Audifax Rios

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Audifax Rios


Um traço de Santana do Acaraú

 

In Diário do Nordeste,

Cultura, 3.9.2000

 

 

Sua obra retrata o homem nordestino e o seu entorno de forma tão distinta, que críticos de arte do Sul já confundiram suas pinturas com xilogravuras. O traço traz os contornos das peças de ex-votos, usados para o pagamentos de promessas alcançadas. Além da pintura e do desenho, o artista também batalhou no ramo da publicidade. Hoje Audífax continua em plena produção. Os planos futuros são muitos. Mas de um trabalho ele se orgulha particularmente. As capas de livros que fez para tantos conterrâneos e contemporâneos e que ilustram uma frutífera produção literária cearense.

Diário do Nordeste - Como se deu a sua apresentação às artes?

Audífax -Eu nasci numa casa onde mãe, irmã e irmão, todos mexiam com arte. A minha irmã foi minha primeira professora de educação artística e apesar dos meus colegas de turma reclamarem que eu sempre tirava notas boas, ela viu que eu tinha talento. Em seguida nós já começamos a trabalhar juntos. Ela havia estudado em colégio de freiras e pintava, eu ajudava fazendo as paisagens de fundo, o céu, enquanto ela pintava outras coisas.

Diário do Nordeste - Isto foi na infância e adolescência e seu trabalho profissional como adulto?

Audífax - Eu vim para Fortaleza fazer o curso científico e comecei a trabalhar com cenografia na TV Ceará. Pintava cenários. O ano era 1965 e depois fui trabalhar com publicidade. Quando eu cheguei na TV ainda tinha programação ao vivo. Cenários montados e desmontados todos os dias. Naquela época as novelas por exemplo, passava uma às segundas, quartas e sextas. Terças e quintas era outra. Então sempre havia cenários para montar, desmontar e voltar a montar de novo. Os painéis eram pintados e ficavam prontos, mas no meio da novela era necessário outro e a gente tinha que pintar.

Diário do Nordeste - Era um trabalho pesado?

Audífax - Eu me lembro de uma novela do Ary Sherlock, O Pobrezinho de Assis,que tratava das obras de São Francisco. Às vezes o santo andava tanto que eu tinha que pintar uma igreja de um lugar, depois pintava uma paisagem de outro e assim foi até a chegada do video tape e a programação do Sul. Ainda tínhamos alguma coisa ao vivo aqui, própria resistência da TV. Por sorte naquele ano, o cenógrafo-chefe, Rinauro Moreira, tinha ido embora para a Tupi no Rio de Janeiro, eu assumi o cenário de ‘‘Os deserdados’’ e a obra de Eduardo Campos foi premiada. Foi um prêmio internacional. Era o maior prêmio da Espanha que tinha na época.

Diário do Nordeste - Você trabalhava com cenografia mas também já dava suas pinceladas nas telas?

Audífax - Para mim foi muito bom. Eu não tinha a vivência gráfica até então. E os Diários Associados tinham dois jornais, que eram o Unitário e o Correio do Ceará. Com isso eu comecei a fazer alguma coisa. Quando nós viemos aqui para a Estância (como era chamado na época o bairro Dionísio Torres) ficou mais fácil e eu pude fazer mais coisas nesta área das artes gráficas.

Diário do Nordeste - O que você fazia especificamente nestes jornais?

Audífax - Eu ilustrava e também fazia anúncios. As peças que eram da própria casa, como os anúncios da TV, eram feitos pela própria equipe, que eram Willame Moura, Emanuel Cabral, Hilton Oliveira, Jomar Pereira e eu. Quando começou mesmo o negócio da propaganda aqui, onde é que eles foram buscar, foi nos jornais, na TV. Então eu me engajei mesmo na propaganda e então aprimorei mais o aspecto técnico, gráfico.

Diário do Nordeste - Estas foram fases alternadas em sua formação profissional?

Audífax - Não, eu sempre tive isso de fazer vários trabalhos ao mesmo tempo. As pessoas muitas vezes me perguntavam como é que eu podia fazer tantas coisas de uma só vez. Eu chegava a ter quatro trabalhos fixos, fora os bicos. E dava conta.

Diário do Nordeste - Em 1977 você faz a sua primeira capa de livro. Como isto aconteceu?

Audífax - Foi o próprio ambiente, a gente trabalha com jornal, rádio, televisão e a propaganda. A cultura de uma forma geral. Eu comecei a participar dos suplementos literários como ilustrador, comecei inclusive a pegar espaços para escrever e com isso fui me juntando a essa turma de intelectuais e comecei a fazer as capas dos amigos. Eu peguei uma geração que era muito florescente na época, Roserberg Cariry, Oswald Barroso, Luciano Maia, Dimas Macêdo, Juarez Leitão, José Alcides Pinto.

Diário do Nordeste - José Alcides Pinto é seu conterrâneo?

Audífax - É verdade, José Alcides é de Santana do Acaraú e eu fiz muitas capas para ele. Fiz também muitas outras para o Ciro Colares. Fiz a maioria das capas do Geraldo Fontenele. Todo aquele time do rádio, do jornal e da TV.

Diário do Nordeste - De onde vem a inspiração para o seu trabalho?

Audífax - É do Nordeste mesmo. Muito fiel às minhas origens, você sabe como é. Eu nasci no sertão e a gente vê tudo aquilo. Eu sempre digo que o marco dessa minha coisa de pintura e escultura vem da seca de 1958, que eu vi de perto e eu era nascido em uma família urbana, pai tabelião, mas eu assisti curioso e sentindo aquele drama e passei a botar no papel, tanto desenhando quanto escrevendo. Ao mesmo tempo eu fiquei pesquisando literatura de cordel, manifestações populares e passei a desenhar essencialmente isso, violeiros, cangaceiros, vaqueiros, manifestações folclóricos e ao mesmo tempo assimilando esse traço que eu mantenho até hoje e que tem uma influência da xilogravura popular.

Diário do Nordeste - Muito do seu trabalho parece xilogravura, mas não é?

Audífax - Muitos parecem e não são, mas eu também faço xilogravura. Muita gente se confunde, inclusive entendidos, eu não vou dizer um nome, mas um crítico de arte carioca fez observações sobre uma xilo minha que não era uma xilo, era desenho.

Diário do Nordeste - E qual é a técnica que você mais utiliza?

Audífax - É o nanquim que eu uso essencialmente com papel e para colorir eu uso a aquarela líquida, mas pinto com guache também. Para telas eu uso acrílica.

Diário do Nordeste - Existe uma técnica preferida?

Audífax -Não depende do que eu estiver fazendo na hora, desenhando é uma coisa, pintura é outra. Por exemplo, para fazer pintura eu tenho que estar só. A pintura requer um cuidado maior. a gente não pode largar e atender um telefonema. No trabalho de um desenho eu falo com todo mundo, chego a parar e recomeço sem problema.

Diário do Nordeste - Para fazer esses trabalhos são feitos estudos?

Audífax - Não, eu vou direto no papel. Os estudos eu faço na cabeça, é claro. Eu faço rabiscos para as pinturas, mas esboços é muito difícil. Eu fazia na propaganda porque era obrigado. Tinha que mostrar o lay out para o cliente, mas normalmente não, eu já sei o que quero fazer.

Diário do Nordeste - Você trabalhou na Saga do Guerreiro Alumiosos, filme de Rosemberg Cariry. Como foi essa incursão ao cinema?

Audífax - Eu ajudei no trabalho de cenografia do Walmir, mas eu trabalhei muito mesmo foi para fazer os créditos. Fiz também para o primeiro filme do Cariry, O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto e de um documentário do Jefferson Albuquerque sobre música popular brasileira.

Diário do Nordeste - E com teatro você também ainda está trabalhando?

Audífax - Não, a última coisa que eu fiz em teatro foi Canudos, com o José Dumont, direção do B. de Paiva, texto do Ricardo Guilherme, mas eu tive que me afastar mesmo por causa da propaganda, porque eu me envolvia muito e era uma atividade muito enganosa, eu acabei me afastando.

Diário do Nordeste - E o trabalho com as capas de livros, você gosta?

Audífax - Gosto, talvez seja um dos trabalhos que eu mais gosto. Muitas vezes eu faço ilustrações e a capa é de outro, mas os amigos me pedem e eu faço.

Diário do Nordeste - E como é o método para este trabalho?

Audífax - Normalmente eu leio a obra, vejo se é coerente o meu traço com o assunto, mas aí bate numa coisa, a poesia. Às vezes eu tenho dificuldade de ilustrar poesia, comumente ela é muito íntima, introspectiva e a gente termina dando outra dimensão. No geral um conto é linear e para ilustrar basta seguir o raciocínio. Nas capas não, eu pergunto ao autor o que ele colocaria naquele lugar e eu faço ou não. O autor me dá uma dica, um mote, mas eu desenvolvo de outra maneira, dentro da minha concepção.

Diário do Nordeste - E como está a sua pintura?

Audífax - Esse é meu trabalho mais regular. Eu quero imprimir um catálogo mais condigno, por isso ainda não está definida uma data. O título será Os Ofícios Condenados, que será sobre as profissões que já se extinguiram ou estão por se acabar. Tenho outro projeto que é fazer um grande painel com as lutas libertárias brasileiras, mas ainda é uma idéia na cabeça. Eu não quero atropelar, porque esse é um trabalho que eu quero fazer com muito cuidado.

Diário do Nordeste - E os livros?

Audífax - Eu tenho muita coisa por sair. Tem uns contos que tem um amigo que está fazendo a seleção, mas vão reeditar Já Fez Sua Fezinha Hoje?, que está esgotado. Tem outros mas por enquanto eu não quero mexer nisso não.

Diário do Nordeste - Você acha que a produção literária decaiu?

Audífax - Hoje está se recuperando. Houve um baque muito grande, mas está se recuperando. A gente nota que tem muita coisa aparecendo.

Diário do Nordeste - E o seu próximo projeto?

Audífax - Eu quero fazer uma antologia. É um cadernão que eu quero fazer com imagens num lado da folha e no outro seriam poemas de amigos. Ainda está em fase de pré-produção e eu estou demorando mais porque quero fazer com calma, mas não será só meu, é uma antologia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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