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revista de cultura # 70 |
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Olhar a linguagem: das visões românticas aos modelos sociocognitivos Márcio Xavier Simões
O mundo de operação do pensamento poético é a imaginação e esta consiste, essencialmente, na faculdade de relacionar realidades contrárias ou dessemelhantes. Todas as formas poéticas e figuras de linguagem têm um traço em comum: procuram e, com freqüência, descobrem semelhanças ocultas entre objetos diferentes. Nos casos mais extremos, unem os opostos. Comparações, analogias, metáforas, metonímias e os demais recursos da poesia: todos tendem a produzir imagens nas quais se juntam isto e aquilo, o um e o outro, os muitos e o um. Octavio Paz
Todo pintor visionário é antes de tudo um grande realista. Murilo Mendes
I
Não obstante, a partir da segunda metade do século XX, essa concepção começa a cair por terra tanto dentro da Filosofia da Linguagem como na Linguística. A crítica vai recair sobre um pressuposto básico da visão representacionista: o da separação entre mente e corpo. De fato, dois fatores fundamentais da percepção humana estavam ausentes das teorias clássicas sobre a relação linguagem e realidade: o corpo e a experiência interativa com o mundo. Isso porque uma linguagem lógica, abstrata, matemática, não precisa de nenhuma experiência corporal, mas apenas formal. Ao se conceber uma linguagem sem corpo e sem experiência, a linguagem abstrata e formal da Lógica foi naturalizada, associando-se ao próprio funcionalmente da mente e cognição humanas. Da mesma forma, implicava em outro forte dualismo formal entre interioridade – onde estariam os aspectos mentais e cognitivos – e exterioridade, na qual se localizavam, de forma isolada e estanque, os aspectos sociais e culturais. As mais recentes correntes de estudos linguísticos, cognitivos e filosóficos, por sua vez, têm adotado uma ideia de cognição e linguagem como fenômenos fundamentalmente corporificados, na qual mente e corpo não estão separados. Para tais teorias, a cognição e a linguagem se situam e se constituem a partir da experiência corporal e sociocultural, de onde emergem as categorias conceituais e linguísticas. Contrariam, assim, o pressuposto aristotélico de que as categorias deveriam ser buscadas na estrutura do próprio real. Nesta abordagem, cognição e linguagem, cultura e realidade social são compreendidas como aspectos imbricados, em permanente relação de interatividade nos processos humanos de construção de sentido e ordenação da realidade. Também não se sustenta, desse modo, o dualismo interioridade/exterioridade das ciências cognitivas clássicas. A partir desta perspectiva, a estrutura da linguagem passa a ser encarada como reflexo de processos gerais de pensamento que os indivíduos elaboram ao criarem significados, adaptando-os a diferentes situações de interação com outros indivíduos. A linguagem passa então a ser tratada como um conjunto complexo de atividades comunicativas, sociais e cognitivas integradas com o resto da psicologia humana.
As novas teorias sobre a linguagem, portanto, afirmam que a função primeira desta é constituir, dar elaboração e sentido às coisas, organizar as diferentes experiências, tendo antes um valor mais constitutivo/criativo do que representativo. A partir daí, temos uma concepção de realidade emergindo da interação do organismo humano com os dados e fatos físicos do mundo. Ao invés de uma realidade pronta, acabada, lá fora, nos deparamos com uma imensidão de percepções físicas de realidades que se encontram continuamente em interação e mutação, e que se configuram a partir de nós, na medida em que organizamos – social e intersubjetivamente – a nossa relação com aquilo com que nos deparamos. Dentre outras coisas, a linguagem é a nossa maneira de deter a velocidade do mundo, de estender o tempo de duração das coisas e eventos para que possamos apreendê-los, imputando-lhes sentido, coerência e continuidade. Outra consequência importante desta concepção dinâmica de real é a noção de que não temos acesso às coisas tal como elas são, mas acessamos apenas a maneira como elas nos parecem ser. Desse modo, podemos afirmar que não apenas fatores biológicos, mas igualmente culturais, são determinantes da maneira como percebemos e agimos no mundo. E na cultural a linguagem é o veículo por excelência. Através dela apreendemos, acessamos e transformamos nosso entorno. Se é verdade que nenhum símbolo é “o” real em si mesmo, acessamos diferentes níveis da realidade através deles. E pela linguagem se vai ao mundo. Em entrevista concedida à Revista Virtual de Estudos da Linguagem, em agosto de 2003, a linguista Ingedore Villaça Koch afirma que Os textos, como forma de cognição social, permitem ao homem organizar cognitivamente o mundo. E é em razão dessa capacidade que são também excelentes meios de intercomunicação, bem como de produção, preservação e transmissão do saber. Determinados aspectos de nossa realidade social só são criados por meio da representação dessa realidade e só assim adquirem validade e relevância social, de tal modo que os textos não apenas tornam o conhecimento visível, mas, na realidade, sociocognitivamente existente. A revolução e a evolução do conhecimento necessitam e exigem, permanentemente, formas de representação notoriamente novas e eficientes. A linguagem do dia a dia passa a ser então compreendida como a maquinaria do próprio pensamento e a única forma pela qual acessamos o nosso entorno sociocultural.
II A linguagem não é somente um processo de representação, de que se podem servir os discursos demonstrativos e conceituais, mas ainda uma prática imaginativa que não se dá em um universo fechado e estrito, mas permite passar, no pensamento e no tempo, a diferentes universos mais amplos, atuais, possíveis, imaginários. C. Franchi
Se é a partir do início do século XX, com os trabalhos do segundo Wittgenstein, a Teorias dos Atos de Fala de Austin, a pragmática, e, posteriormente, com a Linguística Sociocognitiva da década de 70 em diante, especialmente, que o modelo referencial da linguagem vai ser definitivamente abandonado e reelaborado, podemos, no entanto, localizar a origem dessa critica à visão representacionista nos pensadores e poetas da tradição romântica. Já no século XVIII, artistas e filósofos como Novalis e seu círculo de Jena, William Blake, entre outros, davam provas em seu trabalho de que a natureza da linguagem e da mente humanas não era nem lógica nem referencial, mas analógica, simultânea e metafórica. De fato, O modus operandi da metáfora parece sugerir um tipo diferente de pensamento, que podemos denominar analógico, por oposição ao lógico.
Assim, para o poeta romântico não importa “representar” o real, uma vez que esse não é algo anterior à ação e ao olhar do observador. Mais interessante, portanto, que re-apresentar algo estabelecido, é desarticular velhos modelos e esquemas cognitivo-experienciais, inaugurar outros, propor novos olhares para antigos objetos, elaborar novas formas de sentir e perceber. É justamente neste ponto que podemos aproximar a visão de linguagem dos românticos com a oriunda das correntes atuais da Linguística e da Fisolofia da Linguagem. Parece nascer com eles, no início de nossa Idade Moderna, o questionamento contemporâneo da natureza do real, das categorias aristotélicas, do absolutismo da Lógica. Também há aproximação entre a visão contemporânea de linguagem e aquela de poesia como processo dinâmico e em perpétua negociação, permanentemente em fluxo e sempre parcial, situado e circunscrito, justificando sempre a criação verbal segundo cada tempo e espaço. É partindo desse ponto que algumas das mais fundas consequências das crenças românticas serão a valorização do jogo com o imaginário, do inconsciente coletivo e da imaginação criadora. Empenhado em caracterizar William Blake como poeta “ultra-romântico”, o crítico Claudio Willer, em sua tese Um Obscuro Encanto, utiliza como argumento justamente a “defesa da liberdade de criação e da originalidade; e, principalmente, da imaginação como faculdade criadora, de modo semelhante a Coleridge ou Baudelaire” (p. 166), por parte do poeta inglês. E mais à frente, acrescenta, com o mesmo intuito, que Blake foi “defensor do primado romântico da imaginação e, por isso, da experiência visionária como fonte de um conhecimento superior àquele transmitido através dos sentidos e demonstrado pela razão” (p. 169). É também na esteira de concepções como essa que ocorre o desmantelamento do figurativismo na pintura, efetuado, por exemplo, por Van Gogh e Gauguin, abdicando da perspectiva e técnica clássicas para pesquisar uma arte que lhes permitisse expressar não o mundo como estávamos socialmente condicionados a vê-lo, mas como este reverberava na interior de cada um deles, explorando novas possibilidades de apreensão e expressão.
Importa destacar aqui que, desde o seu surgimento, a visão dos românticos foi dissidente e marginal com relação às concepções racionais, centrais no Ocidente. Embora ambas as correntes fossem muito mais próximas e difíceis de separar em seu início, as racionais sempre foram privilegiadas em nossa sociedade. Sempre estranhas à noção de língua como representação e espelhamento de um real fixo e imutável, do qual apenas recolheríamos os recortes sonoros e conceituais certos para representá-lo, as concepções românticas aproximam-se muito mais de visões de mundo xamanísticas, mágicas e mítico-religiosas, em paralelos que podem ser estendidos a filosofias e culturas do Oriente. Com sua ênfase na imaginação e na capacidade criadora da linguagem, estiveram desde o princípio em hostilidade com relação às concepções do racionalismo cartesiano, da lógica referencial e seus sucedâneos. Como vimos, as coordenadas de seu mundo são aquelas do sistema mitopoético. Sua universalidade: o pensamento analógico.
III Queremos, a partir daqui, encerrar este texto com uma breve discussão do que queremos dizer mais exatamente com as palavras românticos e romantismo. Como se pode perceber, não utilizamos a palavra Romantismo para nos referir a um período histórico ou literário, mas para fazer referência a um conjunto de ideias e crenças que emergiram em vários pontos do Ocidente culto ao longo pelo menos dos últimos três ou quatro séculos, e que podemos remontar ao romantismo alemão dos século XVIII. São características comuns dessa corrente de pensamento o desacordo frente à visão de sociedade, realidade e homem oriunda da Idade Moderna e sua civilização industrial; a valorização da imaginação e do inconsciente na literatura; uma orientação mitopoética e um pensamento que podemos chamar de analógico para definir a forma de suas operações e contrastá-lo com o pensamento lógico. Chamamos românticos aos pensadores, artistas e escritores que, dentro de suas próprias perspectivas e interpretações, de maneira mais ou menos acentuada, reivindicaram como suas compreensões que fundamentam essas características, de maneira livre e heterodoxa.
Escrevendo nos anos 80, o teórico do anarquismo ontológico e terrorismo poético, Hakin Bey, defendia no seu livro Caos que os poetas deveriam “começar a contemplar uma arte que recrie o objetivo do feiticeiro: mudar a estrutura da realidade pela manipulação dos símbolos vivos” (p. LV). Mas não seria continuar? Não foi justamente esta a mais cara ambição de românticos, simbolistas, surrealistas e demais escritores que os sucederam, discutiram ou lhe deram, a seu modo, seguimento em trabalhos e produções individuais? Num momento em que as atuais concepções de linguagem defendem que o emprego primeiro desta é o de organizar, constituir e estruturar a realidade – propondo uma promissora síntese entre mente e corpo, racionalismo e empirismo, ciências naturais e cognição situada – tal ideal romântico não parece de todo absurdo, mas aparece, sobremodo, uma vez mais sugestivo e instigante. |
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Márcio Xavier Simões (Brasil, 1979). Poeta e tradutor. Publicou O Pastoreio do Boi (2008). Contato: mxsimoes@hotmail.com. Página ilustrada com obras da artista Aline Daka (Brasil). |
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