Clique aqui: milhares de poetas e críticos da lusofonia!

Endereço postal, expediente e equipe

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci - link para page do editor

banda  hispânica

raúl henao

 

Raúl Henao: celebrações do mundo possível

(entrevista conduzida por Floriano Martins)

 

FM - Tensão entre essencialidade do ser e a fragmentação de sua aparição, a poesia é a nossa maneira de caminhar ao encontro das coisas e dos seres. Elias Canetti afirmou certa vez que “o poeta está mais próximo do mundo quando carrega em seu íntimo um caos”. O que nos revela a poesia através de Raúl Henao?

RH - Minha idéia da poesia aproxima-se muito do famoso “Ich Ruhmer” (eu celebro) que aparece em um poema tardio de Rainer M. Rilke, o poeta tcheco-alemão. Uma concepção que tem a magia de evocar no tempo o âmbito cultural da Grécia Clássica, onde a poesia era entendida como um ato demiúrgico que tornava visível e completava a criação divina, ao fazê-la manifesta e dar testemunho - por assim dizê-lo - de sua beleza surpreendente e enfeitiçante.

Em consonância com o anterior, se bem que é certo que admiro profundamente a obra de alguns poetas em que predomina, de alguma maneira, a “negação” do mundo, como seria o caso de Baudelaire , Lautréamont, Artaud, Daumal ou Ramos  Sucre, confesso que só posso apreciar plenamente aqueles que o “aceitam” ou o “afirmam” em sua beleza sobrenatural, no que pese o lastro de horror e estranheza que traz eventualmente consigo a condição humana. A este respeito menciono, entre os grandes poetas-místicos orientais, Hafiz, Rumi, Kabir ou Bashô; Goethe, Novalis, Nietzsche ou Rilke, no orbe alemão; Blake, Whitman, Juan L. Ortiz e Enrique Molina , no anglo-hispano-americano.

FM - Diz Lezama Lima  que “a história da sensibilidade e da cultura não é um segmento, mas uma mágica continuação”. Neste sentido, falar de influências é o mesmo que falar de conjugações, geminações, impregnações. Concorda com isto? Há uma escritura (esta “catástrofe que se goza”, segundo o chileno Enrique Lihn) original, iluminada a partir de um fluir mágico de efeitos?

RH - O universo é essencialmente relação, interpolação (ou polaridade) e, em última instância, um eco de si mesmo. Nada permanece intacto, separado, como tábula rasa ou fragmento que não pressuponha um todo, uma totalidade irredutível e prefigurada à qual não se pode renunciar nem mesmo na morte, que segue sendo relação, interpolação. Cada ser humano, animal, vegetal ou mineral, considerado de maneira isolada, constitui apenas peças ínfimas da relojoaria celeste, motas de pó no raio de sol dos mundos… E não os reveste outra identidade ou realidade senão outorgada por esse todo ou totalidade misteriosa e inescrutável.

Sendo assim, para um escritor (ou poeta) falar de influências, de afinidades - por que não de diferenças e divergências? - pode resultar um tema banal ou sedutor, como queira, porém igualmente labiríntico e inesgotável. No que me concerne, fiz oportunamente profissão de fé como leitor, antes mesmo do que como escritor. Isto em meu primeiro livro, Combate del carnaval y la cuaresma (1973), onde me declarava culpado de numerosas influências literárias e extra-literárias, em que somente a enumeração me levaria - no melhor dos casos - a escrever algo parecido com Os livros em minha vida, do norte-americano Henry Miller - uma obra, além do mais, admirável e fascinante sobre as “influências” literárias.

Quero referir-me - como na pergunta anterior - a essa linha negra ou visionária que parte dos grandes poetas-místicos orientais (hindus, chineses, japoneses, persas e árabes), passando pelos neoplatônicos gregos, os trovadores provençais e os imaginantes herméticos medievais e renascentistas, para concluir nos grandes românticos alemães e nos poetas simbolistas e surrealistas franceses. Estas seriam, ao menos, as influências que reconheço e que me resultam familiares. Também poderia falar das influências ocultas ou inconscientes, as que ignoramos e desconhecemos, e aquelas que se querem ignoradas e desconhecidas deliberadamente, como parece haver sucedido no caso particular de Arthur Rimbaud : qualificado de “místico em estado selvagem” (Paul Claudel), “mago desenganado” (Pierre Debray), “poeta vidente” (Rolland de Reneville) ou “poeta supramental” (Sri Aurobindo) - em vista das numerosas leituras de índole “ocultista” que fizera na Biblioteca Pública de Charleville -, enquanto outros autores - entre eles o poeta espiritualista venezuelano Juan Liscano - somente querem ver nele um eterno adolescente, um patife ou voyeur, que transpõe para a linguagem poética suas primeiras experiências e escarcéus erótico-onanistas.

Estes últimos autores aparentemente desconhecem a opinião de René Guénon - mestre incontroverso do pensamento tradicional ou iniciático no Ocidente -, quando afirma que os poetas, opcionalmente, podem oficiar como representantes “involuntários” de um centro de poder espiritual comunicando-nos a essência de uma doutrina “não-humana”, como ocorre, de maneira verossímil, durante a Idade Média, com os criadores dos Livros de Cavalaria, que têm por tema a lenda do Rei Arthur e a busca do Santo Graal.

FM - Há uma dedicação intensa sua ao estudo do Surrealismo. Entre outros, são notáveis os seus escritos sobre César Moro , René Daumal, Aldo Pellegrini . Diria que há uma identidade possível na poesia surrealista latino-americana?

RH - Se a América Latina é ainda Ocidente - uma parte marginal e excêntrica deste, como afirma Octavio Paz , porém sempre Ocidente -, e se o Surrealismo - ao dizer de Walter Benjamin - constitui, em definitivo, “a última instância da inteligência européia”, creio desnecessário acrescentar que nos concerne de perto e faz parte de nossa “identidade”, mesmo que isto incomode e moleste muitos de nossos teóricos terceiro-mundistas e americanistas ao estilo do cubano Alejo Carpentier que, em benefício de suas teses sobre o “autóctone” americano (que ele chama de “real maravilhoso”), não vacilaria em apropriar-se e usurpar o pensamento de Pierre Mabille - o mais original, embora desconhecido, dos ensaístas do Surrealismo francês -, silenciando-o abertamente no “prólogo” famoso que escrevera a respeito para sua obra El reino de este mundo.

No plano puramente literário, esse encontro ou correspondência do Surrealismo e da idiossincrasia latino-americana cristaliza-se, na minha maneira de ver, na aparição de duas antologias poéticas magistrais: a Antología de la poesía surrealista de lengua francesa (1961) - estudo preliminar e tradução de Aldo Pellegrini , o multifacetado poeta argentino que já em 1926 fundara o primeiro grupo surrealista de fala espanhola, cuja importância e relevância não foi ainda avaliada em toda a sua extensão - e a Antología de la poesía surrealista latinoamericana (1974) - seleção e apresentação do poeta e crítico romeno (no exílio) Stefan Baciu. Esta última, uma antologia de verdade estelar e notável, mesmo que nos sigam parecendo fortuitas e discutíveis as razões que teve seu autor para omitir os poetas do grupo argentino Juan Antonio Vasco e Juan José Ceselli (o prestígio deste último cresce com o tempo), o antilhano Aimé Cesaire e a totalidade do grupo de poetas surrealistas de São Paulo. É também irrelevante a empresa (que se explica somente através de uma ótica formalista e academicista) de circunscrever ou delimitar no tempo - empresa, por sinal, nada nova - o alcance do movimento surrealista, mesmo quando seu próprio criador e fundador já o definira de uma vez por todas como “um estado de espírito que tem se manifestado esporadicamente em todas as épocas e todos os países” (Entretiens 1913-1952).

Situando-nos no panorama da atual poesia hispano-americana (deixo de lado, neste momento, o Brasil, sobre o qual não possuo suficiente informação), a poesia de tendência surrealista resulta plenamente identificável pelo empenho posto em conciliar acaso e destino, sonho e realidade, razão e des-razão, amor e liberdade, invenção e revelação, e… por que não? ARTE e VIDA: aventura luciferina, festa verbal, que não desdiz o melhor da condição humana.

Fica claro que a poesia latino-americana busca, além disso, conciliar as antinomias raciais ou racistas, constituindo-se na linguagem daquela “raça cósmica” com que sonhara o mexicano José Vasconcelos, no início do presente século. Isto, ao menos, se deduz da asseveração do grande Pablo Antonio Cuadra , da Nicarágua (grande como homem e como poeta), manifestada ultimamente na revista venezuelana Poesía - por sinal uma publicação que não se caracteriza por suas simpatias surrealistas -, em entrevista realizada justamente por ti, de que “o americano não pode expressar o índio que leva dentro de si a não ser que recorra à aventura lingüística e onírica do Surrealismo”.

FM - Embora os integrantes de Piedra y Cielo tenham feito algumas incursões às fontes teóricas e líricas do Surrealismo, o certo é que nenhum deles pode ser considerado um surrealista. Também entre os poetas da geração posterior (Mito) não se localiza nenhum surrealista (não há dúvida em afirmar que Jorge Gaitán Durán  transcende o Surrealismo). No entanto, em países como México, Peru, Chile, Argentina - para continuarmos falando apenas da América Hispânica -, a presença do Surrealismo foi extremamente essencial e renovadora. A que atribuir o fato de que a poesia colombiana tenha sido tocada apenas tangencialmente pelo Surrealismo?

RH - Parodiando o libertador Simón Bolívar, vale dizer que a Colômbia é um quartel com a fachada de uma universidade… A violência é o deus secreto dos colombianos. Isto se sabe desde José Eustasio Rivera , o autor de La vorágine, um dos gestores ou genitores espirituais da cultura colombiana. Ante certeza tão irrevogável e malfadada, os poetas colombianos terminam por se refugiar prematuramente em uma linguagem de ouropel e encobrimento, em uma retórica sentimental e falsamente poética, chamada a exorcizar, de alguma maneira, tão infausta e espectral realidade… À margem da qual se permitem os jogos pirotécnicos de uma poesia contestatória ou política que imediatamente desmentem as vidas vulgares, conformistas dos autores de turno, inscritos na burocracia cultural, na docência universitária ou nos meios de comunicação oficiais e massificados.

Em tal sentido, mal se poderia assinalar uma incidência ou confluência da poesia surrealista, que busca antes de tudo a emancipação do homem na ordem individual e social, aproximando, dentro do possível, a arte e a vida, como disse antes.

Pelo que conheço, a única incursão no Surrealismo que se permitem os integrantes de Piedra y Cielo centra-se na aparição do livro de Carlos Martín (Hispanoamérica: mito y Surrealismo), ensaio e antologia tardia dos poetas surrealistas latino-americanos, bem delineada e concebida, em termos gerais, mas que acrescenta pouco ao conhecimento do tema ali exposto. Algo semelhante dá-se com a obra de Jorge Gaitán Durán  (de inegável profundidade e originalidade), cuja coincidência com o Surrealismo se circunscreve à obra do Marquês de Sade, interpretada à luz do pensamento mítico-erótico de Georges Bataille.

É certo que posteriormente os poemas do Nadaísmo deixam transluzir certa influência surrealista que, ao início da década de 60, contribui para sustentar o interesse dos leitores pelos manifestos e publicações deste grupo; porém logo em seguida se adverte que tal influência - além do mais superficial e mal assimilada - cede terreno à mais irrefreável postura exibicionista e publicitária, neste sentido corroborando os avatares adversos de um país sem outra “identidade” histórica, no momento presente, que o denominado “clientelismo” (a impostura unida ao arrivismo), no político e no cultural.

FM - É verdade que os poemas se explicam por si mesmos, bem como o poeta é um homem renovado a cada novo poema que escreve. Ao tocar a essência da linguagem o poema toca a própria essência humana. Duro combate entre o real e o imaginário, através da poesia o poeta se vê multiplicado em infinitos eus. Ao referir-se à inspiração, o poeta Robert Graves, em seu livro The white goddess (1948), questiona duramente a escritura automática, o que ocasiona uma crítica em seu livro El partido del diablo (1989). Qual o alcance da escritura automática no sentido de trazer novos valores significativos à poesia, a essa manifestação estética do absoluto?

RH - A alusão compartilhada que fazes a The white goddess, de Robert Graves, e El partido del diablo, meu livrinho de poemas e crônicas literárias, no contexto de uma série de reflexões sobre a linguagem poética, me traz à memória algo que deixei de lado quando tentei contar por escrito meu encontro ou experiência com a amanita muscaria ou matamoscas, o cogumelo mágico de Alice no país das maravilhas, o fungo alucinógeno dos xamãs siberianos, uma das “plantas dos deuses”, como a denominam Richard E. Schultes e Robert Hoffman, em um monumental estudo sobre o tema - na minha opinião -, por antonomásia de nosso tempo: o tempo dos Assassinos ou Hascheshinos (na dupla e significativa acepção deste termo), antecipado perfeitamente por Arthur Rimbaud . Refiro-me a certo lapso ou período de afasia ou esquecimento total da linguagem, vivido no transcurso de tal experiência, algo limítrofe no pânico e na angústia que, por um instante intemporal, levou-me a entrever o lado incriado, enigmático, silencioso do universo que nos rodeia. Ao recuperar a “graça”, o “dom” da linguagem, pude corroborar na própria carne aquela intuição genial, manifesta nos mitos cosmogônicos pré-colombianos, de que a linguagem é simultânea e consubstancial à condição humana e, em certa medida, a precede; ou, de outra maneira: que o universo é criação e feitura da palavra, ao menos no que toca à espécie humana.

Nessa escala, a “escritura automática”, definida por Breton como “a liberdade humana reavivando-se na perfeita identificação do homem e sua linguagem” (ao que acrescenta expressamente que “o segredo desta identificação encontrava-se perdido até a chegada do Surrealismo”), não seria senão confirmação de todo o anterior: a experiência inefável do aspecto oceânico, impessoal, metafísico, cosmogônico da linguagem, atuando e manifestando-se “sem a intervenção reguladora da razão e alheia a toda preocupação estética ou moral”, como sugere o Primeiro manifesto do Surrealismo.

Esse íntimo religar-se do homem e sua linguagem seria, por outro lado, o que Robert Graves assinala - desde um enfoque puramente mítico - como “inspiração poética”: uma tonalidade ou expansão da consciência, um estado particular de atenção que se alcança dificilmente e em momentos privilegiados. Tanto Graves como Breton (El mensaje automático e Entretiens 1913-1952) concordam em falar, a este respeito, de certa ascese, desapego ou desinteresse, necessários para sua prática ou consecução literária… E que, sem dúvida, a tornam inacessível aos conventinhos acadêmicos e jornalísticos, aos quais não resta outro remédio senão tratar, a todo custo, de desprestigiá-la, negá-la ou simulá-la. A escritura automática simulada resulta fácil de detectar porque carece de poder de evocação e ressonância na esfera das emoções. É letra morta.

FM - O próprio Robert Graves considera a “carência de segredos” um dos problemas centrais da poesia moderna, fazendo com que essa poesia deixe de ter sentido poético. O que pensa a este respeito?

RH - O sentimento do sagrado (porque é mais um sentimento do que uma idéia ou conceito) nasce do assombro e arroubamento de estarmos em um mundo de procedência enigmática e ao qual pertencemos como lhe pertencem as montanhas, os rios, as borboletas ou as flores, cuja ilimitada beleza e multiplicidade de formas se reiteram em um arquétipo que diríamos eterno.

A poesia, pois, como anotei em resposta à tua pergunta inicial, não é outra coisa diferente que o assentimento com esse fato de natureza milagrosa e surpreendente, o testemunho ajuizado de que, no que pese todo o precário e imperfeito que entranha a condição humana, estamos no melhor dos mundos possíveis, um mundo literalmente DIVINO.

Desgraçadamente, o manto judaico-cristão da cultura ocidental - extremamente dualista e maniqueísta - impede apreciar esse ponto de vista onde o sagrado e o profano coincidem e se equilibram, sem que um implique a negação do outro. A isolada concepção inicial de um Deus pessoal, criador (que reúne todos os atributos e perfeições possíveis) separado de sua criação (muito decaída e contingente), implica, a curto e longo prazo, o antagonismo mais irredutível - insucesso que se torna evidente a partir do primeiro milênio de hegemonia cristã -, com uma conotação ascético-espiritualista cortada e desligada do mundo exterior, até chegar ao nosso tempo - finais do segundo milênio -, caracterizado pela entronização do niilismo mais descarnado e devastador… um niilismo que, com a idéia do criador, termina por negar também a criação, produzindo o efeito de um ciclone, a seu passo pelo âmbito humano e ecológico do planeta.

Podemos concluir então que as culturas onde predominam o sagrado e o profano em forma antinômica e excludente de seu oposto, terminam por negar e excluir também a poesia e o poeta… ligados, desde tempos imemoriais - e nas mais diversas culturas - ao sagrado (porém a um “sagrado” que não exclui o “profano”). Recordo, a respeito, a definição que dava Platão da poesia: “Essa coisa leviana, alada e sagrada”; e que, não obstante, no contexto de uma cultura militarista como a romana, Marco T. Ciceron se permitia reclamar em foro a cidadania para o poeta Arquias, alegando sua qualidade de personagem “sagrado”… “porque os poetas parece que nos foram confiados como por uma espécie de dom e presente dos deuses” (Defesa do poeta Arquias).

FM - Concordaria com o espanhol José Ángel Valente, ao afirmar que a poesia tende sempre a “tornar-se iniciação, escola de poucos, palavra hermética”?

RH - A citação que fazes agora de J. A. Valente leva-me a recordar um artigo publicado inicialmente na seção editorial da revista A partir de cero n.º 2 (1952), dirigida pelo poeta Enrique Molina . O artigo - “A poesia deve ser feita por todos” - não aparece assinado, porém o tom soberbo, impertinente do mesmo, nos faz pensar que se trata de um texto de Aldo Pellegrini . Bem, pois tal texto se ocupa em assentar uma muito clara e radical diferença entre a famosa frase de Lautréamont - que, como bem sabes, é uma das maiores “consignações” do Surrealismo - e sua paráfrase acomodatícia, pela qual quiseram mudar todos os “impudicos niveladores por baixo”, os “folhetinistas demagógicos” (Breton): “A poesia deve ser feita para todos”. Como assinala Pellegrini, na primeira “a poesia é concebida como a mais alta atividade do espírito. Sua função se estende a toda manifestação vital, enobrecendo-a, e nela devem participar todos os homens. É uma concepção progressista e revolucionária”. Ao que acrescenta o poeta argentino: “A poesia feita por todos é um conceito de participação ativa e não quer dizer que todos os homens escrevam poesia. O poético é uma exaltação dos valores espirituais do homem no sentido mais geral possível, que chega a condicionar uma conduta, em sentido da vida, uma alta comunicabilidade, muito além das convenções.

Ao contrário - opina Pellegrini  -, em ‘A poesia deve ser feita para todos’, o homem é absolutamente passivo, simples receptáculo com lugar somente para o mínimo, cesto de côdeas. Nesta concepção, duvida-se da capacidade do homem para superar sua condição de sordidez, sendo condenado eternamente a uma condição de escravidão espiritual. A expressão ‘a poesia deve ser feita para todos’ é o conceito mais profundamente reacionário; concebe o poeta como eleito, coloca-o em um plano olímpico, do alto do qual, por condescendência ou piedade, desprende-se da menor parte de sua riqueza interior e a distribui em migalhas aos homens. É a poesia-esmola, por oposição ao conceito enunciado por Lautréamont de poesia-exaltação, na qual todos participam por igual no grande feito universal da poesia, participam ao extremo, confundidos no mesmo ato de criação”.

Em relação com o anterior, resulta explicável então que a “mensagem” poética concomitante a referido ato de participação e exaltação criadora pareça obscura, incompreensível ou hermética no âmbito mumificado, massificado e alienado do mundo moderno.

Vejo, contudo, uma possibilidade de ampliar e enriquecer a conotação - esotérica e alquímica - que encerra o qualificativo de “poesia hermética”, estendendo-o à da escritura que liberta o sentido e do sentido, ao mesmo tempo em que explora a condição humana mesmo naqueles aspectos reputados como anômalos, patológicos, ilegais ou repugnantes pelo modelo social estabelecido.

Em tal sentido, não me parece ilícito retomar as contribuições ao tema feitas ultimamente pela terceira geração de estudiosos da psicologia arquetípica de C. G. Jung  - como o primeiro Surrealismo, por exemplo, busca fortificar-se na psicanálise freudiana. Penso, sobretudo, nas investigações “herméticas” realizadas por Frances A. Yates, ou em Hermes e seus filhos, esse inspirado e fabuloso trabalho (único, talvez, na América Hispânica) de Rafael López-Pedraza.

FM - Há uma declaração sua que tem o peso de uma defesa poética: “sou o poeta do eterno feminino”. Fale-nos um pouco a seu respeito.

RH - Essa frase, amigo Floriano, que você tomou de uma velha entrevista, de alguma maneira pretendia assinalar minha pertinência a um universo fáustico ao qual salva e redime o tema da mulher, que é, como bem sabe, em sua acepção simbólica, a mediadora por excelência entre o humano e o divino, a porta dos mundos visível e invisível, a raiz amarga do sofrimento e da ilusão, porém ao mesmo tempo o paraíso… perdido e recobrado uma e outra vez.

Em outro sentido, aderir ao “eterno feminino” é recusar-se a aceitar a falsa segurança e independência que proporciona a visão niilista e egocêntrica do mundo, professada, entre outros, pelos poetas pederastas, salvo contadas exceções, servidores (e correligionários) do poder de César… do estado patriarcal - autoritário e repressivo - de nosso tempo.

Para um poeta moderno, testemunhar a favor da mulher a homenagem que desde sempre lhe é devida - como o fizeram, em seu momento, os trovadores de Minnesang e os Fiéis do Amor (aos quais pertenceu Dante) -, é outra maneira de render homenagem e aceitar plenamente tanto a vida como a morte. Preferir, à vida eterna, “a eterna vivacidade” (Nietzsche).

FM - Em meio ao caos ideológico que o homem preparou para si mesmo, me parece hoje inquestionável que o poder será sempre abominável, quer em mãos da burguesia ou do proletariado. A necessidade que temos agora (a espécie humana) seria a de abolirmos o domínio das utopias que consumiram este século. Enrique Gómez-Correa refere-se à urgência de se estabelecer novas utopias. Já Silviano Santiago acha mais adequado falar em contra-utopias. O único perdurável, contudo, é que caberá sempre à Poesia revelar os caminhos (quase sempre à custa de descaminhos), desventrar mitos, utopias, revoluções. Que papel desempenha hoje o poeta em nossa sociedade?

RH - Enquanto a humanidade for filha do tempo não deixará de sonhar e desejar; e o que é, afinal de contas, uma utopia senão o desejo realizado não mais no indivíduo mas sim na coletividade? O desejo premente, desassossegado de estar em “outra parte”, já que, no momento, o tempo se apresenta como carestia, condenação, exílio, solidão… “Any where out of the world”, nos diz Baudelaire , o primeiro poeta moderno. E não é outro o sentir de Arthur Rimbaud  em Vagabonds (Iluminations…), convocando, “além do campo cruzado por estranhas bandas de música, os fantasmas do futuro luxo noturno […] apressados por encontrar o lugar e a fórmula”… Esse lugar e essa fórmula que, apenas entrado o século presente, conseguem encontrar os surrealistas, ao conjugar em uma única consignação encantatória o pensamento de Marx e Rimbaud: “transformar o mundo, mudar a vida”.

É certo, por outro lado, que o conteúdo flamejante, convulsionário, desta mesma consignação - compêndio utópico do pensamento de nossa época - continua ligado, de alguma maneira, à concepção iluminista, decimonônica, do “tempo retilíneo”, da qual nos fala Octavio Paz  (Corriente alterna). Uma noção que variou sensivelmente, porque, na atualidade, o tempo termina - como na célebre gravura de Goya - por devorar seus próprios filhos (inclusive a utopia). É um tempo no qual novamente devemos escutar e adivinhar em cumplicidade do acaso, porque encerra um sentido e direção incógnitos e caprichosos. Um tempo, enfim, que marcha afinado com a idéia circular ou contrapontística concebida em culturas milenares, como a hindu ou a indígena pré-hispânica, porém à qual ainda falta se reconciliar com o frágil e inconstante do coração humano, proclive a evadir-se no artificial ou fictício… Tal como outrora o entenderam alguns poetas modernos e contemporâneos, proscritos do “tempo retilíneo”, cujo espírito absolutista e autoritário puseram em evidência ao apontar-nos, de maneira peremptória, aquilo de que “sempre que o homem quis fazer do Estado seu céu, o converteu em seu inferno” (Hölderlin).

Esses poetas em tempos de penúria, errantes sacerdotes do vinho, recordam ao homem do tempo novo - inclinado, como seu imediato antecessor, a refugiar-se em um futuro puramente ideológico - que a única utopia perdurável no tempo - porque escapa a toda fórmula e lugar - funda-se e eleva-se no alado do instante intemporal, nesse eterno presente de cuja fogueira nos fazem sinais a liberdade, a poesia, o amor e o riso.

 

________ 

RAÚL HENAO
(Colômbia, 1944)

Obra Poética

Combate del carnaval y la cuaresma. Ediciones Gamma. Medellín. 1973.
La parte del león. Monte Avila Editores. Caracas. 1978.
El bebedor nocturno. Instituto de Cultura y Bellas Artes. Cúcuta. 1978.
El dado virgen. Fundarte. Caracas. 1980.
Sol negro. Ediciones Unicornio. Medellín. 1985.
El partido del diablo. Editorial Lealon. Medellín. 1989.

Entrevista originalmente incluída em edição fora de mercado de Escritura Conquistada (1998).

 

projeto editorial do jornal de poesia

editor geral e jornalista responsável

soares feitosa

coordenação editorial da banda hispânica

floriano martins

.

Retorno ao portal da Banda Hispânica
retorno ao portal

Agulha - Revista de Cultura
revista agulha

 

 

Secrel, o provedor do Jornal de Poesia

 

 

 

Só a DIDÁTICA em prol do Homem legitima o conhecimento

A outra face do editor Soares Feitosa, o tributarista