Archangelus de Guimaraens 

Vendedora de Flores
 
Todos os dias vem-me à lembrança,
Como uma antiga canção de amores,
- Olhos trigueiros, que linda trança! -
Essa inocente e pura criança,
Que então passava vendendo flores...

Essa figura de camponesa
Todos os dias passa por mim;
Lembro-me ainda da singeleza
Dos seus vestidos que, com certeza,
Lhe deram fadas no seu jardim.

Ninguém sabia donde viera,
Corriam lendas misteriosas...
Ela era o anjo da Primavera;
Veio de certo numa galera,
Feita de lírios, feita de rosas...

- "Flores... quem compra flores tão belas?
Foram plantadas com a minha mão.
Tenho-as dobradas, tenho-as singelas,
Rosas mais brancas do que as estrelas,
E outras tão novas, ainda em botão.

Flores de neve das laranjeiras,
Foram criadas pelo luar...
Ai deste ano foram as primeiras!
Belas grinaldas p'ras cabeleiras,
Das raparigas que vão casar.

Rosas tão brancas, tão desmaiadas,
Ontem sorrindo, vi-as nascer...
Ó raparigas que sois amadas,
Nas vossas tranças tão perfumadas
As minhas rosas irão morrer!

Trago violetas, são tão mimosas!
Quanto perfume, que cheiro têm!
P'ra mãos tão brancas como essas rosas,
Eu fui colhê-las misteriosas...
Quem quer violetas? Quem ama alguém?

Ó viúvas tristes, noivas amantes,
Trago-vos flores p'ra vossa dor!
Vossos pesares são tão galantes...
P'ra amores mortos e tão constantes
Tenho a saudade de roxa cor..."

Vendendo flores, essa criança
Vinha de certo do Paraíso...
Que lindos olhos! Que bela trança!
Da flor mais pura guardo a lembrança:
Da flor tão branca do seu sorriso.

 
 
Remetente: Marlene Andrade Martins
 

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Página editada por  Alisson de Castro,  Jornal de Poesia,  02 de dezembro de 1997