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jorge luis borges

 

Encontro com Borges

Alberto Beuttenmüller

1

Foi em 1970 que conheci Jorge Luís Borges. Ele veio a São Paulo receber o Prêmio Interamericano de Literatura, instituído por Francisco Matarazzo Sobrinho, o criador da Bienal de São Paulo, o Ciccilo Matarazzo, como era conhecido. O mecenas das artes paulistas resolvera premiar Borges. Esse prêmio nunca mais foi dado a qualquer outro escritor. Fui ao aeroporto de Congonhas esperar o gênio em missão profissional. Trabalhava no Jornal do Brasil, cujo editor era apaixonado pela obra de Borges. No aeroporto, havia uma comitiva de escritores. Lá estavam Lygia Fagundes Telles, Paulo Bonfim, Mario Chamie, entre outros. Escrevo de memória. Não quero usar meus apontamentos. Estão em outra biblioteca e a memória tem a uma grande vantagem - elimina os fatos desimportantes.

Estava em Congonhas diante do meu passado, a esperar Borges, naquele saguão vazio, mas cheio de espelhos e de labirintos da memória. Olhava a escada em caracol, que levava nos anos 60, ao salão de baile do aeroporto. Hoje é restaurante. Ali a orquestra de Sílvio Mazzuca embalava os bailes de formatura de tantas turmas de esperançosos jovens. Haverá crueldade maior do que a esperança? Borges assentiria com sua bela cabeça de raros cabelos brancos. Aos poucos, alguns versos vieram-me à lembrança de seu livro Luna de Enfrente:

Mi Vida Entera: aquí otra vez, los labios memorables, único y semejante a vosotros. He persistido en la aproximación de la dicha y en la intimidad de la pena. He atravesado el mar. He conocido muchas tierras; he visto una mujer y dos o tres hombres. He querido a una niña altiva y blanca y de una hispánica quietud. He visto un arrabal infinito donde se cumple una insaciada inmortalidad de ponientes. He paladeado numerosas palabras. Creo profundamente que eso es todo y que ni veré ni ejecutaré cosas nuevas. Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en pobreza y en riqueza a las de Dios y a las de todos los hombres.

O leitor há de pensar que cito de memória, mas não. Comprei as Obras Completas de Borges, numa banca de jornal de Buenos Aires, mas isso foi em outro encontro memorável com "El Brujo". No momento, estamos eu e o leitor, atentos à chegada de Borges. Lá vem ele, com a bengala preferida. Borges tinha uma coleção de bengalas. Trazia-o o secretário Norman, um poeta norte-americano, que fazia estágio junto ao Bruxo. Borges estava de terno branco, menos a gravata azul, presa por prendedor de madrepérola. Na cabeça, um chapéu-de-panamá, que logo tirou, deixando que os raros cabelos respirassem o ar impuro da cidade. Todos se apresentaram, então, Borges me perguntou: "Quem é você?" Respondi que era só um jornalista. Ele, com ironia, aduziu: "La prensa me encanta".

Rimos juntos. Disse-lhe que, ao surgir no portal de chegada me pareceu ter visto o Aleph. Cito um trecho: "Arribo, ahora, al inefable centro de mi relato; empieza, aquí, mi desesperación de escritor. Todo lenguaje es un alfabeto de símbolos cuyo ejercicio presupone un pasado que los interlocutores comparten; como transmitir a los otros el infinito Aleph, que mi temerosa memoria apenas abarca?".

E outro trecho já traduzido: "Os místicos, em transe semelhante, gastam os símbolos: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis fala de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel fala de um anjo de quatro asas que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. É possível que os deuses não me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas este informe ficaria contaminado de literatura, de falsidade. (...) Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que meus olhos viram foi simultâneo; o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é."

Borges olhou-me fixo nos olhos. Naquele tempo ainda não era cego, totalmente. Via as pessoas com uma névoa ante os olhos, éramos todos fantasmas para Borges. Borges perdia a visão aos poucos e cada vez me parecia que ele enxergava mais: "São raros os que conseguem ver o Aleph. Precisamos nos falar, mas longe dessa turba."

Perguntei-lhe de H. Bustos Domecq. Borges olhou-me com toda a sua ferina ironia, e respondeu: "Entonces, no sabes? H. Bustos Domecq se murió..." Quis saber o que queria dizer o H do nome de Bustos Domecq criado por Borges e Bioy Casares. (Durante anos jantaram juntos e escreveram a quatro mãos. Por isso, criaram o escritor H. Bustos Domecq.) "O 'H' de Bustos Domecq é só uma letra do alfabeto, como o Aleph..." Bustos fora tataravô de Borges; Domecq, tataravô de Bioy Casares.

Depois de Congonhas, marcamos encontro longe da azáfama e do burburinho das pessoas, teimosas em cobrir-lhe o peito com a medalha da falsa amizade. Ele sabia como ninguém o quanto lhe custava estar diante dessa gente. Não revelarei o local. Borges assim me pediu, há mais de 30 anos; o segredo deve ser guardado, caso contrário, ele virá de onde estiver cobrar-me esta falseta. Neste lugar que chamarei de Aleph, pedi a Borges que me dissesse como, depois de ser um prosador incomum e poeta maior, tornou-se contista.

Vou traduzir para não parecer pedante: "Tornei-me contista devido a um acidente. Bati a cabeça em algo que não sei até hoje o que foi e tive um grave ferimento. Pode ter sido na Esfera de Pascal." -disse em tom de blague. "Passei quinze dias no hospital e fui operado. Quando voltei desse lugar estranho da inconsciência, pensei que nunca mais voltaria a escrever. Quis escrever um poema, mas a poesia era o meu território natural e, portanto, nada provaria. O mesmo me ocorreu, se escrevesse um ensaio. Tu sabes que tudo o que é rotineiro é fácil. Então pensei em escrever algo novo, se conseguisse, minha mente estava bem de saúde. Pensei em escrever um conto. Se não conseguisse, estava acabado para a literatura..."

E o que escreveu? "Pierre Menard, autor de Quijote. Como o conto foi elogiado pelos amigos, percebi que não estava acabado. Assim, comecei a escrever contos por mero acidente."

Enquanto Borges falava, com sua fala mansa e cadenciada, como que metrificada pela poesia, eu divagava. Eu me perguntava por que ele, conhecedor de línguas, amante dos enigmas filosóficos, poeta que sabia capturar a difícil face do real, era um confesso conservador? Por essa atitude recebeu críticas da esquerda Argentina, mas também da direita: "Os argentinos estão virando nazistas sem se dar conta. Perón era um fascista patético. Os governos, em geral, são nacionalistas, e eu não sou; são católicos, e eu não tenho certeza sequer se sou cristão, e se o fosse, não seria católico. Sou um homem livre" - declarou Borges diversas vezes, ele tinha ódio aos políticos.

Quando Vargas Llhosa lhe perguntou sobre política, a resposta de Borges caiu como um raio: "Política é uma das formas de tédio".

Já que citou a Esfera de Pascal, podia dizer algo sobre o seu livro Otras Inquisiciones, de 1945. Nele, Borges definia a História Universal: "Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas. Não me lembro de cor o que escrevi, mas me lembro de ter escrito que seis séculos antes da era cristã, o rapsodo Xenófanes de Colofônio, fato dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade, condenou os poetas que atribuíam traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus, que era uma esfera eterna. No Timeu de Platão, lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme, porque todos os pontos da superfície eqüidistam do centro; Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie, 1830) entende que Xenófanes falou analogicamente; o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor, ou menos má, para representar a divindade. Parmênides, quarenta anos depois, repetiu a imagem: 'O Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada, cuja força é constante do centro em qualquer direção'."

Borges concluiu: "A história universal seguiu seu curso, os deuses demasiado humanos que Xenófanes tacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios..."

São Paulo ainda tinha garoa naquela tarde estival. Na minha frente, o Bruxo Borges, olhando-me de esguelha, como olham os quase cegos, se divertia comigo, como com qualquer jornalista, por isso a imprensa lhe encantava. A segunda parte do encontro com Jorge Luis Borges deu-se em Buenos Aires, quando falamos de seus amores, um caso raro, em se tratando desse gênio argentino. Mas isso fica para outra vez...

2

Meu segundo encontro com Borges deu-se por acaso em 1977. Deixei São Paulo por Congonhas, onde conheci Borges e o entrevistei para o Jornal do Brasil, no primeiro encontro. Dessa vez fui a Buenos Aires, a terra natal do Bruxo. Depois de ter feito a curadoria da 14a Bienal de São Paulo, quando a Argentina ganhou o Grande Prêmio, o curador argentino e diretor do CAYC –Centro de Arte Y Comunicación – Jorge Glusberg – convidou-me para fazer uma palestra sobre arte e design. Após a palestra, conheci o pai de Glusberg, um culto homem porteño, amigo de Borges. Assim, nasceu a idéia de um novo encontro com El Brujo. Falamos por telefone com Borges. Para minha sorte, ele se lembrava o nosso diálogo anterior. Fiz questão de dizer que não era uma entrevista, mas apenas uma conversa entre duas pessoas apaixonadas por literatura. Borges gostou.

Hablar de literatura me encanta! – disse o bruxo, com sua ironia costumeira.

Antes do encontro com Borges, quis dar uma volta pela bela Buenos Aires, à medida que rememorava poemas dele à cidade, sua maior paixão.

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899; morreu em 24 de junho de 1986. Não quis ser enterrado na sua cidade. Em 1985, quando foi diagnosticado um câncer de fígado, Borges e Maria Kodama fugiram de Buenos Aires para a Itália, depois para Genebra, onde El Brujo vaio a falecer. Foi enterrado no cemitério de Plainpalais. Neste, há a inscrição Borges Jorg-Luis 735D/G6. Seu túmulo tem na lápide, a frase:...E ele não terá medo. Em outra face da lápide, a frase: “Hann Tekr Sverthit Gram/Ok Leggr Methal Theira Bert”, que em bom sueco quer dizer: “Ele pega a espada Gram e a deposita nua entre eles”. Na parte inferior, a frase: “De Ulrica a Javier Otárola”. Ulrica é o conto de Borges para Maria Kodama. Até na morte, Borges construiu enigmas.

Andava pelas ruas porteñas e pensava no poema "Muertes de Buenos Aires": La muerte es vida vivida, /la vida es muerte que viene; /la vida no es otra cosa /que muerte que anda luciendo. Andava a esmo pela Avenida de Mayo, a admirar os prédios harmônicos e de igual altura, coroados por cúpulas em estilo francês ou italiano. Diante do Museu Histórico, a Passagem Roverano, a galeria mais antiga da cidade, que se une a calle Hipólito Irigoyen e à estação Peru do metrô, a mais linda e pitoresca do subterrâneo. Nada ali mudou desde que foi inaugurada em 1913. Cruzo a calle Chacabuco e me vejo diante do Café Tortoni. Aí Borges teve mesa cativa e virou peça de museu. O café foi fundado por um snob francês, no século XIX, e freqüentado por Lorca, Pirandello, Rubinstein, Josephine Baker e Astor Piazzolla. As fotos dessas personagens ainda se encontram junto à porta do salão de bilhar. Em honra ao Bruxo, peço manzanilla, um vinho assemelhado ao xerez andaluz. Depois disso, sinto-me pronto para ver Borges na calle Maipu. O vinho me aqueceu o corpo e o espírito, naquele outono enganoso, pois fazia frio.

O apartamento do Bruxo era escuro e parecia antigo, vetusto mesmo. Os móveis eram sombras, não pareciam ter densidade. Borges estava sentado no seu escritório particular, numa poltrona de veludo de cor escura. Começamos a falar de assuntos correlatos, sua passagem pela Biblioteca Nacional Argentina, onde foi diretor de 1955 a 73, quando se tornou um devorador de livros. Depois, falamos de sua experiência como mestre; primeiro, na Universidade de Buenos Aires, onde lecionou literatura de Língua Inglesa – norte-americana e da Grã-Bretanha; depois, como mestre de poesia em Harvard. Foi quando tive vontade de perguntar-lhe o que ele achava de alguns dos livros pontuais da história literária. Lembrei-me de Ulisses, de Joyce.

- Creio que o mundo deu muita atenção ao Ulisses de Joyce. Aqui na Argentina foi uma loucura. Lembro-me que por volta dos anos 40 queriam fazer uma tradução do Ulisses. Para isso criaram uma comissão. Infelizmente ou felizmente, Salas Subirat traduziu o livro antes e acabou com aquele martírio de reuniões sem fim – explicou Borges, rindo.

- Não consegui ler completamente nem o livro do Joyce nem a péssima tradução do Subirat, mas todo mundo aplaudia aquela bobagem.

Ulisses foi publicado na Argentina em 1945, pela Editora Santiago Rueda, que também traduziu Retrato do Artista Quando Jovem, em tradução de Damaso Alonso, sob pseudônimo de Alfonso Donado.

Perguntado sobre se existia uma tradução perfeita de Ulisses, Borges pôs a mão na testa, um cacoete comum nele, e descartou:

- Não creio. Ulisses foi escrito no Inglês de Dublin, portanto da fala regional. Caso o tradutor criar dentro do regionalismo de sua língua, a obra perderá em universalização. Se fizer o contrário, também não acertará – disse Borges, agora sério.

-  Na verdade, o escritor escreve sempre o mesmo livro, sob outro ângulo ou em outro tempo, em outra idade. Ulisses é uma continuação dos livros anteriores de Joyce, na mesma técnica de neologismos, mas seus contos são melhores, pois neste caso se percebe o escritor, não o filólogo. Com a passagem do tempo, um escritor descobre que as idéias devem ter uma expressão clara e precisa. Só assim criará emoções e atmosferas que ele deseja passar ao leitor. Se escrever uma palavra arcaica ou estranha no seu livro, esse termo só servirá para distrair a atenção do leitor. O ideal é uma frase em que todas as palavras tenham o mesmo valor. O leitor deve ler fluentemente, independente de assunto, seja filosofia ou metafísica.

Tempo-Contratempo-Memória

Apesar de seus labirintos de espelhos e suas metáforas, o que sempre me impressionou em Borges foi o seu modo de conceber o tempo. A pergunta deixa-o surpreso. Passa Leonor Acevedo, sua mãe, vestida de sombras. Pergunta se quero algo para beber. Borges aconselha um Jerez de La Frontera. Vamos a ele, pois. As mãos transparentes de Leonor servem a bebida translúcida. Afasta-se solene. Ainda hoje ouço o farfalhar do seu vestido comprido como uma aparição. Borges amava sua mãe, por isso, seus amores não deram certos. Vamos ao tempo.

- Eu já disse, mas repito. A história universal, quiçá, seja apenas a história de algumas metáforas. O tempo é infinito, não deve ter uma cronologia determinada, mas sim um espaço como o Aleph, voltado para todas as direções, que são infinitas.

- Mas o senhor quando deu aula de literatura inglesa pulou do século 11 para o 18, deixando de fora Shakespeare, entre tantos outros poetas?

- É verdade. O que poderia acrescentar a respeito de Shakespeare que todos ainda não sabem? Sempre comparei estilos, deixando de lado a cronologia. Às vezes, um poeta moderno tem muito mais a ver com outro de um século atrás do que com seus contemporâneos. Muitas vezes um poeta tem uma vida mais poética do que sua própria poesia. Eu não sou professor, mas me pediram para dar aulas. Os escritores deixam sua imagem muito mais que suas obras. Quando se fala de Picasso, logo falam de suas mulheres, quando se fala em Van Gogh, logo dizem de sua vida desgraçada. Por isso, dei aulas do que me admirou como leitor, não como escritor. Ler é mais importante que escrever.

- O senhor acredita que ficará com a imagem de Picasso ou de Van Gogh?

- Minha vida amorosa foi um desastre, mas não foi tão desgraçada como a do pintor holandês, creio que ficarei no interstício da vida de ambos, no vazio existencial entre os dois.

 Dona Leonor Acevedo passa de novo pela porta do escritório. O amor de Borges pela mãe, impediu-o para o amor carnal. Ele tinha aversão pelo fato físico, nenhum de seus amigos jamais o viu nu. E Estela Canto, uma uruguaia emancipada, quando foi pedida em casamento, depois de meses de namoro disse: “Eu aceitaria, Georgie, mas você não pode esquecer que sou discípula de Bernard Shaw. Não podemos casar sem antes dormimos juntos”. 

 

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