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José Eduardo Agualusa




O Brasil é colônia

(in Revista Época, Edição 330 - Set/04)




O escritor angolano José Eduardo Agualusa critica o racismo brasileiro e a incapacidade das elites em entender o país

LUÍS ANTÔNIO GIRON
 

José Eduardo Agualusa virou um escritor em moda no Brasil. O visual de galã de novela e principalmente os romances leves e povoados de aventuras converteram esse angolano de 43 anos (e aparência de 25) em figura popular no meio cultural. O compositor Caetano Veloso foi um dos primeiros a chamar a atenção do público para as idéias de Agualusa sobre a questão negra e o papel que o Brasil ocupa em relação às antigas colônias portuguesas e à velha metrópole, Lisboa: o de síntese entre África e Europa. Em seus livros - cinco romances já foram lançados por aqui -, ele propõe uma conexão entre os três continentes que foge à atenção dos próprios brasileiros. Os personagens em constante movimento refletem a situação do autor, que mora entre Lisboa e Luanda, tem parentes em São Paulo e já viveu no Recife e no Rio de Janeiro, entre 1998 e 2000. Os deslocamentos lhe propiciaram desenvolver um estilo peculiar, que mistura brasileirismos e a gíria urbana de Luanda de forma enxuta e clara.

Escritor profissional e colaborador de jornais em Lisboa e Luanda, Agualusa orgulha-se de se autodenominar afro-luso-brasileiro. Ele não apenas adora o Brasil, como tem no país uma das fontes mais poderosas de suas histórias. Retornou ao Brasil na semana passada, para lançar seu mais recente livro, O Vendedor de Passados (Gryphus, 200 páginas, R$ 32), sobre um especialista em reescrever a biografia dos fregueses na emergente sociedade urbana de Angola. Nesta entrevista a ÉPOCA, Agualusa afirma que o Brasil, apesar de cordial, ainda é um país colonizado e racista, critica a obra do português José Saramago, por considerá-la niilista, e revela o segredo de seu método de escrever.


ÉPOCA - No romance O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio, você faz um retrato aterrador dos morros cariocas, dominados por traficantes de drogas e sob a liderança de um revolucionário angolano. Este personagem afirma que o Brasil ainda não se descolonizou, ao contrário de Angola. Você concorda com ele?

José Eduardo Agualusa - É a minha opinião. O Brasil ainda é um país moldado na escravatura, igual à África. O Brasil tem uma África dentro de si e às vezes não lhe dá atenção. Aqui, como em Angola, por exemplo, existe a figura da babá negra que passa de geração em geração; há o moleque criado como se fosse filho, mas, na verdade, ele trabalha na casa, sem remuneração. Negro e pobre são condições que se confundem no Brasil. Não se criou aqui, como em Angola, uma elite negra. A gente repara nessa desigualdade no dia-a-dia, na relação entre as pessoas, e até mesmo na cultura. Atualmente não dá para citar um grande escritor negro ou mestiço brasileiro. Isso é incrível porque no século XIX havia grandes escritores afro-descendentes, como Machado de Assis e Cruz e Sousa. Pior ainda, não há um único grande autor indígena - algo que acontece em toda a América. Enquanto não enfrentar o problema e não der maior participação aos negros, o Brasil não terá se descolonizado. O Brasil é colônia.

ÉPOCA - Você considera os brasileiros racistas?

Agualusa - Aqui existe o racismo, mas não a paranóia racial, como acontece nos Estados Unidos ou mesmo em Angola. Nesses dois países, sempre pensamos no assunto o tempo todo. Por exemplo, se em Angola organizamos uma antologia de poetas contemporâneos, obrigatoriamente pensamos em quantos negros vão participar. Aqui, não se presta tanta atenção à cor e nem acho que haveria autores negros suficientes para figurar em uma antologia. Gilberto Gil virou ministro da Cultura não porque é negro, mas por ser uma figura importante. Em Angola ou nos Estados Unidos, uma escritora como Clarice Lispector, infelizmente, não seria considerada nacional, mas ucraniana.

ÉPOCA - Por que você é tão fascinado pelo Brasil?

Agualusa - Busco no Brasil aquilo que ele tem de africano. Não me reconheço no Sul, e sim do Rio para cima e nos sertões. A ligação com o país começou com a minha própria família. Meu avô era carioca, e venho para cá regularmente há 15 anos. Sempre ouvi música e li escritores do Brasil. Caetano, Chico Buarque e Rubem Fonseca me fizeram entender o país com maior profundidade. Conheço mais o Brasil do que muitos brasileiros. O povo é alegre e isso se deve muito à influência africana. A África evitou que os brasileiros se contaminassem pela melancolia portuguesa. O Brasil tem um pé na África e o outro na Europa. É a súmula dos dois mundos. Pena que muitos brasileiros não tenham descoberto esse fato. O pior do Brasil são suas elites. Elas desprezam tudo o que é brasileiro e popular.

''O Brasil ainda é um país moldado na escravatura, como a África. Negro e pobre são condições que se confundem no Brasil. Não se criou aqui, como em Angola,
uma elite negra''


ÉPOCA - E o que é genuinamente brasileiro que não se encontra em outros lugares do mundo?

Agualusa - Os brasileiros são um povo nacionalista sem ser xenófobo. As pessoas querem que você vire brasileiro. Às vezes, é como se eu tivesse de esquecer que sou angolano para virar brasileiro. É um país com grande força de integração. O brasileiro gosta de ser brasileiro.

ÉPOCA - Como você vê a situação política do Brasil hoje?

Agualusa - Sei que muita gente se decepcionou com Lula porque ele mudou de discurso. Mas quem chega ao poder precisa mesmo alterar a postura e ignorar as declarações que fez quando estava na oposição. É natural e acontece em todo o mundo. Considero Lula um grande estadista, com enorme prestígio internacional. Ele tem de negociar com as elites e está fazendo um ótimo trabalho. Da mesma forma, Fernando Henrique Cardoso foi um ótimo presidente. Prova disso é que a situação melhorou muito no Brasil nos últimos 15 anos. Quando vou para o interior, noto que o analfabetismo diminuiu e há muita gente culta em lugares que não são Rio ou São Paulo. As ONGs estão fazendo um trabalho extraordinário nas comunidades carentes e a evolução dos brasileiros é visível para alguém que, como eu, acompanha os acontecimentos de fora.

ÉPOCA - Como está o país em termos musicais?

Agualusa - A música popular brasileira é uma fonte inesgotável de surpresas. Quando a gente pensa que ela secou, aparecem novos talentos. Pena que os brasileiros só consumam o pop americano e não ouçam mais a música africana, que está em grande fase. Os brasileiros só conheceram Cesaria Evora depois que ela fez sucesso nos Estados Unidos. Em Lisboa, produzo um programa de rádio de pop africano e percebo uma grande renovação sonora originária da África - e que entra muito lentamente no Brasil. Aos poucos, vemos isso acontecer. Em seu CD mais recente, Fernanda Abreu canta uma música angolana. E acontecem parcerias aqui e ali.

ÉPOCA - Você tem contato com a literatura brasileira?

Agualusa - Há boa movimentação no mercado, como o surgimento de muitos escritores, mas no plano internacional a literatura brasileira ainda não tem a importância da música. O Brasil já produziu grandes escritores, como Guimarães Rosa, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Os dois últimos para mim são africanos e influenciam os autores da África.

ÉPOCA - A literatura de expressão portuguesa vive uma fase boa?

Agualusa - Em Angola, já produzimos melhor música e melhor literatura. A cultura depende sempre da situação econômica. Angola tem jazidas de diamantes e é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Mas vivemos um resquício do antigo regime comunista (1975-1992), durante o qual até as barbearias foram estatizadas e os melhores músicos simplesmente fuzilados. Em Luanda, você encontra ainda ruas com nome de dirigentes comunistas e até hoje funciona o Cine Karl Marx. Por preguiça, as pessoas não querem mudar nem os símbolos nacionais, embora exista uma nova bandeira já definida. Angola foi descolonizada recentemente. Saiu de uma guerra terrível entre comunistas apoiados por Moscou e maoístas financiados pelos Estados Unidos. Nesse sentido, o Brasil tem sorte porque é um dos poucos países do mundo que não passaram por guerras, a não ser a do Paraguai e a de Canudos, que são ridículas perto de grandes confrontos. A gente sente isso no comportamento do povo e na cultura. Aqui existe de fato o homem cordial. Num ambiente como o angolano, onde não há quase editoras, é muito difícil a cultura florescer. No entanto, temos bons escritores em Angola e Moçambique. O moçambicano Mia Couto, para citar um amigo, está fazendo bons livros. Ele declara a influência de Luandino Vieira, que, por sua vez, afirma que se inspirou em Guimarães Rosa para recriar a língua portuguesa a partir da linguagem dos favelados de Luanda.

ÉPOCA - E os autores portugueses?

Agualusa - São todos terrivelmente melancólicos. Não há personagem de autor português que não se suicide no final. Os portugueses parecem alguns autores paulistas atuais, soturnos e pessimistas. E há aqueles que não escondem a nostalgia do império e inventam um herói, sempre português, que percorre a África e a América, em geral povoadas por coadjuvantes sem importância. Ultimamente, porém, tenho lido autores jovens - Francisco José Viegas e Pedro Rosa Mendes - que já conseguem olhar para as antigas colônias com olhos menos colonialistas. O maior escritor lusitano da atualidade chama-se António Lobo Antunes. Ele é difícil em sua linguagem cheia de metáforas, é mesmo exagerado e sombrio, mas, no meio de extensas zonas de sombra, encontram-se golpes luminosos. Só que há poucos portugueses com humor depois de Eça de Queirós.

''Saramago cultiva o niilismo e o pessimismo. Seus livros são contaminados pelo desencanto. É difícil escrever quando se descrê completamente da vida. Ele é vítima da própria descrença. É um velho''

ÉPOCA - Por falar nisso, você não citou o Nobel José Saramago. O que você acha dele?

Agualusa - Ele pode ser um grande escritor. Memorial do Convento é um excelente romance. Mas não gosto dele. Saramago cultiva o niilismo. É um pessimista que não acredita na vida e seus livros são contaminados pelo desencanto. É difícil escrever quando se descrê completamente da vida. Um grande romance deve ser feito com raciocínio, mas também com paixão, as vísceras e o coração. Em seu último livro, Ensaio sobre a Lucidez, Saramago faz a defesa do voto em branco, o que é ridículo, pois ele se candidatou como deputado pelo Partido Comunista. José Saramago é vítima da própria descrença. É um velho.

ÉPOCA - Você se distingue dos autores portugueses e luso-africanos pelo estilo simples. Como você chegou a seu modo de escrever?

Agualusa - O mínimo que devo ao leitor é ser claro e lhe facilitar a vida. Sempre busquei um estilo que fosse acessível a todo o mundo de fala portuguesa. Beneficiei-me de um fato:o vocabulário da juventude portuguesa se africanizou e hoje é contaminado pela gíria angolana. Outro dia eu estava no metrô e vi os jovens brancos falando ''bué'' (''muito'', em gíria de Luanda) e ''cota'' (''velho'', em quimbundo). Está mais fácil se comunicar com eles. Quanto ao Brasil, há muitas palavras em comum com o português angolano, como ''quitandeira'' e ''baderna''. Comecei a escrever aos 20 anos, quando eu cursava Agronomia e Silvicultura (felizmente não concluí nenhum dos cursos). Eu usava as vozes de outros autores, como Eça de Queirós e Jorge Luis Borges. Ganhei voz própria escrevendo, caminhando. Tenho o maior trabalho para dizer coisas complexas da forma mais simples e fazer o texto fluir.

ÉPOCA - Que outros escritores marcaram você?

Agualusa - Rubem Fonseca, Gabriel García Marquez e, claro, Bruce Chatwin.

ÉPOCA - Viajar é sua maior fonte de inspiração?

Agualusa - Sim. Por muitos anos, eu só tive endereço fixo na internet. A rede de computadores facilitou a vida, a gente pode baixar sons e imagens e ter a experiência de uma cultura em um país distante. Em Berlim, em 2001, escrevi O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio. Eu pegava o calão dos morros cariocas pela internet. Mesmo assim, há coisas que são únicas em viagens, como os cheiros, as sensações. Viajar ainda é a melhor maneira de um escritor se inspirar.

ÉPOCA - Por que você escreve?

Agualusa - Para elaborar um romance, é necessário algum planejamento, e tomo muitas notas à mão ao viajar. Ainda assim, quando começo a escrever, no laptop ou no computador, não sei qual será o fim do enredo. Ao longo do livro, sou conduzido pelos personagens. Sou surpreendido da mesma maneira que o leitor. Escrevo porque quero saber o final das histórias


 

 

 

 

25/05/2005