Almeida Garrett

O Anjo Caído
 
Era um anjo de Deus 
Que se perdera dos céus 
E terra a terra voava. 
A seta que lhe acertava 
Partira de arco traidor, 
Porque as penas que levava 
Não eram penas de amor. 

O anjo caiu ferido 
E se viu aos pés rendido 
Do tirano caçador. 
De asa morta e sem esplendor 
O triste, peregrinando 
Por estes vales de dor, 
Andou gemendo e chorando. 

Vi-o eu, n anjo dos céus, 
O abandonado de Deus, 
Vi-o, nessa tropelia 
Que o mundo chama alegria, 
Vi-o a taça do prazer 
Pôr ao lábio que tremia 
E só lágrimas beber. 

Ninguém mais na terra o via, 
Era eu só que o conhecia 
Eu que já não posso amar! 
Quem no havia de salvar? 
Eu, que numa sepultura 
Me fora vivo enterrar? 
Loucura! Ai, cega loucura! 

Mas entre os anjos dos céus 
Cantava um anjo ao seu Deus; 
E remi-lo e resgatá-lo, 
Daquela infâmia salvá-lo 
Só força de amor podia. 
Quem desse amor há-de amá-lo, 
Se ninguém o conhecia? 

Eu só, e eu morto, eu descrido, 
Eu tive o arrojo atrevido 
De amar um anjo sem luz. 
Cravei-a eu nessa cruz 
Minha alma que renascia, 
Que toda em sua alma pus, 
E o meu ser se dividia, 

Porque ela outra alma não tinha, 
Outra alma senão a minha... 
Tarde, ai! tarde o conheci, 
Porque eu o meu ser perdi, 
E ele à vida não volveu... 
Mas da morte que eu morri 
Também o infeliz morreu. 
 
 
 

 Remetido por Alfredo José Brites  
[ VOLTAR ][ PÁGINA PRINCIPAL ]
 
 
 Página editada por  Carlos Rosemberg,  Jornal de Poesia,  25 de novembro de 1997