me identificado com meus amigos. Sinto-me muito argentino. Produzimos um escritor genial, que era Sarmiento. Isso é indubitável. Mas era importante para nós e não para o mundo. Falava do gaucho, por exemplo, e o achava inferior. E tinha razão.

MS - Você também crê que são inferiores?

JLB - Mas é claro! São uns brutos. Qualquer pessoa sabe. Se não se deixa influenciar pela literatura gauchesca sabe que a palavra gaucho eqüivale a dizer que alguém é um bruto. Além do mais, essa literatura foi feita por homens de cidade, porque os gauchos não escreveram uma linha.

MS - Mas sabem escrever?

JLB - Não. Não sabem. A nação argentina, que chegou a ser um país importante, ainda que agora não o seja, é a obra de uns quantos homens que estão muito influenciados pela Europa e pelos Estados Unidos também.

MS - E para onde acredita você que caminhe agora a América Latina, e a Argentina em especial?

JLB - Bem, a América Latina não existe. É uma ficção. Ninguém se sente latino-americano. Quanto à Argentina, creio que um dos males deste país é pensar que a política possa melhorar muito. Creio que se cada indivíduo tratasse de melhorar a si mesmo, ética e intelectualmente, seria melhor. Porque não nos vamos salvar pela força de comitês, revoluções ou de mudanças de estados.

[Alega contra os políticos que, segundo ele, não podem ser gente muito boa, a partir do momento que se dedicam a que os fotografem ou a ficar bem com milhares de eleitores. Recorda Lincoln, e aponta a sua inconseqüência sobre o problema da escravidão, já que - segundo ele - no Norte dizia uma coisa e no Sul dizia outra.

E assim - conversando de tudo e de nada -, de repente chega ao tema das raças e com toda naturalidade diz coisas que a ninguém ocorreria jamais dizer, mesmo que as pensasse, e que pouca gente hoje em dia poderia sustentar. Como que os negros são uma raça inferior.]

MS - Você acredita realmente que há raças inferiores?

JLB - Mas claro! Não cabe nenhuma dúvida! A raça negra é inferior, basta olhar para eles. Além do mais, não fizeram nada. Vamos supor que não haja negros; a história não muda por isso. Além do mais, a prova está em que eles chegaram a ser escravos e não se deu o contrário. Por exemplo, os negros do Congo não conquistaram a Europa, nem impuseram seus ídolos. É uma raça de gente imitativa. Veja que agora os negros estão com o nacionalismo, ou seja, são mais ou menos hitleristas. Ainda crêem que isso é importante. Estive em um congresso de “negritude”. Havia um negro inglês que disse: “não creio que as raças sejam importantes”. E eu disse: “Também não creio que o sejam. O importante são os indivíduos, que são concretos.”

Pessoalmente, os negros me desagradam. Você disse que têm valores… Bom. A música negra que me parece boa são somente os spirituals e os blues, que foram feitas graças ao contato com os brancos, pela influência da religião, pelo hábito de cantar hinos. Mas a música da África, não.

[Quando o ouvimos assim, disparatando, não se pode senão sentir certa rejeição. E pensar em como um homem que escreveu o que ele escreveu possa ter esse tipo de opiniões. E que se segue escutando-o tão-somente por ser Borges. Mas quando sai, finalmente, o lado humano e nos encontramos com o homem e nada mais, quando se intui a profunda tristeza deste velho-criança, só nos resta compaixão.

Com essa imobilidade dos cegos, está sentado em uma poltrona revestida, ao lado de uma estante cheia dos livros de seus amores. Aceitando conversar - bem ou mal - com uma jornalista que não conhece. Respondendo perguntas cujo mais provável é que não lhe interesse responder e - por momentos - mostrando sua alma a tanta gente que depois vai ler a entrevista.]

MS - Qual acredita que seja o destino dos seres humanos?

JLB - Não sei. Sei que meu destino é tratar de ser um homem justo. E escrever. Isso não quer dizer que goste do que escrevo. Mas sei que sou inapto para qualquer outra coisa. Escrevo porque não posso fazer nada mais. Sobretudo agora. Desde o ano de 1955 que estou cego. Que outra coisa posso fazer? Quando criança queria ser militar, como meus avôs, mas minha vista deficiente me impediu de tudo isso. Claro que talvez fosse somente um desejo romântico…

MS - Você diz que é ateu. Como é ser ateu?

JLB - Ser ateu nos dá uma força que as pessoas religiosas não possuem. Porque vivem em um estado de ansiedade, vivem com o temor acerca de qual será seu destino depois da morte. Mesmo gente muito inteligente, como Unamuno, vivia com esse problema. Ao contrário, os ateus pensam: “bem…, o que ocorre não é demasiado importante…, porque eu mesmo vou desaparecer dentro em pouco, e dará no mesmo que decida uma coisa ou outra”. De maneira que o ateísmo dá uma força que não o consegue a religião. Eis aí minha mãe, que está morrendo. Completou 99 anos. Está paralítica. Tem todos os males físicos. E está preocupada pensando que tudo isto é um castigo, uma expiação, está escarvando seu passado buscando alguma culpa que a torne merecedora de um castigo tão atroz como estar prostrada há tanto tempo. Tem também a esperança de encontrar-se com meu pai. E o temor, às vezes, do inferno.

MS - Você não crê em Deus?

JLB - Não. Não creio que haja um ser que seja Deus?

MS - Qual será o sentido de estar aqui?

JLB - Como disse Bernard Shaw, “deixei para trás o suborno do céu”. Vejo que as pessoas religiosas não têm nenhuma força e vivem em um mundo miserável de subornos, de missas pelos mortos. Em que pode se beneficiar Deus ao ser celebrada uma missa em uma república latino-americana? Ou na América do Norte? Em nada. Ridículo.

MS - De onde tirou você, em sua vida, a gana de viver? De escrever?

JLB - Eu… Isto de um manancial íntimo, mas não de razões tomadas da teologia.

MS - Mas alguma vez perguntou a si mesmo por que vive? Por que faz o que faz?

JLB - Sim. Algumas vezes me perguntei e me arrependi. Mas tenho um sentido ético. Por exemplo, quando subiu este Governo, eu era diretor da Biblioteca Nacional, que é um cargo importante. Pensei que se continuava ali estava servindo a este Governo e então renunciei.

MS - Você vive um mal momento…

JLB - Sim. Mas não recomendo minha tristeza aos demais. Quando eu era jovem também me sentia triste, queria ser Hamlet, tinha a idéia de que convinha ficar triste. Ao contrário, agora não creio que convenha.

MS - E como sai da tristeza?

JLB - E… trabalhando. Não tenho outro remédio agora. Me propuseram dar aulas na Colômbia, nos Estados Unidos, em New England, de onde saíram Henry James e Poe e Melville e Emerson. Mas atualmente, para mim, viajar não teria muito sentido. Porque, estando cego, o que é viajar? Sobretudo agora, que é tão difícil. Porque até 1914 o mundo era muito mais cômodo.

MS - Em que época teria gostado de estar?

JLB - Não… [fica pensando, duvidando]. Creio que nesta época, mesmo que seja má… Claro que não gostaria de voltar a viver minha vida. Minha vida em si tem sido bastante dolorosa. Os momentos ingratos são maiores que os gratos. De maneira que eu… [Novamente se detém, como se arrumasse a memória.]

MS - Não voltaria a viver?

JLB - Não. E além do mais cometeria outros erros, sim, cometeria erros também. Se me dissessem que vou morrer esta noite…, bom. Uma vez, viajando pelos Estados Unidos, acreditei que ia morrer. Pensei: “bom, será uma sensação desagradável, uma espécie de enjôo, durará um segundo, e depois tudo se resolve”.

MS - Ou seja, a morte não é o pior. O que é para você o pior da realidade?

JLB - Por exemplo, querer e não ser querido. Isso é bastante duro, não?

MS - Já lhe aconteceu?

JLB - Claro. A quem não aconteceu! Deixar, abandonar e ser abandonado são os três lugares-comuns de toda vida humana. Penso em tal mulher e trato de recordar: por que a deixei? Ou: por que ela me deixou? E nunca estou muito seguro sobre qual das duas coisas ocorreu.

MS - Sabe por que?

JLB - Não. Porque agora já não me interessa sabê-lo.

MS - Ocorre o amor?

JLB - Muitas vezes ocorre. Mas não creio que na maioria das vezes, não. Creio naquilo que dizia Bernard Shaw, que há duas tragédias no mundo. Uma, que é a de não obter o que o coração deseja. Os desejos mais íntimos. E a outra tragédia é a de obtê-los… É verdade, não?

[É a terceira vez que lembrou Shaw e a primeira em que se riu, com esse riso um pouco cínico de quem esconde por trás uma grande tristeza. Sem saber como, chegamos a um terreno bastante íntimo e que - seguramente - não está acostumado a descobri-lo. Por momentos sinto-o incomodado, mas nele fala mais alto sua educação de cavaleiro antigo do que sua vontade de interromper a conversa. Sinto também um certo pudor diante deste velho que agora fala de amor, mas me interessa tanto saber o que pensa e o que é, que continuo.]

MS - Você amou muitas vezes?

JLB - Sim, claro, como todos os homens.

MS - Não sei como amam todos os homens…

JLB - Todos os homens amam muitas vezes e ao longo da vida há mulheres únicas. Mulheres - digamos - sucessivamente únicas. Porque não são a mesma… [ri novamente, quase alegre].

MS - E o que as tornava únicas para você?

JLB - Isso é um mistério. Isso eu não sei. Porque eu me dava conta que não eram únicas para os demais. E, por conseguinte, não eram realmente únicas. Porque se há uma pessoa realmente extraordinária no mundo, impressionante que somente eu tenha dado conta disto!

MS - Mas o que é que mais lhe agrada em uma mulher, afinal? O que ama em uma mulher?

JLB - Desde já, me parece que está a atração física, que é importante. Depois, creio que uma mulher tem que ser uma pessoa civilizada. Não se pode enamorar-se de uma pessoa que se ache estúpida, ou cruel, ou snob, ou boba. E exige certos valores, não? Valores de lealdade. E também de inteligência. E de ironia também.

Quando me casei - estive três anos casado -, ao final desses três anos me dei conta que havia cometido todos os erros possíveis, que eu não tinha nada em comum com ela nem ela comigo. Ela também o havia descoberto e nos separamos amigavelmente.

MS - E quais foram esses erros?

JLB - O erro foi casarem-se duas pessoas que não têm nada em comum.

MS - Você se casou próximo dos setenta anos. Antes nunca pensou em se casar?

JLB - Apaixonava-me por uma mulher, apaixonava-me por outra. E logo me aconteceu isto; encontrei-me com uma mulher por quem havia estado muito apaixonado quando jovem. Então confundi a alegria que isso me produziu, o desejo de voltar a viver esse amor com essa mulher em particular. E ela cometeu o mesmo erro que eu. Porque os dois pensamos que havíamos anulado o tempo, que havíamos regressado à nossa juventude e nos casamos tardiamente, para depois descobrir que não tínhamos nada em comum.

Mas eu não tenho nada a lhe reprovar. Possivelmente ela pode me fazer muitas reprovações. Mas também é um absurdo que eu me ponha a pensar em minhas culpas. É como pensar nos méritos que se tem. Não há que preocupar-se muito. Claro, é melhor não ter que arrepender-se de demasiadas coisas, mas viver entre arrependimentos me parece uma forma de estupidez. Não sei o que você pensa…

MS - Sim. Não serve. Salvo talvez para o futuro…

JLB - Talvez sim. Só que eu já não tenho futuro. Aos 76 anos…

MS - O que lhe interessa fazer, de agora em diante?

JLB - Agora me interessa concluir alguns trabalhos que comecei… Um estudo sobre Swedenborg[8]… E encontrar uma pessoa…, que seria o essencial… Mas para mim é demasiado tarde…

MS - Sente muito a solidão?

JLB - Sim. E olhe que as pessoas são muito boas comigo e tenho excelentes amigos. Mas às vezes penso: e se ocorresse um milagre e entrasse uma pessoa? Ou - melhor ainda - se retornasse uma pessoa? Isso já seria muito importante. E, ao mesmo tempo, creio que estou louco, sei que um velho cego não tem direito a essas esperanças.

Não sei o que dizer, estou confuso.

MS - Creio que qualquer ser humano tem direito a viver…

JLB - Sim. Sim. Tem direito. Mas seria melhor que não esperasse muito da vida.

MS - A que se deve, segundo acredita, não haver encontrado uma mulher com a qual teria feito um largo trecho do caminho?

JLB - Sim. Sem dúvida que sou o culpado.

MS - Pouco importa quem seja o culpado. Mas qual é a culpa, a que se deve?

JLB - Ao fato de que durante um tempo estive entregue à vida literária da pior maneira. Concorria a feiras literárias, tomava parte de polêmicas literárias, o que não me ocorreria fazer agora. Agora que sou - digamos - relativamente famoso. Mas, como dizia Paul Lusak[9], ser célebre na América do Sul não é deixar de ser desconhecido. Enfim, dediquei muito de meu tempo a isso. Ao contrário, agora não.

MS - O fato é que, por dedicar-se à vida literária, deixou as mulheres…

JLB - Não. Não. Não as deixei. Essa pode ser uma das causas. Creio que tenho um defeito. Me apaixonava com muita violência, ao mesmo tempo que muito brevemente. Estive muito apaixonado, em espaços relativamente breves de tempo, de distintas mulheres sucessivas. Teria sido melhor com mais intensidade por uma só pessoa. Uma relação me era interrompida pelo surgimento de outra pessoa.

[Nesse momento chega sua secretária e a entrevista tem que terminar mais ou menos abruptamente. Justo quando começávamos a nos tornar amigos. Quando havíamos passado - finalmente - da literatura para a vida. Alega um pouco que lhe peça confidências, mas encontra-se mais relaxado do que no início. Aceita que lhe tire todas as fotos que queira e que outra pessoa o faça comigo ao seu lado. Diz que esse cheiro penetrante que se sente no apartamento é benjoim, uma coisa que se usava antigamente, e que para mim é simplesmente incenso. Levanta-se com dificuldade e vai me deixar na porta, às tontas, perguntando por seus amigos chilenos, por María Luisa Bombal, a quem muito admira, e finalmente fica sozinho, ali dentro, para ditar talvez outro desses contos geniais que o converteram no escritor mais importante da América Latina. Mesmo que este seja um continente sem importância. E que talvez lhe tragam logo o Prêmio Nobel, que o consagrará definitivamente como grande escritor do mundo inteiro. Mas que nem por isto deixará de ser um homem só, triste e sem amor.]



[1] Asturias, Miguel Ángel (1899-1974), romancista guatemalteco, autor de Mulata de tal e Hombres de maíz (Homens de milho).

[2] A edição original traz a seguinte nota: “Literato absolutamente desconhecido até pelos mais fervorosos ‘borgistas’ chilenos. Ercilla supõe tratar-se de uma das habituais brincadeiras cruéis do entrevistado.” Em conversa com o poeta chileno Pedro Lastra, concluímos tratar-se de Silvina Ocampo, configurando um duplo deslize (audição e informação) da parte da jornalista.

[3] Huidobro, Vicente (1893-1948), poeta chileno, autor de Altazor e Temblor del cielo (Tremor do céu).

[4] Mistral, Gabriela (1889-1957), poeta chilena, autora de Desolación e Tala.

[5] Cortázar, Julio (1914-1984), romancista argentino, autor de Todos los fuegos el fuego (Todos os fogos o fogo) e Rayuela.

[6] Deslize já apontado em nota anterior.

[7] Sábato, Ernesto (1911), romancista e ensaísta argentino, autor de El túnel (O túnel) e Robotización del hombre (Robotização do homem).

[8] Swedenborg, Emmanuel. Filósofo sueco, autor de Arcana Coelestia.

[9] Trata-se, na verdade, do poeta Paul Groussac.

 

UMA GLÓRIA CANSADA DE VIVER, entrevista realizada pela jornalista chilena Malú Sierra, teve sua publicação original na revista Ercilla # 2.098, de Santiago, na seção “Libros y autores”, em 15/10/75. A presente tradução integra o volume, ainda inédito, Memória de Borges (um livro de entrevistas) [Organização, tradução, prólogo e notas de Floriano Martins].

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