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Affonso Romano de Sant`anna


 


Leitores Tortos



11 de Junho de 2005

 

 

Foi há uns dois anos. Em Curitiba. Eu havia terminado uma conferência sobre arte e pós-modernidade e saí com várias pessoas para comer e beber algo. Acabamos pousando num local que acho tinha o nome de Bar do Batata. E conversa vai e copo vem, fico sabendo que existe naquela cidade uma insólita entidade chamada Sociedade dos Leitores Tortos.

O nome não poderia ser mais sugestivo. Remete logo para aquele filme “Sociedade dos poetas mortos”, que relata a vida de adolescentes num internato, que acabam por fazer uma espécie de sociedade secreta para leitura e curtição de poesia. Motivados por um professor de literatura, os garotos abrem seu imaginário através dos livros. Um tema assim aparentemente tão esquisito deu numa obra dramática que teve enorme sucesso e continua a emocionar as pessoas, quer gostem ou não de poesia.

Ao ouvir o nome dessa Sociedade dos Leitores Tortos, lembrei-me que no século XVIII surgiram umas entidades congregando intelectuais de várias áreas que tinham também uns nomes bem esquisitos: Academia dos Felizes, Academia dos Renascidos, Academia dos Seletos etc. Havia nelas um ar meio pomposo ao gosto barroco e rococó. Já o caso dessa sociedade curitibana é diferente.

O fato é que estava ali naquele bar ao meu lado um jovem que deu-me seu email: tortomor@yahoo.com.br. Gosto dessas coisas irônicas. Aprende-se com a vida e com a literatura que a gente deve se tratar com desconfiança e ironia, até mesmo para se adiantar à ironia e à desconfiança alheias.

E o Tortomor, que se chama Cláudio, ia me contando como funcionava esse tipo de sociedade (quase) secreta. Começaram quase por acaso e de maneira bem modesta. Reuniram-se, alguns amigos, para comentar os livros que estavam lendo. Leitura tem disto. Quando a gente gosta de um livro (é a mesma coisa com um filme), fica cutucando as pessoas “você precisa ler”, “eu adorei, leia que vai curtir”. Então, nessa SLT, cada um lia o que bem queria. Não havia nada programado. Iam lendo e se encontrando na casa de um ou de outro para trocar idéias sobre o que liam. E a coisa foi engrenando. Começaram a aparecer pessoas interessadas em ver e participar do grupo. De repente, eram já dezenas de leitores tortos encontrando-se regularmente para trocar idéias e emoções em torno dos livros lidos.

Perguntei ao Tortomor que tipo de gente estava se aglutinando ali. Para minha surpresa não eram escritores, e sim engenheiros, advogados, administradores, psicólogos, etc. Isto provocou em mim maior curiosidade. Pensei: eis um modelo de atividade de leitura que pode ser repetido em qualquer comunidade. Não precisa de patrocinador, não carece de ser aprovado pela Lei Rouanet. Basta querer, basta gostar e basta ter alguém com certa liderança que as coisas começam a acontecer. E eles estão lá, na deles. Simplesmente curtindo o que lêem. Ou seja, juntaram as duas pontas do fenômeno leitura: o pessoal e subjetivo com o social e comunicativo. Não falam de redistribuição de riquezas? Está aí a redistribuição de leituras. O imaginário compartilhado.

A partir de então, em várias conferências e palestras por este mundo de Deus e do Diabo, ou conforme essa desastrosa e boba disputa entre o PSDB e o PT — esse mundo de “perus bêbados” e “gambás com mau cheiro” — me referia sempre a esse grupo singular de leitores. Que fim teriam levado? Pois outro dia, escapando um pouco da Bienal, no Rio, fui participar da 20 Bienal de Bento Gonçalves. Anotem, é a vigésima. Esses gaúchos são exemplares em termos de investimento em leitura. Muitas cidades com cem mil habitantes naquele estado têm suas feiras do livro. E como faço sempre que viajo, peguei uma cadernetinha na qual anoto coisas e lá redescubro o endereço do nosso Tortomor. Resolvi escrever-lhe para saber se já havia se endireitado. E qual não foi minha surpresa quando recebo a informação que o grupo cresceu ainda mais. Conta-me Cláudio: “Me lembro o quanto você ficou empolgado com a idéia deste clube de leitura. Naquela época ainda estava no início. E não tenho dúvidas de que seus elogios, que foram repassados aos demais Leitores Tortos, ajudaram a consolidar a idéia. O encontro do mês passado, o 24, foi o comemorativo de 2 anos de SLT. Contamos com quase 90 inscritos e o grupo agora está cada vez mais empolgado e cheio de idéias”.

E por aí vai narrando que fazem até umas atas engraçadas sobre os encontros. Embora no princípio não fossem escritores, o vírus da leitura os contaminou comprovando aquelas coisas que Machado e Borges diziam: ler é uma forma de escrever, escrever é também uma forma de ler. Por isto, estão passando para o segundo estágio dessa dialética: começam a escrever, e revelam que “uma dessas idéias é o lançamento de um livro com os escritos (contos, crônicas, poesias) dos próprios leitores. O livro ainda não tem nome, mas é tratado por nós humilde e carinhosamente de ‘O Grande Livro da SLT’. A organização é por parte do Adonai Sant’Anna e os textos já estão sendo colhidos, com prazo até junho/julho para finalização da captação”.

Tenho visto algumas coisas outras insólitas no terreno do livro e da leitura. Há pouco tempo estive em Brasília, onde o açougueiro Luis Amorim instalou uma biblioteca em meio a costelas, fígados e maminha de alcatra. E não apenas botou estantes de livros, desventrando assim o saber, como empresta livros para quem quiser, além de aprontar uma espécie de festival, o “Açougue cultural”, reunindo música e literatura, na quadra em que trabalha em Brasília.

Outro dia, lá em Sabará, Minas, um rapaz de 26 anos, Marcos Túlio Damasceno, dono de uma borracharia, montou uma biblioteca pública dentro de sua oficina . Quer dizer, em vez de folhinha com mulher pelada, o moço botou livros nas prateleiras para emprestar aos que ali se dirigem. Ele só tem o ensino médio. Quer ainda estudar letras, mas já está dando aulas de cultura a muito letrado por aí.

Como se vê, há mais leitores tortos do que se imagina. Vai ver que é por aí que se começa a endireitar este país..

 

 

 

 

 

 

 

09/11/2007