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Ariano Suassuna


 


A redenção de Suassuna 



(Rio, 11 de junho de 2005)

Letícia Lins
 


 

RECIFE. O ano de 2005 está dando ao escritor Ariano Suassuna bons motivos para festejar. Além de celebrar os 50 anos de “Auto da Compadecida”, uma das peças mais populares da dramaturgia brasileira, relançada pela Agir numa edição de luxo revista pelo autor, Suassuna viu aquela que é considerada sua obra-prima, “A Pedra do Reino” (editora José Olympio), voltar às livrarias depois de 20 anos fora de catálogo. Nessa entrevista, o autor — um dos convidados mais esperados da Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece em julho — confessa como somente uma década depois de ter escrito “A Pedra do Reino” descobriu os motivos que o levaram a produzi-lo: a vingança pelo assassinato do pai, quando ele tinha apenas 3 anos de idade. Escrever o livro foi uma forma de buscar a redenção do seu “rei” e inverter o conceito vigente na década de 30 do século passado, segundo o qual as forças rurais que o pai liderava eram o obscurantismo e o urbano é que representava o progresso. Razões familiares, políticas e íntimas à parte, “A Pedra do Reino” é inspirado em um episódio ocorrido no século XIX, no município sertanejo de São José do Belmonte, a 470 quilômetros do Recife. Ali, em 1836, uma seita tentou fazer ressurgir o rei Dom Sebastião, transformado em lenda em Portugal depois de desaparecer na Batalha de Alcácer-Quibir, quando tentava converter mouros em cristãos no Marrocos. Sob o domínio espanhol, os portugueses sonhavam com o retorno do rei que restauraria a nação usurpada. A manifestação de sebastianismo no Brasil está presente não só no livro de Suassuna como é lembrada em Pernambuco durante a Cavalgada da Pedra do Reino, que acontece anualmente no lugar onde inocentes foram sacrificados pela volta do rei. O escritor paraibano, que há muito escolheu Recife como moradia, cita seu novo livro em gestação, no qual espera fundir os três gêneros aos quais se dedica: o romance, o teatro e a poesia, entrelaçados numa espécie de revisão de tudo o que já escreveu. A obra do autor, aliás, já mereceu numerosos estudos em todo o Brasil, o mais recente deles assinado pela antropóloga Maria Aparecida Lopes Nogueira, autora de “Ariano Suassuna, o cabreiro tresmalhado” (editora Palas Athena), no qual ela analisa minuciosamente a tragédia pessoal presente na literatura de Suassuna.

Lançado há quase 30 anos, “A Pedra do Reino” passou duas décadas fora de catálogo. Alguma restrição de sua parte?

ARIANO SUASSUNA: Não, nenhuma. O que houve foi que minha editora, a José Olympio, passou por dificuldades. Então, apesar de o livro estar na época vendendo bem, ficou por mais de 20 anos fora de catálogo. Não houve nenhuma grande revisão do livro, que permanece com a mesma estrutura e algumas pequenas modificações.

O poeta João Cabral de Melo Neto dizia que, na idade madura, jamais escreveria de novo “Morte e vida severina”, afirmando que seu poema mais famoso foi um arroubo de juventude. Hoje o senhor escreveria “A Pedra do Reino” com o mesmo ímpeto?

SUASSUNA: Com certeza. Mantive todo o livro nessa edição. E lhe digo como já disse mais de uma vez: se me dissessem que iam queimar todos os livros e só me dessem o direito de salvar uma obra, salvaria “A Pedra do Reino”.

No sertão de sua infância os descendentes e parentes próximos vingavam com a morte o assassinato de entes queridos. O seu pai foi assassinado por divergências políticas. Escrever “A Pedra do Reino” foi sua melhor vingança?

SUASSUNA: Foi mais do que uma vingança. Foi uma forma de evitar o crime e buscar a redenção.

O senhor teve essa percepção ao escrever o livro ou só depois tomou consciência de que “A Pedra do Reino” foi uma forma de manter viva a imagem, o rosto, a presença do seu pai?

SUASSUNA: Só uma década depois entendi que o que escrevi tinha sido uma busca daquela redenção. E hoje acho que é isso mesmo. Mas não percebi isso quando publiquei o livro em 1971. É a descoberta do rei que nunca morre. O livro é dedicado a meu pai e a mais doze pessoas. É como se ele representasse para mim aquela figura tão importante do tempo em que eu assistia às cavalhadas de menino. Então, meu pai é o imperador a quem o livro é dedicado. E os doze outros são os cavaleiros, os pares dele. Tanto que entre eles encontram-se Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro, José Lins do Rego e até Leandro Gomes de Barros, o maior autor de folhetos de cordel do Nordeste. Por esse motivo, concluí minha dedicatória a João Suassuna, santos, mártires, poetas, profetas e guerreiros do meu mundo mítico do sertão.

Depois de ter o pai assassinado o senhor cresceu ouvindo falar mal dele, que representaria o rural, o atrasado. O urbano é que era o progresso. Seu esforço foi para fazer uma inversão desses valores?

SUASSUNA: Eu realmente sentia muito isso. Essa visão de que as forças rurais que ele liderava eram o atraso, o obscurantismo, o mal. E as outras representavam o bem e o progresso. “A Pedra do Reino” foi uma das armas que usei para reagir contra essa visão estreita.

“A Pedra do Reino” foi encarada como um marco da ficção nordestina depois do ciclo regionalista da década de 30. Apesar de abordar o mundo famélico e mágico do sertão, ele teria uma mensagem universal?

SUASSUNA: Eu o fiz com a intenção de ser universal. Se eu o consegui ou não, é difícil determinar porque só o tempo vai dizer. Mas realmente acredito que o ser humano é o mesmo em todos os lugares e em todos os tempos. Então, se em “A Pedra do Reino” consegui tocar na vida, na história do homem nordestino, estou tocando, também, nos problemas dos homens de todos os lugares do mundo.

 

 

 


 

22/11/2005