Manuel Alegre

O Homem Sentado à Mesa
 
 
Eis o homem sentado à mesa 
Diante da folha branca. 
Um longo, longo caminho, 
Da vida para a palavra. 

Decantação, purificação 
Para chegar ao pássaro. 

O homem que está à mesa 
Atravessou muitos desertos 
Virou do avesso a certeza 
Naufragou nos mares do sul. 

Entre ditongo e ditongo 
Para chegar ao pássaro 
Tu próprio terás de ser 
Cada vez mais substantivo. 

Irás de sílaba em sílaba 
Ferido por sete espadas 
Diante da folha branca 
Serás fome e serás sede 
Como o homem que está à mesa, 

O homem tão despojado 
Que a si mesmo se transforma 
No pássaro que busca a forma. 

Este é tempo do homem 
perdido na multidão 
Como ser desintegrado 
Na folha branca da cidade. 

Tempo do homem sentado 
À mesa da solidão. 

Há palavras como asas, 
outras mais como raízes 

O pássaro voa por dentro 
Do homem sentado à mesa. 
Vai de fonema em fonema 
Sobre as cordas dos sentidos. 
  
Se vires o homem que passa 
Como se fosse no ar 
Já sabes: é o homem que está 
Diante da folha branca. 
  
Às vezes levanta vôo 
Para outro espaço, outro azul 
E deixa dentro das sílabas 
Um rastro como de sul. 
  
Quando recordas, 
Quando a tristeza 
toca demais as cordas do coração 
  
Quando um ritmo começa 
Dentro das palavras, 
  
Um sapateado inconfundível 
(Malagueña, malagueña!) 
E a folha branca é uma Espanha 
Para cantar, para dançar 
Para morrer entre sol e sombra 
Às cinco em sangue... 
  
Então verás chegar 
O homem sentado à mesa 
Às cinco en sombra de la tarde 
Malagueña, Malagueña! 
Diante da folha branca 
Como por terras de Espanha. 
  
Nos descampados deste tempo 
Nos aeroportos auto-estradas 
Nos anúncios sob as pontes 
Talvez no marco geodésico 
  
No fumo do lixo ardendo 
No cheiro do alcatrão 
Nos dejectos de lata e plástico 
Nos jornais amarrotados 
Nas barracas sobre a encosta 
Na estrutura de betão 
Sobre o gasóleo e a tristeza 
Sobre a grande poluição 
Onde nem folha ou erva cresce 
  
Seco, duro, estéril tempo 
Diante da folha branca 
Da solidão suburbana 
Onde a multidão se perde 
Entre tristeza e tristeza 
  
Às vezes um coração: 
Talvez um pássaro verde 
Ou talvez só a canção 
Do homem sentado à mesa 
  
O homem que está à mesa 
Tem qualquer coisa que escapa 
Qualquer coisa que o faz ser 
Ausente quando presente 
  
Às vezes como de mar 
Às vezes como de sul 
  
Um certo modo de olhar 
Como atravessando as coisas 
Um certo jeito de quem 
Está sempre para partir. 
  
O homem sentado à mesa 
Não está sentado: caminha 
Navega por sobre os mares 
Ou por dentro de si mesmo. 
  
Vem de longe para longe 
Do passado para agora 
De agora para amanhã 
Está no avesso da hora! 
  
Solta o pássaro, não pára, 
Tem outro espaço, outro azul 
Às vezes como de mar 
Às vezes como de azul 
  
E não se tem a certeza se está do lado de cá 
Ou se está do outro lado, deste lado onde não está. 
Mesmo se sentado à mesa 
Não é possível detê-lo 
O homem que tem um pássaro 
É sempre um homem que passa. 
  
Tem qualquer coisa que nem se sabe 
O quê nem de quem 
  
É talvez um mais além 
Algo que sobe e que voa 
Entre o Aqui e o Ali 
Algo que não se perdoa 
Ao homem quando ele tem 
Um pássaro dentro de si... 
  
Há um tocador a tocar 
As harpas de cada sílaba 
  
Diante da folha branca 
Tudo é guitarra e surpresa. 
  
Escutai o pássaro e o canto 
Do homem sentado à mesa! 
 

 
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