Antonio Damásio Rêgo Filho


Ulisses a Teus Pés

Os gritos do mar chicoteando o dorso das pedras desinibem a cardio-cadência da rádio Relógio que te dita a crônica de amanhã e a de depois-de-amanhã, palimpsesto de tua vida. Mastigaremos a crônica de hoje no café de amanhã não sem antes mirar a palidez do ovo sobre a mesa previamente torturado no calor da água viva, indispostos a comê-lo, indigesto, atrasados que estamos para voltar a Terra Prometida ao encalço do patriarca ensandecido, que com o toque do báculo extrairá água fresca da pedra chicoteada pelo sol do deserto em obediência aos ditames de Javé, o inominado Deus de teus ancestrais, Clarice Lispector. Daqui a pouco haverá concerto na rádio MEC, a "Rapsódia com Clarineta e Orquestra de Debussy", muito assemelhada à rapsódia de tua autoria, a não nomeada "Entronização de um Sopro de Vida na Vida de Ângela Pralini", tracejada entre baforadas de cigarro e infinitos goles de café naquela noite em que, tombada de tristeza, resvalaste para um súbito estado de graça e gritaste da janela de teu eremitério: Aleluia! Ulisses virá postar-se a teus pés atento ao ritmo da velha Remington, alheio a Debussy. Ou será agora a Olivetti? Ou será, daqui a pouco, a "Grande Marcha Nupcial de Loengrin de Wagner"? As pilhas gastas do rádio serão substituídas por outras bem guardadas na gaveta do criado-mudo onde se escondem os maços de cigarro e os talões de cheque e os lenços de papel manchados de batom e de provisória escrita. Que alívio não precisar chamar um táxi, sair na chuva para comprar pilhas novas em Bangu. O cigarro na boca desamparado prenuncia o espocar das fagulhas no colchão. Quando o incêndio avermelhar tua visão não tirarás a mão da labareda solitária, tocha iluminando a noite de tua tristeza ancestral, facho a iluminar a via-crucis das histórias sensuais que escreverias com mais volúpia, não tivessem sido encomendadas por telefone, preço e prazo definidos. Só interromperias o trabalho às cinco da madrugada para telefonar a alguém: "Você se permite falar comigo a essa hora da madrugada, você aceita minha amizade?" Ninguém a essa hora ousaria atender-te ninguém a essa hora ousaria distrair-te quando se sabe que, a essa hora, estás cometendo o tremendo ato de viver, encharcada da lucidez perigosa. Não, é muito cedo ainda. A velhinha, qual galho abandonado nalguma encosta da Rio-Petrópolis pode esperar. Não, não vá de táxi acudi-la, deixa-a comendo biscoitos na bruma, quanto a ti, retira a velha Remington do colo, levanta e faça um bom café, empenha-te em escrever de forma mais humilde, desiste de deixar de ser hermética, aceita franciscanamente a tristeza de ser hermética, não recuses o sofrimento de viver com falta de ar e tampouco recuses o convite para o congresso das bruxas em Bogotá. Não, não ria esse riso raro, poderás viajar de avião, sem precisar chegar montada numa vassoura ao aeroporto de Bogotá escondendo nas lentes negras dos óculos o temor das pessoas que poderá encontrar feias, esqueléticas, paramentadas em negras túnicas e chapéus coni-cômicos; elas não serão mais feias e asquerosas que a barata daquela noite agônica. Às cinco da madrugada de hoje, recostada no sofá da sala, Clarice Lispector é monumento nacional tombado em estado de graça. A crônica está pronta, o pão dos filhos garantido, os rins ataviados, na boca o amargor das ervas rituais, antepasto do êxodo, a mala pronta para o hospital. Amanhã cedo, antes de tudo, pegarás um táxi e atravessarás o túnel, entrarás na igreja de Santa Teresinha, aspirarás o cheiro funerário dos círios, velarás por uns instantes a velhinha em seu caixão, semelhando uma menina dormindo. Amanhã, Clarice Lispector se despedirá do medo de morrer e de viver. Ditado o arremate do profano saltério, pronunciará a antífona derradeira - aleluia! - gemido de chicote inconformado com o dever de espancar os nossos sonhos órfãos.


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *