António Ramos Rosa 
O olhar de Murilo Mendes
                  
 
 O olhar de Murilo Mendes abre-se às forças da origem
 e num lento silêncio até ao fundo do imóvel
 inaugura a nupcial articulação.
 Vazio e presença, ruptura e aliança
 na atenção aguda à evidência e ao enigma.
 Os deuses mostram-se então na imobilidade do ar
 e no puro instante da contemplação irisam-se.
 E o olhar abre-se imensamente às nascentes nocturnas
 captando o eco perdido em cada coisa.
 Nessa glória que ilumina tudo, é alta e rapidíssima
 a língua da visão que contorna os confins
 e deixa transparecer o indivisível círculo
 que em si preserva o silêncio divino e o fulgor
 de umas quantas palavras que pulsam como estrelas.
 
 In: Facilidade do Ar (1990)
 
 
Remetente : Maria Alice Vila Fabião

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