hélio rôla

&

floriano martins

a c e s s o   à s   o b r a s

óleo de trevas

últimas pistas

teatro de sombras

afrescos do inferno

quimeras

as tintas negras do jardim

catálogo secreto

altares do caos

provas finais

retratos falados

erografias    
 

s o b r e   o s   a r t i s t a s

Hélio RôlaNasci Francisco Hélio Rola, em 1936 em Fortaleza, onde ainda vivo com minha esposa Efímia, 4 cães pé-duro (Rocinha, Canela, Trocim e Manchito) e uma gata, a Hortência, que já tem mais de 10 anos. Tenho dois filhos, André e Sylvia e uma neta, a Bárbara, todos vivem no Rio de Janeiro. Cresci filho de uma modesta família na periferia da cidade de Fortaleza. Minha mãe cuidava da casa como todas as mães, enquanto meu pai, garçom, mantinha-se ganhando uma miséria de trocados dos clientes em um atraente bar-restaurante no centro da cidade, chamado Magestic, e que, na época, era ponto de encontro de personalidades importantes da cidade, como políticos, policiais, intelectuais e artistas. Alguns deles, de algum modo, contribuiriam para o meu envolvimento com a arte e com a ciência. Despertei, criança ainda, para o desenho ao grafitar calçadas e muros da vizinhança com troços de carvão – o gás de cozinha da época -, cacos de telha e pedaços de tijolo branco. Assim, fui alfabetizado e introduzido ao desenho e aos trabalhos manuais nessa e por essa vizinhança. Criança ainda, aconselhado por artistas, amigos e clientes de meu pai, freqüentei, por pouco tempo, a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), até o dia em que adotaram aulas com modelo feminino nu… Eu era menor, 9-10 anos. Com uma bolsa de estudos de um político amigo da família estudei em um bom colégio da cidade, conhecido pelo valor de seus professores, onde despertei para as ciências, notadamente a química, que passei a ensinar, além de tomar gosto pela filosofia por conta da excelência das aulas do professor Fernando Maia que também ensinava história. Após o curso médico fiz pós-graduação na USP e desde então me dedico à pesquisa na área biológica. Até então, nada fazia de arte quando em uma missão científica, em Nova York (67-70), por conta da influência de um amigo pintor americano, Joe Tobin e de sua mulher Margaret, escritora, voltei a pintar, desenhar. Nesta ocasião freqüentei, entre 68-69, a Liga do Estudante de Arte de Nova York. Mais tarde, durante outra missão científica, em Paris (79-81), ao lado da ciência, dei seguimento ao meu fazer artístico e acabei realizando uma exposição, “L’artisanat du quotidien”, em um centro cultural da região parisiense, em Meudon La Forêt. Desde então me envolvo com arte e ciência e, ao lado de várias tentativas artísticas, fotografia, pintura, desenho, gravura etc., no momento me dedico a “montar” e enviar para uma expressiva lista de endereços eletrônicos, de uma ampla gama de interesses, que vai da arte à ciência, da política ao trivial, um e-mail - que chamo de rolanet -, que é uma imagem minha, foto, desenho, pintura, gravura etc. junto a um texto reflexivo, seja do neurobiólogo chileno Humberto Maturana ou do filósofo francês Michel Serres, ou de poemas dos poetas amigos Floriano Martins e do mexicano José Ángel Leyva. Às vezes me lanço solo, e digo algo. Para que serve tal arte? Me perguntam. Um amigo me disse que, a partir de sua própria experiência, ela poderia ser vista, lida e pensada como podendo alterar o tom reflexivo e estético do cotidiano daqueles que a recebem… (mas, como?) Haveria arte nisso?

Floriano MartinsAveriguar pistas que nos levem ao nosso próprio passado, à infância, aos abismos familiares, sempre foi algo que me interessou mais no plano poético do que mesmo em termos de anotação cronológica: o mergulho nas zonas obscuras ou pouco visitadas de uma biografia como aventura poética. Ir ao encontro de personagens fundamentais, não somente parentes, que de alguma maneira contribuíram, quase sempre sem que jamais o tenham percebido, para a minha formação. Ao trazer tais figuras para a cena de um livro, por exemplo, onde naturalmente são mescladas com as artimanhas do desejo e as perversões da memória, elas ganham uma vida em grande parte distinta daquilo que realmente foram. Este humor alquímico tem sido um componente substancioso em minha poesia desde o momento em que passo a me situar em cena, ou seja, desde quando percebo a mim mesmo como personagem daquilo que escrevo. De alguma maneira, nos primeiros livros eu não participava da criação senão como um narrador, distanciado. Esta mudança de perspectiva não se deu apenas por efeito de leitura, mas antes por um acidente familiar, o coma que apanhou minha avó materna quando eu estava com pouco mais de 30 anos. Vê-la ali inerte no leito me provocou uma comoção interna, cujas fagulhas naturalmente foram despertando toda a experiência até então adormecida, misturando as tintas do vivido, existencial e intelectualmente. Foi quando perderam o sentido as demarcações entre arte e vida, e também as delimitações de gênero na criação artística. É o momento em que escrevo um livro intitulado Cinzas do Sol (1992), que excita toda uma nova maneira de encarar tanto a criação poética quanto a própria existência. O humor acima referido me levaria a dizer que a arte é fruto de uma avaria, de um desastre. A rigor, é isto mesmo, desde que não pensemos em tais fatos com os olhos de um desses catastrofistas de plantão que percebem os acidentes unicamente pela lente do fracasso. Sendo ininterrupta a existência – a morte não nos leva assim tão fácil como se imagina –, tudo aquilo que se desfaz essencialmente se refaz. Assim é que a cena da avó materna prostrada ao leito refaz em mim todo um cenário múltiplo de figuras com as quais convivi e a memória de alguma maneira havia apagado, e o faz não como uma recordação, mas antes trazendo tais personagens para um tablado de confronto com o presente, atualizando o convívio entre passado e futuro, bagunçando mesmo o coreto da existência. É o que faz a arte em seu sentido mais vertiginoso e essencial: pôr em confronto as coisas. Provocação, estímulo, investida, tudo isto passa a ser ambiente procriador de uma outra linguagem que define a poesia para mim. E tudo isto chama para o palco, para o fundo de cena, porque o convívio humano é mesmo teatral, somos sempre a representação de algo. Dentre as figuras inúmeras que conheci antes do coma de minha avó, destaco aqui a do artista Hélio Rola, pois estive em sua casa algumas vezes ali por volta de meus 17 anos. Ele não era propriamente um guru entre a clandestinidade artística dos anos 70, por mais que a provinciana Fortaleza então se organizasse espiritualmente como uma maquete mágica de Paris, porém sua casa, na Praia de Iracema, bairro underground à beira-mar, era visitada por todo o frenesi da época. Toda essa camarinha de hippies, desocupados, alienados, transeuntes do abismo, já sabemos no que deu: gente frustrada que se filiou ao poder de turno. Uns poucos enlouqueceram de abismo. Uma fatia ainda menor resiste, porém refeita pelo desfazimento de um sonho. E foi exatamente movido por esta confluência acidental que me reencontrei com Hélio Rola 20 anos depois. Enumerar coisas que fizemos, como as viagens ao México, minha curadoria de uma exposição dele, parcerias em revistas e livros, enfim, tudo isto tem aquele sabor bibliográfico que pode ser enumerado em outro momento. Importa essencialmente referir-se à nossa parceria como uma afinidade existencial, este nosso jeito distinto de encarar o mesmo abismo, a aceitação do outro, a maneira como descarnamos a experiência de vida. Somos o outro, o mesmo um do outro. E nos descarnamos a nós mesmos em tudo o que fazemos.