António Ramos Rosa 
No Fundo Aberto
                  
 
Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
 e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
 como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
 Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
 sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
 Estamos na aurícola do coração do mundo.
 O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
 Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
 e é a felicidade da língua vegetal
 ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
 Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
 e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
 enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.
 
Remetente : Maria Alice Vila Fabião

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