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Inocêncio de Melo Filho

  Fortaleza, Ceará - Domingo 03 de junho de 2001

  

Uma realidade da palavra 
 

     Alessandro Sales estréia na literatura cearense com o livro "Risco dos Instantes" (2000) com as bênçãos de Adriano Espínola, Teoberto Landim, Francisco Carvalho e Pedro Henrique Saraiva Leão. O leitor se deparará com as palavras destes grandes nomes das letras do Ceará, que poderão orientá-lo. Além disso, ficam estabelecidos princípios de uma fortuna crítica bastante positiva. Além dessas luzes que iluminam "Risco dos Instantes" é a sua poesia que deve se impor, abrir seu próprio caminho e nos ofuscar com sua própria luz.

     A poesia de Alessandro Sales é dona de um grande destino, pois se mostra comprometida com a palavra, com a liberdade de expressão advinda da linguagem nas mais variadas formas. O poeta tem consciência de que a palavra é a matéria do poema, por isso corre todos os riscos sem temer o que há de vir.

     Os grandes autores investem na palavra e na sua expressão de liberdade para se aproximarem dos homens e das suas realidades carentes das forças etéreas. "Risco dos Instantes" se insere neste contexto e nos surpreende.

     O livro do jovem poeta se divide em "risco de vida" e "vida em risco", expressando a unidade da obra e revelando a tenção própria do homem pós-moderno e o encanto da poesia que não deseja ser uma espécie de paliativo, mas uma realização do prazer estético.

     Alessandro Sales é um poeta contemporâneo, não se mostra alienado. Sabe que "os homens mudam em silêncio" e "a dor é a mesma". Por isso ordena: "muda mundo!" Pois acredita "que a fôrma que deforma um dia forma a transformação".

     A consciência social, o inconformismo, o coloquialismo, a transitoriedade, a supervalorização da palavra, o lirismo e o erotismo tornam-se características marcantes e determinantes em "Risco dos Instantes", que podem servir de reconhecimento sólido e referencial de uma poesia nascente, impregnada de recursos visuais, reminiscências salutares do concretismo.

     Não há nenhuma forma de manifestação eólica explícita na poesia de Alessandro Sales, embora o eolismo seja uma das realidades da literatura cearense. Mas isto não a inferioriza, nem a torna incompleta. O excesso de urbanidade talvez justifique a ausência do vento em sua poética.

     No poema "Minha Praia" faz-se presente uma narrativa presa a um discurso direto e indireto, aludindo outra possibilidade textual sem se desmembrar do tecido original constituído pela poesia, rainha primeva de todas as falas. A presença da narrativa na poesia é uma realidade épica, mas há casos que nos fazem conhecer embriões do epicolírico. O poema mencionado pode ser um deles:
 

     Sábado, 4 da tarde.
     Desço do ateliê
     para comprar água.
     Émerson, o porteiro:

     Rapaz, dá um tempo,
     vai pegar uma praia.
 

     Na volta,
     continuo
     a mergulhar
     em sal e sol
     de palavras.
 

     Mal sabe Émerson:
     tenho espuma e maresia
     à flor da pele.
 

     "Risco de Instantes" concentra em suas páginas, poemas que encantam os olhos e a inteligência. Esse livro não padecerá no silêncio da crítica e nem será mais uma obra morta, neste vasto mundo precário de memórias.
 
 

     Inocêncio de Melo Filho

     Professor da UVA 

© COPYRIGHT 1998 Diário do Nordeste.

 
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