Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

 

 

 

Affonso Romano de Sant`anna


 


Vida literária: ontem. E hoje?



02 de Julho de 2005

 

 

Como todo bom livro, esse “A vida literária no Brasil — 1900” (José Olympio), de Brito Broca, pode ser lido em vários níveis. Tanto os que gostam de estorinhas e casos de escritores quanto os que estudam a formação da cultura nacional encontrarão aí dados para se divertirem e se informarem. Verão reconstituído o tempo do modernizante governo Rodrigues Alves, a ação de Pereira Passos redesenhando o urbanismo carioca. Vão saber de José do Patrocínio, abolicionista negro, que voltou da Europa trazendo o primeiro carro para o Brasil e nesse espantoso veículo desfilando airoso, até que Olavo Bilac, ao tentar dirigi-lo, destruiu-o num desastre na Rua da Passagem. Leremos aí que não é de hoje que a Biblioteca Nacional exibe a sua Bíblia de Guttemberg, pois quando Anatole France veio ao Brasil em 1909 levaram-no lá para reverenciar a obra. Terão os leitores elementos para entender a esterilidade criativa de Aluízio Azevedo que, tendo tido o sucesso com “Casa de Pensão”, “O cortiço” e vivendo de escrever folhetins, nunca mais conseguiu terminar obra literária alguma desde que ingressou na carreira diplomática. Vão os leitores também se informar dos escândalos em torno de algumas eleições na Academia Brasileira de Letras, quando, por exemplo, o jovem Mário de Alencar — protegido de Machado de Assis e Rio Branco — derrotou outros escritores mais conhecidos.

Poderão saber quais eram os salões literários que existiam na cidade, tipo Laurinda Santos Lobo (lá em Santa Teresa); de Sampaio Araújo (na Voluntários da Pátria); do casal Azeredo (na Praia de Botafogo); de Araújo Viana (na Muda da Tijuca); de Coelho Neto (na Rua do Rozo), e de como os artistas se dividiam povoando confeitarias e cafés como Café do Rio, Café Paris, o Java, Café Papagaio, Café Globo, Confeitaria Colombo, Confeitaria Pascoal; ou então, como depois do expediente, já que eram em geral funcionários públicos, iam os escritores para as portas das livrarias Briguiet, Laemmert e Azevedo para fazer a “vida literária”.

Através desse livro iremos conhecendo melhor os meandros das personalidades de escritores como Machado de Assis sentado numa cadeira para ele especialmente reservada na livraria Garnier, e ali colhendo homenagens dos áulicos, ou afirmações pouco lisonjeiras de Monteiro Lobato sobre a mistura de raças no Brasil. Mas além de saber como se organizaram as ondas de leitores em torno de Nietzsche, Tolstói, Ibsen e Oscar Wilde, iremos rever os dândis nas confeitarias com suas polainas, capas, chapéus desabados, monóculos e gravatas espalhafatosas. Conheceremos centenas de outros escritores que, para usar uma imagem da época, eram falenas que se queimavam girando em torno da chama da glória. Esses “outros”, que sem serem grandes, com suas obras menores fertilizaram o terreno literário e com suas vidas ansiosas em torno da glória fornecem elementos para uma sociologia da literatura e da cultura.

Publicado originalmente em 1956, essa obra deveria ser de leitura obrigatória primeiramente para quem quisesse estudar letras ou recompor a história do cotidiano da cultura. Além de ser agradável leitura, reforçaria a idéia de que, ao contrário do que se afirmou nas últimas décadas, uma obra artística não é unicamente texto, mas texto e contexto. A arrogância objetivista de certa crítica quis jogar fora a biografia dos autores, neutralizar a história, a psicanálise e a sociologia como se o estilo e a estrutura de uma obra fossem algo fora do tempo e do espaço. Não é bem assim.

Brito Broca tinha muita clareza do que estava fazendo: “Não precisarei insistir na distinção que estabeleço entre vida literária e literatura. Embora ambas se toquem e se confundam, por vezes há entre elas a diferença que vai da literatura estudada em termos de vida social para a literatura em termos de estilística. Aliás, essa distinção André Billy já fez na série que dirige na França ‘Histoire de la vie littéraire’ (Tallendier)”.

O projeto de Brito Broca era fazer quatro volumes reconstituindo a “vida literária” em nosso país em diversas épocas. Os outros três seriam o período colonial e romântico, a fase naturalista e a vida no modernismo. Se houvesse desenvolvido seu projeto, essas obras constituiriam, ao lado dos sete volumes da “História da inteligência brasileira”, de Wilson Martins, uma fonte riquíssima para se entender o Brasil. Lamentavelmente Brito Broca morreu atropelado na madrugada de 20 de agosto, na altura da Rua Dois de Dezembro, no Flamengo, aos 58 anos de idade. Dele só há boas referências, embora seja, como o disse Francisco Assis Barbosa, “escritor sem biografia”.

Tanta tese hoje surgindo por aí sobre assuntos inexpressivos ou repetindo consuetudes sobre meia dúzia de autores sempre viciosamente estudados, e eu pensando por que alguém não faz tese sobre Brito Broca e seu arqueológico trabalho. Por que não surge alguém enfrentando esse enorme e belo desafio que seria escrever a “vida literária”, por exemplo, em torno do modernismo, ampliando assim algumas trilhas de Mário da Silva Brito e corrigindo o viés exageradamente paulista da questão. Como seria interessante se reconstruir a vida literária em torno dos anos 50 e 60, quando ocorreu a maturidade da crônica, o surto das neovanguardas, quando as artes em geral passaram por formidável transformação no período de JK, quando houve a modernização dos jornais e revistas, a televisão começou a surgir, a universidade a ter um papel maior na vida literária e vivemos crises políticas e sociais perturbadoras; enfim, como seria essa vida literária e cultural em 2000 ou hoje, 2005, nessa nova passagem de século?

Quem escreveria tal epopéia ou farsa ou epigrama? Quem teria uma escrita a mais isenta possível, capaz de olhar de múltiplos ângulos rompendo com a visão estreita dos que querem conformar a História ao seu ponto de vista, à sua regionalidade, operando pela exclusão arrogante quando se deve tentar entender o todo e as partes?

 

 

Visite a página de Brito Broca

 

 

 

 

 

 

 

12/11/2007