Álvaro Pacheco

Um animal ferido
 
                  
Um animal ferido, a folha branca, a 
decisão do pesadelo. Como uma mulher prestes a gozar 
suspensa na vontade do homem, como um grande jardim iluminado 
pelo céu do terraço, um travo vai na garganta: 
são meia-noite e cinqüenta e cinco - em outro lugar 
será outra hora. É o momento de descansar 

suas pesadas luzes e também 
sua branda escuridão: não se resolve o pesadelo: 
antes disso a emoção vai decompor-se de seus fluidos 
ao microscópio - ou revelar-se num astrolábio. 
Entre as palmeiras e os hibiscos vermelhos 
se abre um caminho - o de uma ida absoluta. 

Um animal ferido pela folha branca. (O absurdo.) 
O jardim coberto pela sua escuridão: 
são agora meia-noite e cinqüenta e cinco 
aqui mesmo onde descansa o céu: sem suas luzes 
o animal ferido. Não há um orgasmo 
que seja um bálsamo último para a alma cansada. 

Em outra parte do mundo repousaria 
no sorriso prometedor de uma adolescente 
a folha branca procurada a vida inteira.

 
Bali, julho de 1984                                                                                                               
                                                                                   

[ ÍNDICE  DO LIVRO ][ ÍNDICE  DO AUTOR ]
 
 
 
 
 Página editada por  Alisson de Castro,  Jornal de Poesia,  05  de  Agosto  de  1998