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Adelto Gonçalves




Brasil, Portugal e África

 




Em seu novo livro, Das Mãos do Oleiro, o diplomata, historiador e poeta Alberto da Costa e Silva analisa, numa série de ensaios, a história do mundo lusófono

 

Pensar o Brasil, Portugal e a África de expressão portuguesa — essa é a preocupação que marca Das Mãos do Oleiro: Aproximações, novo livro de Alberto da Costa e Silva, 74 anos, ex-embaixador brasileiro em Lisboa, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras e notável africanista que já nos deu A Enxada e a Lança: A África Antes dos Portugueses, A Manilha e o Libambo: A África e a Escravidão, de 1500 a 1700, Um Rio Chamado Atlântico: A África no Brasil e o Brasil na África e Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos, todos publicados pela Editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro.

Embora o autor tenha incluído um texto de 1970 e outro de 1974, a maioria dos 19 ensaios e prefácios reunidos em Das Mãos do Oleiro foi escrita entre 1999 e 2004, o que forçosamente nos leva a concluir que constitui uma forma de balanço de uma vida dedicada a construir pontes de entendimento entre o Brasil e o mundo. Costa e Silva, que viveu em Portugal (por duas vezes), na Venezuela, nos Estados Unidos, na Espanha, na Itália, na Nigéria, na Colômbia e no Paraguai e viajou extensamente pela África, parece que, na iminência da aposentadoria forçada pelo regulamento, sentiu-se na necessidade de colocar no papel as conclusões que tirou de meio século no ofício.

Engana-se, porém, quem imagina que vai encontrar aqui textos semelhantes aos relatórios burocráticos que abarrotam os arquivos do Itamaraty, embora a Casa sempre tenha abrigado grandes cultores da língua, de romancistas a poetas e ensaístas como se pode constatar no texto “Diplomacia e Cultura”, de 2001, que faz parte de Das Mãos do Oleiro.

Até mesmo num texto que leva todo o jeito de um relatório preparado para atender à solicitação de superiores, “Da Guerra da Tríplice Aliança ao Mercosul: As Relações entre o Brasil e o Paraguai”, de 1995, quando de seu último posto diplomático no exterior, em Assunção, Costa e Silva não deixa de ser poeta nem de colocar em prática um propósito que sempre norteou a sua atividade literária: “A prosa, ainda que de modo distinto, não deve ser menos musical do que o verso”. É por isso que nestes textos ressoa a mesma poesia fina que deixou em Poemas Reunidos e em seu livro de memórias da infância, Espelho do Príncipe.

Em “Notas de um Companheiro de Viagem”, de 1999, recorda de seus tempos de assessor do embaixador Francisco Negrão de Lima em Lisboa, entre 1960 e 1963, quando tinha a incumbência de acompanhar escritores e políticos brasileiros que iam visitar o chefe de governo, o professor António de Oliveira Salazar. “Só dois ou três não vi saírem deslumbrados de São Bento”, recorda, lembrando que ele, como diplomata ainda em começo de carreira, nunca passava da ante-sala. “Fossem o que se chamava de homem de esquerda, de centro ou de direita, deles, na saída e no carro, só escutava, perplexo, palavras de admiração”, diz.

Negrão de Lima, diz Costa e Silva, reconhecia em Salazar não só uma inteligência fora do comum, “mas também as limitações provincianas e a escassez de sonho”, de “quem se contentava com um país pobre e queria a sua gente pequenina”. Dizia Negrão de Lima que o esperto Salazar conquistava o visitante, deputado ou professor, pela vaidade; “falava deles — lera sobre cada qual um dossiê previamente preparado —; pedia suas opiniões; fazia-os sentirem-se importantes”.

É um testemunho que confirma outro que li já não sei onde que dizia que Salazar gostava de quebrar a barreira de opositores, especialmente homens de letras, açulando-lhes a vaidade com a oferta de alguma medalha ou honraria. Já a outros mandava mesmo quebrar-lhes a espinha com pancadas e noites nas prisões ou colocava-lhes a famigerada Pide no encalço.

Costa e Silva recorda também o relacionamento fraterno que Salazar desenvolveu com o antropólogo brasileiro Gilberto Freyre, que tantos enjôos causou entre democratas e esquerdistas brasileiros. Como se sabe, no começo dos anos 50, Freyre recebeu do governo português uma estada de meses na metrópole e nas possessões africanas e asiáticas, quando teve, então, a oportunidade de desenvolver suas idéias sobre as virtudes da miscigenação, embora na África as autoridades coloniais não o tenham deixado demorar o olhar sobre o que mais podia interessá-lo, empanturrando-o com almoços de homenagem e criançada com bandeirolas.

Costa e Silva conclui que ainda bem que Gilberto Freyre aceitou o convite, pois “a indignação, a zanga, os arrufos e os calundus dos seus amigos anti-salazaristas perderam-se no passado”, tendo ficado o livro Aventura e Rotina em que o antropólogo recolheu suas impressões da viagem “ao mundo que o português criou”.

Aparentemente, não fora a política que levara Gilberto Freyre a aceitar o convite, pois o mando sempre foi circunstancial, mas a oportunidade rara de ver com os próprios olhos a confirmação de muitas de suas idéias e teses sobre “as mestiçagens entre os grupos humanos e as trocas, somas e mesclas de culturas que se processavam nas regiões visitadas”, como diz o autor. Provavelmente, fosse, em vez de Salazar, um ditador de esquerda que mandasse em Portugal, Freyre teria aceitado o convite da mesma maneira.

Já em “Brasil, Portugal e África”, de 2000, o autor discute as divergências e mal-entendidos que complicam o diálogo entre os que falam o português e que, até agora, fizeram com que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) não tenha se firmado como organismo de importância internacional.

Aliás, em “A Propósito da Comunidade de Países de Língua Portuguesa”, de 2001, Costa e Silva, depois de observar que, com a CPLP, não se aspira a recosturar o antigo império, defende que os dois parceiros incomparavelmente mais prósperos, Brasil e Portugal, deveriam assumir mais as responsabilidades que têm em relação a angolanos, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses e timorenses.

Nestes textos, o leitor vai encontrar ainda não só um panorama de como atuavam os diplomatas do Império e da Primeira República como um retrospecto das muitas artimanhas que escravos e afrodescendentes utilizavam para dissimular nas festas populares as homenagens que faziam aos reis africanos ou mesmo um inventário de como os brasileiros se viram a si próprios e a seu país ao longo do século XX.

Enfim, o leitor jamais sairá deste livro do mesmo jeito que entrou porque, afinal, estes textos de Costa e Silva têm o dom de suscitar a nossa imaginação, instigando-nos a pensar sobre o passado e o futuro das relações entre aqueles que nasceram em função da presença portuguesa no mundo.
 



Alberto da Costa e Silva
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08/08/2005