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A revista Confraria e os (des)caminhos das pedras

Aderaldo Luciano dos Santos

 

0.

Passado já o terceiro aniversário da Revista Confraria e já tendo observado com tato e visão a excelência de seu número impresso, lançado em novembro de 2007, posso adiantar algum comentário sobre a roda na qual giramos juntos os que acreditam na literatura, na arte e na filosofia como janelas para a felicidade. Serei um tanto pessoal e escreverei na primeira pessoa, resistência em tempos de pulverização do sujeito. Clamor. Caminhemos, pois.

Quando de meu profundo desengano ante o caminho dos estudos literários, já exauridos, encontrei três breves bálsamos, loções de algum ânimo, fagulhas de remota esperança. Foram os acenos para o meu reencontro, na encruzilhada central, com tênues luzes no horizonte. O professor Eduardo Portella nos seus cursos sobre a baixa modernidade (ele, um dos últimos cabedais da decência intelectual); a escritora Helena Parente Cunha com um paiol de atitudes benevolentes (grávida de compreensão e de paciência); e a Revista Confraria (bastião da arte e da literatura, como anuncia seu sub-título, em logos e praxis): eles, como As Três Marias, o Cinturão de Órion, na noite protuberante dos meus tempestuosos e encolerados céus e mares. Os dois primeiros encontros possibilitaram-me, agora, escrever sobre o terceiro, neste texto breve, de breve existência e competência mais que breve.

Alertando-os para o ponto “Z” de meu encontro com a Confraria, ficará mais fácil direcioná-los para os conseqüentes encontros proporcionados pelo corpo da revista. E, acredito, poder estender isso aos seus milhares de leitores, amigos e entusiastas. Inicio com Budd Schulberg. O seu olhar aguçado, sobretudo em As Quatro Estações do Sucesso, foi uma daquelas luzes citadas acima. Seduziu-me a primeira frase de sua introdução, quando aponta:

Nos séculos que nos precederam e mesmo no início do século XX, o conhecimento mútuo dos escritores era um padrão de valor na carreira literária. Havia círculos como o dos Lamb, ao redor do qual gravitavam os autores reconhecidos da época. Carlyle, Coleridge, De Quincey e outras celebridades, para tagarelar, fazer queixas ou trocar idéias com Charles e Mary nas suas Tardes de Sexta-feira.

Cá entre nós, a Livraria José Olympio programou versões para esses encontros. O Sabadoyle assegurou outra versão. O chá dos imortais, às quintas-feiras, na ABL, assegura-nos um eco. E a Confraria nasceu da observação dessa lacuna: um espaço para a confraternização. Nos últimos três anos foi o propósito de Márcio-André e Victor Paes, os remanescentes tenazes daquele intento. De reuniões informais à revista eletrônica, daí à editora e à revista em papel, consolidaram-se os espaços: geográfico, virtual e impresso. E eu, naquela busca solitária, encontrei-me arrastado espaços a dentro.

 

1.

A Confraria cumpriu-se em mim, suprindo-me a busca da felicidade intelectual (a diversidade de ensaios em confronto, poetas de outras terras, artistas plásticos ousados, música abstrata ou melódica: ou seja um elaborado riso de Minotauro na delicada feição de Ariadne); o conhecimento de minhas doenças espirituais (claro, e por que não?, a inveja de não poder criar tão urdida colméia, rede firme de losangos mínimos e de alças longas e punhos armados); a possibilidade de viajar aos centros da Terra (da Austrália à Amazônia, um buraco de minhoca conduziu-me e em Cabo Verde sentei pernas para que te quero); a consciência da responsabilidade planetária e o respeito às diferenças (a Confraria é ecológica e ética: respeita o verde mas não se distancia do vermelho) . Esses fizeram-se em meus óleos de Lorenzo. Assim: estava eu a buscar a felicidade, desesperadamente.

André Comte-Sponville cita-nos Pascal quando diz que todos os homens buscam a felicidade, até mesmo aquele que vai se enforcar. Pois bem, na aridez do meu suicídio diário, de minhas investidas contra as facas e os canhões, acreditando esperançosamente, na superação de todos os obstáculos, incluía-me nessa nação de homens ávidos rumo ao riso perene no lábio, à paz duradoura na mente, à mansidão do mais profundo lago espiritual. Não preciso (ou preciso) dizer quais eram esses obstáculos. Nós que lidamos com a palavra, e com ela mesma na sala de aula e ainda com ela impressa, conhecemos as tenebrosas procelas circundantes: são panelinhas e panelões e paneladas; são faculdades e donos e chefes incompetentes e loucos; e política e politicagem e preconceito e perseguição política. Esse o mapa. Para onde nos viramos, ali estão. Aqui abundam. Andava nessa escuridão. Na Confraria encontrei meus iguais. Descobri que, da maneira como se propunha, repousava nela a possibilidade do espraiamento e da experimentação. E quem anda (vendo com os pés?) nos solos virtuais da revista on-line perceberá. Agradável aos olhos e à mente. Ora, minha tensão aliada à tensão daqueles que a pensaram e à tensão dos que a construíram no primeiro número era a visão do desespero, por isso mesmo digna e lícita e verdadeira. Perguntou-se à época, em editorial: Qual obra não se cria sem tensão, sem desespero? Eu estava em casa. Naquele dia, confrontando Sponville e Confraria pude calar meu coração: entrei em meu quarto escuro, abracei o meu vazio e consumei meu instante de felicidade intelectual.

 

2.

Alguém poderia perguntar quais doenças ou qual doença nos fazia tão desesperados e tão feridos e tristes. No meu caso: a solidão, o deserto de Gobi. Algum tempo depois percebi, nas páginas da revista, a existência de um caminho para enviar textos. Eu não seria o último, nem o único, como se costuma dizer, a tentar. Minha solidão causava medo. Fui alertado que seria incinerada qualquer pretensa linha escrita que enviasse aos editores. Calei-me. A felicidade era curtir a revista, não escrevê-la. Mas, eis novamente o desespero. E, como Gide, eu queria morrer totalmente desesperado. E, como Spinoza, temia o desespero, esperava com temor e temia com esperança. Foi isso o que a Confraria fez comigo. Um monstro de escuridão e rutilância, o Homem-Elefante recitando Shakespeare no Olimpia. Comte-Sponville:

Que caminho? O da desilusão, da lucidez, do conhecimento, o caminho que deve “nos tornar menos dependentes da esperança e nos libertar do temor”. Que idéia? A da beatitude: a felicidade de quem não tem mais nada a esperar. Porque está perdido? Não, poruqe não tem mais nada a perder, porque está salvo, salvo aqui e agora. Nesta vida. Neste Mundo.

 

3.

O filósofo romeno Constantin Noica foi quem enquadrou-me quando apresentou-me as seis doenças do espírito contemporâneo. Não vou deter-me sobre elas, mas naquela em cujas abas espreguicei-me. O meu sofrer começou nos tempos de graduação quando a revista Cult começou a aparecer nas bancas de jornais da Paraíba, cemitério onde eu cavava minha sepultura todos os dias. Aquela revista parecia-me de uma superficialidade estéril, era de látex, não havia tônus sob sua pele intransigente. Folheava, folheava e pensava em Augusto dos Anjos sussurrando: “Parece muito doce aquela cana... ilusão treda...” Aquela necessidade de ver a árvore verdadeira, suas folhas de verdade e frutos e fibras, doía-me como se atingido por uma panela de ferro marciano. Noica diagnosticou-me: todetite. É a doença-resultado fruto da carência da coisa verdadeira. Assegurou-me ainda a igualdade entre literatura e vida. Sem literatura não há vida e a vida é ávida (vivo a repetir esse bordão). Mas eu sofria.

Acontecia o sepultamento do mundo romântico no qual fui criado, filho da ilustração. Como o caixão fantástico de Augusto: “Célere ia o caixão e nele inclusas/Cinzas, caixas cranianas, cartilagens...” Minhas certezas derramaram-se. Repetindo o sempre terno professor Portella: perdi o paraíso com Milton, as ilusões com Balzac, as certeza com Galbraight. Aumentei a lista por conta própria: perdi tempo com Proust e o mundo com Conan Doyle. Mas a Confraria estava ali: depósito ruminante do mundo deglutido, suas dores no espírito e suas fendas literárias e sociais.

 

4.

Naquele momento a leitura confrariana era minha viagem aos centros da terra, como Vintila Horia apregoava. Dizia ele em nota preliminar ao seu achocolatado livro: “A viagem que vou empreender implica, evidentemente, uma deslocação no espaço; não ao centro da Terra, mas aos centros espirituais.” Os romenos entendem disso como os gregos de tragédia. Esse livro de Horia é uma séria de entrevistas com personalidades das artes, das ciências, das filosofias. Contempla a dialética mais profunda. Não há uma opinião, mas, como diz o título, um deslocamento entre diversas e adversas paisagens. A Confraria dissipou-se em meus olhos como essa nuvem, constelação e sistema solar. Quem ousar conferir os seus dezoito números internéticos constatará a viagem. E não só. Compreenderá o tear e a rede ao mar: a manufatura e a pesca artesanal: os peixes mais estranhos, as algas ao longe do cemitério de navios. É pretensão? Não! É tensão construtiva.

Um dia, quando descobri Urs Von Balthasar, urdi uma teoria (outra pretensão?) cuja hipótese era: há duas coisas que não param nunca, o tempo e a vida. Matem-se o tempo e a vida e continuarão mais acelerados. No ensaio de Balthasar encontrei eco, ou eu era o eco:

O fim do homem, o fim da humanidade e do mundo, isto é, a sua meta, é simultaneamente o problema do seu sentido. Se a história tem um fim, esse fim é precisamente uma conjunção no além com as realidades últimas. É esse sentido último o único capaz de dar sentido autêntico a todas as realidades parciais que são objetos das ciências exatas, a não ser que se negue, pura e simplesmente, a existência dessas realidades últimas — existência post mortem, juízo de Deus, eternidade feliz ou desgraçada — e se intente resolver o problema do sentido da vida adentro dos limites da existência finita e temporal, prescindindo de saber se existe ou não um além. Uma coisa é certa: em qualquer dos casos, a vida terrena há-de viver-se como tendo sentido.”

Comecei aí a tentar olhar, em diálogo com a Confraria, esse mundo sem sentido sob a perspectiva do encontro do sentido também perdido. É luta árdua, todavia a cada número da revista recebo lufadas de vento e ânimo para continuar buscando e acreditando na busca. Não quero que acreditem na Confraria como uma revista de auto-ajuda. Outro dia li Leo Jaime afirmar que a saída para a sua depressão profunda foi o encontro com a literatura. A minha foi a Confraria.

 

5.

Por fim, o meu testemunho, experiência do encontro breve com a Revista Confraria, quer ser apenas um convite para quem nos lê: viver de olhos abertos e ler de olhos bem fechados. O intuito dessa página é compartilhar a alegria do encontro, a confraternização, que não só a Confraria oferece, entre os mundos particulares, individuais. Precisamos de homens que se regozijem juntos, que celebrem sobretudo suas diferenças (as semelhanças já são cultuadas). Por isso fecho com Nietzsche:

A serpente que nos pica acredita que nos causa dano e se regozija com isso: o animal mais baixo pode imaginar a dor de outrem. Imaginar, porém, a alegria de outrem e regozijar-se com isso, esse é o maior privilégio dos animais superiores e, entre estes, só os exemplares de elite são acessíveis a isso — é um humanum raro, a tal ponto que houve filósofos que negaram a alegria compartilhada.

 

6.

André COMTE-SPONVILLE. A felicidade, desesperadamente. São Paulo. Martins Fontes. 2005.

Budd SCHULBERG. As quatro estações do sucesso. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro. 1974.

Constantin NOICA. As seis doenças do espírito contemporâneo. Rio de Janeiro. Record. 1999.

F. W. NIETZSCHE. Miscelânea de opiniões e sentenças. São Paulo. Escala. 2007.

Revista CONFRARIA. www.revistaconfraria.com.

Vintila HORIA. Viagem aos centros da terra. Lisboa. Verbo. 1972.

Zugmunt BAUMAN. Ética pós-moderna. São Paulo. Paulus. 2003. 


Aderaldo Luciano dos Santos (Brasil, 1964). Pesquisador da UFRJ, doutorando em Ciência da Literatura, poeta, músico. Contato: luizcangaceiro@gmail.com.

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