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Affonso Romano de Sant`anna
Mário, morte e modernidade

11 de Junho de 2005
Dois assuntos me solicitam. O segundo
deles foi o falecimento de Antônio Carlos Villaça. Não pensava em
escrever sobre isto, talvez, para não reviver, remorrer, não
ressofrer mais. Mas fui às estantes procurar aquele livro do Moacyr
Werneck — “Mário de Andrade, exílio no Rio” e dei de cara com vários
livros do nosso Villaça. Tirei-os, comecei a relê-los. Villaça foi
aquilo que eu chamaria de homem-livro. Era livro de carne e osso.
Era feito de capa (com orelhas, é claro), lombada, prefácio, miolo,
só faltava o posfácio que, com sua morte, começa a crescer. Digo que
era um homem-livro, porque ele pensava literatura 25 horas por dia.
Pensava, não; vivia, respirava, comia literatura em tempo integral.
Era um autêntico homem de letras. Abriu mão de seu volumoso corpo
pelo corpo da letra.
Lembro-me de o ter convidado, nos anos
70, para um curso de criação literária na PUC/RJ, no qual,
semanalmente, nomes como Pedro Nava, Clarice Lispector, José Rubem
Fonseca explicavam a gênese de seu processo criador. E ele lá,
gordamente, falando de seu fascínio não só pelos livros, mas pelos
próprios autores enquanto seus personagens. E dizia que não podia
ver um autor na rua, que o seguia para ver o que faria. Era capaz de
ficar atrás de uma árvore, atrás de uma porta só para espiar o
outro.
Vai ver que literatura é isto: puro
voyeurismo, meter o olho na fechadura alheia para tentar ver o que o
outro — o autor — vê.
Eu tinha ido buscar o livro do Moacyr
sobre Mário de Andrade, por causa do recente ensaio de Eduardo
Jardim — “Mário de Andrade — A morte do poeta” (Civilização
Brasileira). É que Moacyr conheceu e correspondeu-se com Mário e fez
uma linda, fraterna biografia de Mário retratando o período em que o
escritor paulista viveu no Rio (1938-1941). Encontrava-se com Mário
toda uma geração de artistas como Drummond, Bandeira, Rodrigo Mello
Franco, Portinari, Sérgio Buarque, Lúcio Costa, Prudente de Morais,
Augusto Meyer, Jorge de Lima, Guilherme Figueiredo, Murilo Miranda,
Lúcio Rangel.
Então, fui buscar o Moacyr, para ler
melhor o Eduardo e topei com o Villaça. E agora já estou falando
sobre o livro e sobre o Eduardo mesmo. Tive dois encontros
acadêmicos com Eduardo. O segundo (percebo que estou sempre
começando pelo segundo item, pelo fim, ou seja, pela morte), repito,
o segundo encontro foi numa academia de ginástica de Ipanema.
(Anotem: intelectuais, em 2005, freqüentam academia de ginástica,
coisa não apenas de gatas e gatos malhadíssimos). Então, estávamos
ali em meio a sofisticadíssimos aparelhos de flexão, de extensão e
sofrimento, quando ele me disse que estava publicando aquele ensaio
sobre Mário.
Pensei ociosamente. Será que ainda há
qualquer coisa a dizer sobre Mário? E lembrei-me de que o primeiro
encontro acadêmico com Eduardo, então Eduardinho, foi na PUC/RJ dos
anos 70, quando consegui trazer ao Brasil Michel Foucault,
finalizando contatos iniciais feitos por Amélia Lacombe. E Eduardo
estava entre os alunos de filosofia desse discreto e competente
Roberto Machado, que supervisionou a tradução das conferências de
Foucault (“A verdade e as formas jurídicas”). E aos poucos Eduardo
foi se entregando à literatura, tendo publicado vários ensaios sobre
o modernismo. Este “Mário de Andrade — A morte do poeta” é de suave
e tocante leitura. A primeira coisa de que gosto é que não é nada
acadêmico, apesar de termos nos encontrado em duas academias. É um
ensaio no sentido próprio do termo. Disserta com clareza e emoção
sobre os últimos anos de Mário, sobretudo sua fase no Rio. Destaca o
trauma que foi sua demissão do Departamento de Cultura de São Paulo
e outras frustrações no Rio de Janeiro.
Este livro mostra o lado lunar do
solar Mário de Andrade. É o lado Pierrô se contrapondo ao Arlequim
que irrompera em 1922 num desvairismo existencialmente estético. Aí
despontam as crises de melancolia, em cartas terríveis que escreveu
a Rubens Borba de Morais, Henriqueta Lisboa e a Oneyda Alvarenga.
Confessa viver numa “depressão nervosa”, com uma “angústia
pavorosa”, “mania de perseguição”,“insônias terríveis”, acumulando
“desgosto sobre desgosto”. E pensando até em suicídio.
É um outro lado, complementar,
sofridíssimo do tropicalíssimo e dionisíaco Mário. Surge em seus
textos o tema do “fracasso”. Tema que encontro tratado num livro de
uma jovem e talentosa ensaísta — Cristiane Brasileiro Mazocoli Silva
em seu recente “Pequeno grande mundo — Literatura em crise de
autoridade” (Ed.Caetés). Aí ela faz o “elogio da melancolia
marioandradina”, anotando como a palavra “fracasso” aparece em
vários de seus textos. Como o poeta disse no ensaio com o
sintomático título “Elegia de abril”, — “há sempre um qualquer
fracasso a descrever, um amor, uma terra, uma luta social, um ser
que faliu. Um Dom Quixote fracassa, como fracassam Otelo e Madame
Bovary”.
Clarice Lispector diria em seu “A maçã
no escuro”, uns 20 anos depois de Mário, que a vida de um homem é a
história de seu fracasso, fracasso através do qual ele se aproxima
de alguma coisa inalcançável.
Enfim, só os tolos e ingênuos
triunfam. O fracasso de Mário é o princípio de seu êxito. É nesse
sentido que o existencialismo, com Albert Camus, recriaria o mito de
Sísifo — a permanente subida e descida, o rolar constante de uma
pedra montanha acima, pedra que cai e torna a ser empurrada por
outra geração.
E Mário, na autocrítica que fez em “O
movimento modernista”, estimulou os jovens a fazerem a revisão da
modernidade e não a aceitarem passivamente. E é isto que os mais
inquietos devem arriscadamente fazer, sobretudo em relação a essa
pós-modernidade oficial. Ao invés de tecer-lhe lisonjas acadêmicas,
ficar repetindo o catecismo com pastiches, fragmentações e jogos de
falso e verdadeiro, o intelectual e o artista de alto risco devem
questionar essa pantanosa realidade, essa enfermiça ideologia que
cultua a aparência, com o discursinho habilidoso cheio de cacoetes
que podem gerar engenhosas teses, mas não é senão reflexo da
impotência analítica diante da complexidade de sua própria época.
Assim como o fez em 1942 criticando o
modernismo que ajudara a criar, Mário de Andrade hoje faria
impiedosa análise da pós-modernidade ao invés de endossá-la.
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de Andrade
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