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Aroldo Ferreira Leão


 

Eu acho (Impactos Azuis)


Eu acho
Que sou
Riacho

Sem água,
Menino
De mágoa

Intensa,
Figura
Sem crença.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rubens, Julgamento de Paris

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão



Tempo (O Espelho dos Labirintos)


Tempo de pouca poesia,
Tempo de angústias,
De sonhos desfeitos,
De silêncios introspectivos,
De conhecimentos mortos,
De necessidades arrasantes,
De dores variadas,
De caminhos inexistentes,
De necessidades corrompidas,
De ocos no espírito,
De saudades doentias,
De vidas sem amor.
 

 
 

 

 

Ticiano, O amor sagrafo e o profano, detalhe

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Neide Archanjo

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão


 

A chuva (O Espelho dos Labirintos)


A chuva cai.
Ai,
Quem vem e vai
Na rua não

Presente meu
Breu
Interno, o véu
Do ato malsão

Que contaminou
Ou
Desarrumou
Minha emoção.


 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Pipelighter

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Iosito Aguiar

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão


 

Não adianta (A Alquimia do Impreciso)


Pra onde correres, não adianta, serás
Só. O pó dos dias únicos transformará
Teus vazios, porá na inquietude tua
As disformes ações aceleradas, cruas.

Tens morrido e nascido sempre como um ás
Menino triste, unido a dor que te achará
Movido no caos das coisas. Algo flutua
Na descrença que te torna sisudas ruas

Desalinhadas nos congestionamentos
Do ser. Perdeste a ti, nada mais sobrou para
Contares a história íntima dos movimentos

Sincopados de tudo que te perturbou
Serenamente. Rostos no ermo são a cara
Do humano cidadão que a si mesmo podou.


 

 

 

Leonardo da Vinci,  Study of hands

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Paulo Franchetti, 2003

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão


 

Constatação (A Alquimia do Impreciso)


Triste é constatar que somos prisioneiros
De nós mesmos, que já não passamos de arteiros
Meninos na incessante busca por verdadeiros
Caminhos a trilhar. Unidos a agoureiros

Instintos anormais queremos as cadências
Sucumbidas nos vícios de quaisquer essências,
Os sobroços insossos das intermitências
Hostis. Fantasmagóricas impaciências

Brilham nos descampados do ser, magnetizam
Tolas necessidades que, plenas, deslizam
Nos abismos. Florais sonhos aromatizam

Expectativas e dores invioláveis,
Retraem os impulsos desses recicláveis
Momentos atrelados a vidas instáveis.


 

 

 

Aurora, William Bouguereau (French, 1825-1905)

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Pedro Salgueiro

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão


 

Uma Coroa do livro Duas Coroas de Caras Íntimas


(I)

Te sufoca a vida, o instante que não
Passa, a tardia dor alicerçada
No nada desses dias sós, em vão.
No teu interior o mundo nada

Em lágrimas, refaz a percepção
Malfadada da vez contaminada
Pelo ocaso das sombras. Na união
Com o impossível sentes a cansada

Sensação disfarçada nos sorrisos
Desgastados por tímidos momentos
Mortos de ações coesas. Tens concisos

Olhares indecisos, sentimentos
Que procuram motivos rarefeitos
Para punirem teus muitos defeitos.


(II)

Para punirem teus muitos defeitos
Cobriram-te de mágoas, preconceitos.
Tornaram-te menino de imperfeitos
Silêncios ajuntados pelos jeitos

Imponderados da vida. Sujeitos
Vazios somos todos nós, conceitos
Podres em corações de ocos defeitos
Eternamente vis, mais que perfeitos.

Óbvias realidades contêm suspeitos
Indícios de segredos maus aceitos
Pela alma num ritmo ávido de estreitos

Degredos solitários. Tensos feitos
Do espírito uniram-te aos eleitos,
Jogaram-te no caos dos ermos leitos.


(III)

Jogaram-te no caos dos ermos leitos
E agora buscas o senso dos frágeis.
Estás na imensidão desses desgostos
Desavisados, na luz dos consolos

Parcos. Morres como os seres afeitos
Às angústias, procuras incontáveis
Movimentos dispersos nesses rostos
Pálidos de degredos. Nos miolos

Das mentes solitárias investigas
As cantigas de algumas percepções
Sofridas, os mormaços dos cansaços

Infinitos. Reténs em ti as intrigas
De ocas futilidades, convicções
Perdidas nos delírios sem inchaços.


(IV)

Perdidas nos delírios sem inchaços
Velhas almas tateiam nos conflitos,
Investigam os medos dos delitos,
Sofrem unidas aos tensos ritos

Da correria do universo. Abraços
Do tempo as tornam simples conseqüências
Polidas nos desgostos, eloqüências
De sentido acabado. Divergências

E segredos as punem, criam nelas
Mesmas os pesadelos dos fantasmas
Intranqüilos, unidos aos miasmas

Dos espíritos vis. Presas às selas
Do silêncio refazem-se dos laços,
Inteiras sobras firmes dos bagaços.


(V)

Inteiras sobras firmes dos bagaços
Guardam o teor dos desejos crassos,
A impaciência ávida de passos
E estradas, a cor dos desembaraços.

Somos a ignorância erma desses traços
Feitos pelos pincéis da dor, amassos
De mãos sujas, canções de ocos compassos.
Em nós habitam cíclicos mormaços

Que nos fundem aos tísicos indícios
Soltos em nossas livres percepções.
Há no universo prantos e alegrias,

Sentimentos unidos por suplícios
Acesos nas ações de concepções
Querem a força das monotonias.


(VI)

Querem a força das monotonias
Esses loucos espíritos confusos
E doídos, completos de desusos.
São passageiros das ruas sozinhas,

Crianças de visão terna, vazias
Esperanças em vão, medos difusos
Que se espalham nos tácitos abusos
Das criaturas cínicas. Nas linhas

Dos destinos estão as ninharias
Dos caminhos dispersos por intrusos
Intuitos comovidos, velhas vias

Mortas pelos tormentos das obnóxias
Intenções divididas em obtusos
Degredos alocados nas essências.


(VII)

Degredos alocados nas essências
Têm uma solidão própria, aparências
Que desunem incertas confluências
De abertas noções tensas. Ausências

Recriam no ser o silêncio tímido
Dos corações perdidos, o polido
Desejo alimentado pelo cálido
Pensamento profético. Sofrido

È o indivíduo perplexo ante as carências
De si mesmo, diante das vivências
Podres que o englobam como dissidências

Do nada. Estamos no olhar dividido
Pelas surpresas mais secas, no lívido
Segredo que dói e a tudo torna árido.


(VIII)

Segredo que dói e a tudo torna árido
Nos redimensiona nos reflexos
Das contingências, traz os desconexos
Apelos dos instantes meio sofridos.

Incertos pensamentos vêm no fétido
Olhar sucumbido em tolos amplexos
Sem braços, nos contínuos sons complexos
Dos ecos bestiais. Sensos paridos

Nas desmotivações geram conceitos
Imperfeitos da vida, rarefeitos
Conhecimentos vindos no renhido

Orvalhar das manhãs contaminadas
Pelas dores das almas sempre aladas,
Constroem a angústia ínvia de um sonho híbrido.


(IX)

Constroem a angústia ínvia de um sonho híbrido
Tuas sensações a respeito dos fatos
Que te deixam triste, hábitos ingratos
Trazendo ao teu espírito coesos

Movimentos sem ritmo, um incontido
Toque de mãos na face desses atos
Solitários, sentidos de contatos
Inexistentes. És os indefesos

Soluços das crianças sem ninguém,
O aperriado modo de encarar
As coisas e seguir no rastejar

Sereno dos intuitos sempre aquém
Dessas expectativas corroídas,
Erguidas no eterno íntimo das dúvidas.


(X)


Erguidas no eterno íntimo das dúvidas,
Há as solidões de nós mesmos, guaridas
Construídas com os livres intentos
Das mentes soltas nos nivelamentos

Dos vazios. Intensas vidas más
Distribuem no tempo incertas pás
De agonias, surpresas, ilusões.
Algo deixou-nos sós, contradições

Arquitetaram velhas fugas, raras
Concepções do infinito. Nossas máscaras
Estão presas ao medo das searas,

Da beleza do risco em atrevidas
Intuições malsãs, despercebidas.
As coisas contêm ânsias poluídas.


(XI)

As coisas contêm ânsias poluídas,
Sentenças que confundem os calados
Olhos abertos às realidades
Bastante impacientes. Compassados

Tormentos desconcentram as inválidas
Canções de notas mortas, tontos fados
Rolados nas estradas das saudades
Sem esperança. Vícios agrupados

Em frágeis percepções, pluralidades
Descuidadas e ternas, criam lados
Soturnos nos espíritos de lidas

Incansáveis. Insossas acuidades
Procuram no ser tons desafinados,
Silêncios sem subidas nem descidas.


(XII)

Silêncios sem subidas nem descidas
Vêm ao meu interior num orquestrado
Movimento moldado no passado
Das auroras proféticas. Cantigas

Desencontradas no mundo são ávidas
Releituras dos ecos que em estado
De dor maior refletem algum brado
Angustiado com essas intrigas

Dissolvidas na alma, únicas de vívidas
Intenções de senões vãos. No apertado
Sorriso dos meninos de fadigas

Contínuas preexistem confundidas
Ações contaminadas pelo agrado
Dos corações plurais das raparigas.


(XIII)

Dos corações plurais das raparigas
O universo suspira de defeitos,
Preconceitos velados por proveitos
Ilimitados, rudes circunstâncias

Alimentando vítimas antigas
Dos desejos reais. Nos insuspeitos
Momentos bons a vida possui peitos
Grandes, bocas gulosas por constâncias

Mais suaves, afetos dissolvidos
Em envolvidos atos destemidos.
O sonho põe no gozo certas ligas

Que unem a eternidade a esses ruídos
Estranhos que penetram fundo, tórridos,
Nas noites cheias da paz das barrigas.


(XIV)

Nas noites cheias da paz das barrigas
Encontramos a essência dos partidos
Sentimentos amargos. Paralíticas
Razões nos reencontram em artríticas

Noções estomacais como formigas
Trabalhando dia-a-dia nos pálidos
Contratempos da vida. Nódoas cítricas
Espalham-se nos sensos das apáticas

Desilusões sombrias, trazem meios
De sermos infelizes, aperreios
Desgarrados como a dor das lombrigas

Sem corpos para estarem. Nos anseios
Das criaturas livres, sem receios,
Tem-se o amor que é amplo, limpo de bexigas.


(XV)

Para punirem teus muitos defeitos,
Jogaram-te no caos dos ermos leitos.
Perdidas nos delírios sem inchaços,
Inteiras sobras firmes dos bagaços

Querem a força das monotonias.
Degredos alocados nas essências,
Segredo que dói e a tudo torna árido,
Constroem a angústia ínvia de um sonho híbrido.

Erguidas no eterno íntimo das dúvidas,
As coisas contêm ânsias poluídas,
Silêncios sem subidas nem descidas.

Dos corações plurais das raparigas,
Nas noites cheias da paz das barrigas,
Tem-se o amor que é amplo, limpo de bexigas.


 

 

 

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Eduardo Diatahy B. de Menezes

 

 

16/05/2005