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Aroldo Ferreira Leão



Escavacou (Sisuda Acidez)


Escavacou abismos,
Abriu-se à realidade,
Morreu de impaciência.

Viveu a insignificância
Dos contratempos,
Buscou-se no que

Sobrou de si mesmo.
Desentendeu-se,
Se foi, serenamente,

Para a terra dos
Esquecidos.
Entregou-se às

Divergências,
Desacelerou-se,
Pensou nas atitudes

Que o reduziram
Às migalhas
De toda solidão.

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão



A morte (Sisuda Acidez)


A morte silenciou-o,
Elevou-o à condição
De menino esquecido
De si mesmo.

Ajustou-o, fundiu-o
Ao silêncio atemporal
Das circunstâncias,
Sucumbiu-o.

A morte trouxe
A perda inconsciente
Dos distúrbios
De sua alma.

Domou-o, moldou-o
Nas efemeridades,
Norteou-o na
Escuridão.

 

 
 

 

 

Ticiano, Magdalena

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Miguel Sanches Neto, 2002

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Venus Presenting  Arms to Aeneas

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão


 

Tudo (A Janela do Sótão)


Tudo muda,
Tudo passa.
Qual a graça?
Deus acuda

Este ser
Dividido
Que perdido,
Sem se ter

Molda o instante
Com a infante
Liberdade

Dos malditos!
Não há méritos
Nos maus ditos.


 

 

 

Rubens_Peter_Paul_Head_and_right_hand_of_a_woman

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Mário Pontes

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão



Algo (A Janela do Sótão)


Algo envereda
Pelo silêncio
De toda queda.
Reconstrói o ócio

Envenenado
Das circunstâncias.
O vesgo enfado
De velhas ânsias

Flutua, tímido,
No sustenido
Tom destemido

Vindo, silente,
Na transcendente
Dor decadente.
 

 
 

 

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

Início desta página

Ivo Barroso, 2003

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão



O tédio (Harmonia Dissonante)


O tédio consumiu-te, isolou-te.
Nada sobrou de ti, mantiveste
No espírito o bailar do cipreste
Solto ao vento sem fim. Norteou-te

A visceral razão que acendeste
Nas entranhas. O sonho apressou-te
Na direção da vida, roubou-te
Da cicatriz que sempre soubeste

Administrar. Eternas surpresas
Burilaram as cores ilesas
Do abandono, cerraram o instante,

Petrificaram o mar agônico
Do desmantelo idoso e antagônico,
Sondaram o eixo do impulso errante.
 

 
 

 

 

Bernini_Bacchanal_A_Faun_Teased_by_Children

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Mauro Mendes

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

Aroldo Ferreira Leão



Poema insano (Harmonia Dissonante)


Polidos modos atrelados
Aos traços vãos, sorrisos fracos
Moldados nos rostos marcados
Pelos silêncios dos macacos.

Pólipos loucos indivíduos
Cansados, tortos, desunidos
Nos movimentos sãos, inócuos.
Típicos brados aguerridos,

Amados medos corriqueiros,
Sensos abertos, mandingueiros.
Suados laços afogados

Nos rios secos, poluídos,
Sujos, imundos, refundidos
Aos soltos córregos dos prados.

 
 

 

 

Franz Xavier Winterhalter, retrato de Roza Potocka

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José Alcides Pinto

 

 

16/05/2005