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Affonso Romano de Sant`anna


 


A mão esquerda do Poeta


O Povo, Fortaleza, Ceará, Brasil
27 de Maio de 2005

 

Uma das observações poéticas de Vestígios (Rocco) é sobre ''A mão esquerda de Chagall''. Atenta o poema de Affonso Romano de Sant'Anna: ''Dessa mão/ saíam vacas e cabras levitando/ casais aéreos bailando/ soldados sacerdotes camponeses/ músicos planando/ sinagogas se incendiando.// Eis aí seu segredo: com a mão de sete dedos/ ia o mundo sete vezes reinventando''. Pois o lado esquerdo do poeta também cria vitrais com os cacos que ficaram no caminho.

Vestígios celebra os 40 anos de Canto e Palavra, a estréia literária de Affonso Romano. O livro põe o escritor, aos 67 anos, diante do espelho. São poemas que o conduzem pelo tempo (e fazem as pazes com passado e presente), que o colocam em frente à morte, à pequenês do homem, às incoerências e belezas da vida. ''Depois de escolhido o título (e não foi fácil), me dei conta que, num poema antigo, 'Remorso histórico', havia dito que como um criminoso eu voltava sempre 'ao local do crime, deixando ali vestígios e poemas''', sinaliza o autor, em entrevista por e-mail.

Além do livro, o poeta oferece ainda o CD Affonso Romano de Sant'Anna por Affonso Romano de Sant'Anna (Luzes da Cidade). Nas vozes também de Alessandra e Marina Colasanti, Elisa Lucinda, Edla van Steen, Neide Archanjo, Odete Lara e Tônia Carrero, versos como os de ''As utopias'', ''Que país é este?'', ''Assombros'', ''Aprendizado'', ''Aquele menino'', ''Procura antiga'', ''Casamento'', ''Rugas''... ''Assim se passaram 40 anos! E, como tenho uma poesia transparente, praticamente não preciso fazer livro de memórias. Está tudo lá. Nas poesias e nas crônicas'', escreve Affonso, nesta entrevista.

 

O POVO -''Vestígios'' é um nome sugestivo e amplo. Por ele, chega-se à ''impermanência das coisas'' e à conseqüente reflexão sobre as lembranças. O que significam, para o senhor, as poesias reunidas em Vestígios?

Affonso Romano de Sant'Anna -Um dos meus temas recorrentes é a história, a nossa pequenês diante de tantas e poderosas civilizações que deixaram (ou não) ''vestígios''. Seja olhando uma máscara de ouro de Micenas, na Grécia, uma múmia inca no Peru, as ruínas de Pasárgada no Irã, tudo isto me deixa numa perplexidade poética diante do tempo e do espaço. E assim vamos nós, na melhor das hipóteses, deixando alguns ''vestígios''.

OP -O lançamento de Vestígios também sua estréia em versos (com Canto e Palavra, livro de 1965). Esse encontro - maduro, contemplativo e reflexivo - com o tempo, em diversas e duras frentes, foi o que sobrou, 40 anos depois - ''sobrou'' no sentido poético da palavra (''De tudo ficou um pouco...'')?

Affonso -É quase um susto. Assim se passaram 40 anos! E não sei quantas páginas escritas e lidas. Literatura é isso: o residual escrito, quando tudo mais se pulveriza. E o que não foi escrito parece que nem existiu. E, como tenho uma poesia transparente, praticamente não preciso fazer livro de memórias. Está tudo lá. Nas poesias e nas crônicas.

OP -O senhor tem 67 anos. Suas crianças já cresceram... Como está sendo sua descoberta do envelhecer?

Affonso -Uns envelhecem com fel, outros com mel. Minha vida está cada vez mais doce, apesar das amarguras sociais e políticas. E envelhecer não tem nenhum caráter pejorativo, melancólico. Às vezes algumas pessoas se assustam quando lêem um texto meu onde dialogo com a morte, com as rugas minhas e da amada. É como disse num outro poema: ''a morte exige trabalho lento, lento, como quem nasce''.

OP -E suas antigas convicções, o senhor as leva ainda consigo? Os ombros ainda suportam o mundo? Acabo de me lembrar de um dos poemas de Vestígios (''Gerações 1''): ''Ando muito decepcionado com os homens/ e comigo. Com minha geração em especial./ Íamos salvar o mundo/ e falhamos. Alguns ainda tentam (...)''.

Affonso -Minha geração viveu a utopia e o seu avesso. Fomos criados no período juscelinista, quando o País teria um futuro radioso. Naquele tempo, todos que saíam da universidade tinham emprego garantido. Não havia dúvida, o Brasil ia arrasar. De repente, a ditadura, a tortura, o exílio, a perda de tantos amigos e, depois, a democracia e a gente percebendo que a democracia, por si só, não leva à solução dos conflitos estruturais. E o mundo tornou-se mais complexo. A cultura da pós-modernidade é o culto do superficial, da cópia, da imagem, do marketing, da fragmentação, dos falsos valores. Possivelmente outras gerações também se sentiram fracassadas. E é de fracasso em fracasso que se chega ao êxito possível.

OP -Mas o amor, ainda que o matem (e matam), resiste, não é? Quais seus pequenos casos amorosos (com o cotidiano, digo) a essa altura do campeonato?

Affonso -Ah! O amor, sempre o amor! É o que nos resta de mais essencial. E é um aprendizado constante. Pensava, aos 20, que aos 30 conheceria tudo sobre isto e me apaziguaria. É o aprendizado intermináel. Amar e desamar, fazer e refazer. É como a vida. O amor não pode ser uma superestrutura estética acima de todas as coisas. Ele interage com tudo. E é ele que dá sentido, é o cimento visível e invisível que une as pedras do meu edifício existencial. Do amor aos cães, do amor às plantas, às amadas pessoas que dão sentido à minha vida.

OP -Agora, falando um pouco dos seus 40 anos de canto e palavra. O senhor participou dos movimentos de vanguarda dos anos 50, idealizou a EXPOESIA (anos 70) para dar vazão a seus pares, retomou a idéia de uma revista em 1991 (Poesia Sempre) - que levou poetas brasileiros ao exterior. Hoje, por onde a poesia escapa? O senhor concorda que está havendo uma crise tanto no fazer poético quanto na sua circulação?

Affonso -Não há crise alguma com a poesia. Ela está viva, vivíssima sempre que um poeta faz um bom poema e um leitor se emociona com algo que colheu aqui e ali aleatoriamente. É emocionante encontrar leitores que se agarram a um texto seu (crônica-poesia) como uma tábua de salvação e é reconfortante encontrar outros que confessam que outros textos os ajudaram a atravessar os períodos piores de nossa ditadura, que a voz do poeta de ''Que país é este?'' era a expressão da voz de muitos.

OP -Para o senhor, autor consagrado, inclusive, por um dos mais exigentes críticos literários, Wilson Martins (que já chegou a apontá-lo mais que Drummond): é mais fácil publicar e vender seus livros de poesia hoje do que há 40 anos?

Affonso -Cada livro é um enigma. O processo de divulgação se tornou complexo, certos suplementos preferem dar espaço aos livros de ''celebridades'' ou a qualquer estrangeiro de terceiro time, mas a literatura, como dissemos antes, é o que fica, o que sobrevive. E o leitor, com seu faro, acaba chegando ao texto que lhe é necessário.

OP -Nos anos 70, o senhor editava uma página de poesia no Jornal do Brasil. O que aconteceram com as páginas de poesia, de folhetins, de crônicas dos grandes jornais?

Affonso -Foi uma experiência linda. Duas páginas mensais só de poesia, aglutinando gerações várias, de Drummond e Vinicius aos poetas marginais que estavam surgindo. Fui eu quem publicou na imprensa pela primeira vez esses novos poetas dos anos 70. E as páginas do ''Jornal de Poesia'' eram editadas e mandadas para as escolas, conforme o projeto dessa grande figura que é o (jornalista) Alberto Dines. Assim os alunos tinham contato com o jornal e a poesia (que é duradoura). Os jornais poderiam publicar mais poemas nas suas edições normais. As pessoas gostam e precisam disto.

 

 

 

 

 

 

08/11/2007