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Adelto Gonçalves




José Ramos Tinhorão

 (in O Estado de São Paulo, 27.05.2000)




O jornalista e pesquisador José Ramos Tinhorão conta, em As Festas no Brasil Colonial, como a cultura do branco e do índio se interpenetraram no Brasil


 

José Ramos Tinhorão é um historiador rigoroso, que ainda sofre o preconceito que provocaram nos anos 70 suas opiniões sobre alguns expoentes da música popular brasileira, especialmente o compositor Antônio Carlos Jobim. Opiniões, diga-se a bem da verdade, sempre bem fundamentadas e nunca respondidas à altura por seus desafetos.
Num país que pouco lê e menos ainda se importa com a sua História, seus últimos livros nem sempre tiveram a repercussão que mereciam, certamente em função do preconceito ainda remanescente em boa parte dos críticos. Mas, se culpa cabe a alguém por isso, não é a Tinhorão, que sempre fez o seu trabalho com extrema competência. A ponto de, hoje, Portugal - que nunca tomou conhecimento de suas polêmicas musicais dos anos 70 - reconhecê-lo, ao contrário do que ocorre no Brasil, como o grande historiador que é.
Com seu novo livro, porém, Tinhorão tem tudo para reverter o panorama. As Festas no Brasil Colonial, escrito em bom estilo jornalístico - ou seja, claro e elegante -, é uma pesquisa aprofundada das manifestações populares em ritos oficiais e religiosos, desde a primeira missa rezada em terras brasileiras até o surgimento do Brasil como nação independente.

De início, leitor atento aos detalhes das informações da época, Tinhorão soube recuperar a famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, já tão citada e estudada, para arrancar as primeiras manifestações de transculturação, neologismo criado pelo sociólogo e antropólogo cubano Fernando Ortiz, em 1940, e que expressa com exatidão as diferentes fases do processo transitivo de uma cultura para outra. E lá foi encontrar o episódio em que o português Diogo Dias, antigo almoxarife de Sacavém, "homem gracioso e de prazer", que, ao ver na outra margem os indígenas dançando, sem se tomarem as mãos, atravessou o rio na companhia de um tocador de gaita galega e organizou de improviso um baile ao ar livre.

Esse encontro entre as duas raças, diz Tinhorão, não expressou a cultura da nova burguesia urbana dos grandes comerciantes de Lisboa sócios do rei D. Manuel na empreitada marítima, mas a velha estrutura tradicional do mundo galaico-português, que, nos dias seguintes, continuou a se refletir nas brincadeiras e danças entre os tripulantes das naus e os naturais da terra, sempre animados pelos sons do mundo rural luso.

Com bases documentais, o autor procurou mostrar que, apesar dos esforços da Coroa, desde os primeiros contatos, para vergar os nativos aos seus costumes, hábitos e, principalmente, à religião católica, a cultura submetida sempre conseguiu escapar pelas brechas do poder monolítico e autoritário do dominador. O que ocorreu também, mais tarde, à chegada de escravos provenientes de diversas nações africanas. Sem contar que fenômeno semelhante também se dava em relação à própria cultura do mundo rural luso, que refletia interesses opostos aos da Coroa e seus áulicos.

Ao longo dos séculos posteriores ao "achamento", o processo transculturador produziu efeitos em ambos os lados. Como exemplo, podemos citar o hábito de fumar que teria sido levado para Portugal por Luís de Góis, um dos companheiros de Martim Afonso de Sousa na expedição que redundou na fundação de São Vicente. Apesar da vigilância do poder de Lisboa e seus prepostos, as festas religiosas não deixaram de absorver a explosão espontânea da cultura subjacente - que se transmitia com a inevitável participação de índios aculturados, mamelucos e cafusos.

Não há dúvida de que a distância servia para arrefecer tradições oriundas do Reino e que, naturalmente, iam sendo substituídas pelos costumes da terra - já agora com a presença do negro. Foi o que constatou ainda o autor ao buscar a origem das atuais escolas de samba, com seus enredos e alegorias, nas antigas manifestações e solenidades religiosas, especialmente o desfile teatral que caracterizava a procissão do Corpo de Deus.

O afrouxamento da autoridade lusa - motivada até como uma forma de se oferecer os anéis para preservar os dedos - refletia-se também na permissão para que os de pele mais escura pudessem organizar algum folguedo particular que, com o passar do tempo, acabava por crescer e ganhar características de acontecimento popular, como as festas de coroação de Reis do Congo na Bahia, inclusive dentro das igrejas.

A pesquisa de Tinhorão mostra que até o atualíssimo costume de apresentações de carros alegóricos nas escolas de samba e blocos carnavalescos tem a sua origem nos desfiles sobre rodas de alegorias barrocas comuns no século 18, que, por sua, vez, retomavam a velha tradição européia dos corsos com enredos montados cenograficamente sobre carroças. Embora não traga à luz fontes que fossem desconhecidas até aqui, o autor soube fazer uma nova leitura de documentos da época já conhecidos, como Triunfo Eucarístico, de Simão Ferreira Machado, de 1733, o Áureo Trono Espiritual, de redator anônimo, de 1748, e o relato das festas que se realizaram em 1786 no Rio de Janeiro, a mando do vice-rei, para comemorar os felizes "desposórios" do príncipe D. João com a princesa espanhola Carlota Joaquina, filha do príncipe das Astúrias, e de D. Gabriel, de Castela, com a princesa lusa Mariana.

Para Tinhorão, em todas essas manifestações de regozijo do poder colonial "o nascente povo citadino" haveria de se infiltrar como participante ativo, deixando de ser apenas espectador. Como se constata também nas Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, que contam as festas realizadas em Vila Rica, desta vez a mando do governador e capitão-general Luís da Cunha Meneses, para comemorar os mesmos "felizes desposórios". De notar é que, em sua versão mineira, a levar-se em conta o que disse Critilo, alter ego do poeta, essas festas teriam alcançado esplendor superior ao das festividades no Reino, à custa, é claro, do dinheiro público.

Fica a frustração de saber que as informações sobre as festas populares no Brasil, desde o setecentos até o fim do período colonial, continuariam a chegar sempre sem som ao conhecimento dos pesquisadores e musicólogos. O que só redobra a necessidade de que sejam desenvolvidas mais pesquisas em fontes primárias, em vez de se repetirem apenas informações que constam de livros impressos, ainda que antigos. E, conhecendo-se o estágio atual das pesquisas e a precariedade dos arquivos e bibliotecas espalhados pelo interior do País - muitos com preciosos fundos de documentos manuscritos -, é de esperar-se que essa lacuna ainda possa ser preenchida com a descoberta de antigas partituras.

Em nome da verdade e do rigor historiográfico, há dois reparos a fazer. O primeiro é quanto à informação que consta da página 72, segundo a qual os papéis do antigo Hospital de Todos os Santos, de Lisboa estão hoje guardados no Arquivo e Biblioteca do Hospital de São José, da mesma cidade. Estiveram.

Desde 1994, foram transferidos para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Outro reparo é para corrigir o que pode ter sido um erro de digitação na data. O desembargador José de Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo não chegou ao Brasil em 1753, mas sim em agosto de 1758, para cumprir determinações dadas pelo Marquês de Pombal contra os jesuítas. Poeta menor, Mascarenhas foi alvo do elogio citado provavelmente porque passara a ser também presidente da Academia Brasílica dos Renascidos, instituição que teve entre os seus sócios correspondentes o poeta mineiro Cláudio Manuel da Costa. Mascarenhas não teria vida longa na Bahia: em 1759 seria preso, a mando da Corte, e desterrado para a Fortaleza de São Francisco, onde hoje está Florianópolis.



O autor, Adelto Gonçalves, jornalista e escritor, é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela USP. Escreveu Gonzaga, um poeta do Iluminismo

 

 

 

 

27/05/2005