André Ricardo Barreto de Oliveira

Poema a um saco de pão
 
Todos os dias, 
Os homens experimentam e espreitam 
Aquelas inseguranças incondicionais. 
Todos os dias, os homens 
Pensam que desfrutam a vida 
Compram flores e lançam ao lixo 
Os sacos de pão. 
Queimam jornais. 
Escutam discos que jamais ouvirão 
Canções que não ouvirão jamais. 
Todos os dias, os homens acreditam 
E tornam alguns verbos mais intransitivos 
Pela sua carência de objetos. 
Tenacidade. 
Alicerces solidificados. 
E tu, saco de pão, 
Que como a minha alma se esvazia em solidão, 
Que rasga o ar e atira as laranjas pelo chão, 
Que encontra em seu silêncio a pobre forma de expressão, 
Aguarda, companheiro. 
Somos nós os pioneiros, vindos da cova mais funda, 
Pioneiros, como o Fusca, o ODD, o condicionador de ar, 
Os cotonetes da Johnson & Johnson's, 
Somos párias e deuses. 
Somos os últimos heróis da resistência espedaçada, 
Os soldados do exército que atravessa o oceano 
Rumo a um país desconhecido lutar com quem sabe quem. 
Cavaleiros do apocalipse. 
Somos nós que acordamos as crianças do sono, em cada noite, 
Os monstros habitando os túneis do metrô. 
E mais que eu, saco de pão, 
És feliz porque aproveitas a tua solidão, 
Não vives, 
És mudo, livre, tosco, pobre e só.
 
 
 
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