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Adelto Gonçalves


 


O rancor das pequenas coisas

em O Primeiro de Janeiro, do Porto (www.oprimeirodejaneiro.pt)



 

Dois em um — assim é o novo livro de Fabrício Carpinejar, 33 anos, filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, uma das vozes mais peculiares e importantes da poesia brasileira contemporânea. Como no Céu e Livro de Visitas são dois trabalhos independentes reunidos num mesmo volume, sem contracapa, de tal maneira que um será lido de trás para a frente, do fim ao início.

Um trata da luz solar, o outro das sombras da noite, mas, como dia e noite, completam-se, pois ambos discutem uma relação a dois, com finais diferentes, numa época em que o ancestral amor de um homem por uma mulher, o único capaz de preservar a espécie, já não parece tão valorizado.

Nas palavras de Carpinejar, esta é uma obra bipolar: de um lado está a vontade de vencer e de acertar; de outro, o medo de perder e errar. “E, afinal, é sobre essa dualidade que se sustenta o desejo”, diz o poeta, que também é um fino crítico de sua própria obra, coisa rara entre poetas.

Na apresentação de Como no céu, Millôr Fernandes diz que Carpinejar não tem vergonha de ser autobiográfico, de fazer poesia com o seu cotidiano. De fato, neste livro, cujo título remete-nos para a tradicional oração católica do Pai Nosso, predomina a delicadeza de quem vê o dia-a-dia com outros olhos, de quem descobre poesia nos mínimos gestos. Diz o poeta no terceiro de seus poemas (todos sem títulos);

Ela escolheu envelhecer comigo.
Pode ter sido compaixão pela
minha falta de jeito,
acaso ou acidente
dos cabelos lisos.

Ela escolheu envelhecer comigo.
Pode ter sido amor,
Simpatia ou alguma
perda fora de mim
que despertou suas perdas.
Pode ter sido a idade que pedia um marido,
sei lá, o marido pedia uma idade.
Ela escolheu e aqui fez sua noite.
Suas mãos se toldam em uma tenda
quando alivia minha barba
de outros odores que não o seu.

 

Mais adiante, em sua reverência à mulher, escreve:

Minha mulher
não é seu nome e uma data
inscritos na aliança.

Minha mulher é o sabão seco
ao redor do anel.
Quando andamos de mãos dadas,
a aliança faz espuma.

 

Uma das características da poesia de Carpinejar é o papel representado pelo inconsciente da vida afetiva, que o leva a procurar esperança em qualquer gesto:

As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua;
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
Mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva
acalma um machucado.

As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.

 

De Livro de Visitas, Manoel da Costa Pinto diz, na apresentação, que Carpinejar adota às vezes um olhar contemplativo que recolhe “as roupas do quarto com a nudez morna, esquecida de seus transtornos”. Mas, por trás desses vestígios cotidianos, diz o crítico, “há sempre um desastre à espreita — que este poeta avesso a convulsões formais enuncia de modo pacífico, com uma discrição que retira de cada momento uma sentença iluminadora”.

Ao contrário de Como no Céu, Livro de Vistas está coberto por sombras, cólera, ressentimentos, egoísmo:

Desapareço das fotos da família.
A família é como o câncer.
Isolam-se os primos.
Os tios brigam pela herança.
Um tronco é sacrificado a cada ano.
As festas não são celebradas juntas.
Agrega-se um sobrenome no casamento
e não adianta, o mal já está espalhado.

 

Na poesia de Carpinejar, o rancor comedido das pequenas coisas perpassa lembranças:

Não fui o primogênito
para ser um segundo pai.
Não fui o caçula
para tomar as dores da mãe.
Sou o filho incerto, do meio
e do canto da mesa.

 

Mais: na poesia de Carpinejar, surpreende-se o sentimento do perdão que não foi obtido, o companheirismo que foi negado, a solidariedade que chegou tarde, o trabalho não reconhecido a tempo, a perda que não é aceita, tudo humanamente pequeno, como se lê neste poema:

Ele viu sua mulher morrendo
e começou a xingá-la no hospital.
Com um dedo em riste,
segurou seu braço como um soro
e disse que havia um gato em casa
precisando de comida
e disse que as janelas estavam abertas
e um ladrão poderia aproveitar o vacilo
e disse que a louça restou empilhada
e disse que a carne descongelava e iria
estragar
e disse que teria jogo com os amigos amanhã
e disse para ela prometer
que da próxima vez que fosse morrer
avisasse com antecedência.

 

Nascido na cidade gaúcha de Caxias, Carpinejar é também jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Vive em São Leopoldo, no interior do Rio Grande do Sul. Foi diversas vezes premiado: Prêmio Nacional Olavo Bilac (2003), Prêmio Nacional Cecília Meireles (2002), Prêmio AGES (2003), Prêmio Nacional Fernando Pessoa (2000), da União Brasileira de Escritores e Prêmio Açorianos (2001 e 2002), entre outros.

Dele, a Bertrand Brasil publicou também As solas do sol (1998) e Cinco Marias (2004) e pretende reeditar Um terno de pássaros ao sul, Terceira sede e Biografia de uma árvore. Carpinejar, que ganhou também o Prêmio Internacional Maestrale/San Marco (2001), da Itália, já foi traduzido para o alemão por Curt Meyer-Clason, conhecido por suas traduções da obra de Guimarães Rosa. E assinou contrato com a Éditions Eulina Carvalho, de Paris, para a edição de Cinco Marias. Participou ainda de antologias no México, Colômbia, Índia e Espanha.

 

COMO NO CÉU/LIVRO DE VISITAS, de Fabrício Carpinejar. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 224 págs., 2005, R$ 29.




* Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br
 



Fabrício Carpinejar, 2002
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21/11/2005