José Armelim

Augusta

A azáfama é enorme! Corpos de olhar distante, Submersos e deslocados. Um a um, e por rotina, Batem e chocam absortos Na multidão solitária Da rua que se despe, Por detrás de qual biombo, Onde se esconde a ansiedade. Respiram extenuados Gases, venenos fumados, Monóxidas correntes, correntes De toldos, gritos, pregões De gente, de muitas gentes, Numa osmose de ilusões! Cruza, cruza, pára e olha Pára e olha, cruza, cruza, Uma mulher de blusa. Revira, vira, depenica Apalpa fruta, compra alguma Gesticula pára e estuda. Fecha os olhos de cansaço Respira fundo, bem lá dentro Trás fadiga no regaço. Compra carne que está cara, Pára e olha, apressa o passo. Tique tique contrabaixo, Rua acima, rua abaixo. O tempo é pouco e escasso... Corre sempre, gira gira Já são horas de andar, De fazer mais um jantar, P'ra depois ir trabalhar. Mulher vende, mulher compra Vira, vira. Enquanto dura, Sai dinheiro, paga a conta, Volta à rua, pára e olha, Mira a avenida inundada Todinha de lés a lés Onde, por doido vaivém, Não há lugar para os pés... E volta de novo a casa Onde renasce a canseira, Onde floresce a fadiga. Que nisto de trabalhar, É sempre à mesma maneira É sempre sempre a girar. E em constante rodopio, Suor banhando-lhe o rosto, Maria lá se penteia. É sempre desta maneira A vida desta Maria!... E, atrasada p'ró trabalho, Lá vai Maria com pressa Que, dentro do mesmo dia, Um outro dia começa.


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