revista de cultura # 60
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2007






 

Arte da escrita, como concepção poética (ou ficcional) do mundo, e o leitor como escritor potencial

José Carlos A. Brito

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José Carlos A. BritoO escritor em potencial

O leitor de uma obra, tanto em prosa como em poesia, é um escritor em potencial, ao possuir essas características inerentes ao ser humano, isto é, um inconsciente coletivo, que no pensamento de Jung significa: “…as imagens primordiais, isto é, as idéias coletivas inconscientes e os impulsos vitais (vida e pensamento mítico)”. Para Jung esse inconsciente coletivo compõe-se de “…percepções, pensamentos e sentimentos subliminais que não são reprimidos devido à sua incompatibilidade pessoal, mas que devido à intensidade insuficiente do seu estímulo, ou falta de exercício da libido ficam desde o início aquém do limiar da consciência”.

Essas comprovações de Jung advém de suas descobertas, após longos anos, no tratamento de distúrbios ou problemas de inadequação da personalidade, por um processo de leituras do inconsciente, coletivo e individual (materiais extraídos dos sonhos) e a inter-relação desse mundo de símbolos e fantasias (o inconsciente), com suas manifestações no consciente, expressadas tanto através da fala como da escrita, em comportamentos e estados do físico. Naturalmente que tal pensamento em Jung é fruto de sua experiência no tratamento de “pacientes” que o procuraram para resolver problemas de ordem psíquica. É exatamente nesse processo psíquico que se pode vislumbrar como um dos resultados a escrita literária, não naquele mesmo plano de interpretação da sociologia, ou da psicologia de influência cultural, ou de condições históricas explicativas dos variados tipos de literatura. E nem mesmo o fundamental da obra deve ser atribuído à formação técnico-cultural do escritor. Se os fatores culturais assinalados (históricos, sociológicos, etc) são importantes para a constituição de uma forma de expressão literária determinada, consideramos que o mundo da psique (ou da alma) tem importância fundamental em relação à criação imaginativa das imagens, como o tem a consciência no momento de darà obra o cunho artístico inerente à pessoa lúcida do criador. Porém, no que diz respeito especificamente à psique, esta funciona como algo independente aos demais fatores sociais e acadêmicos - ainda que sofra deles influência – por ser ela “uma coisa” inerente ao tempo maior na formação da personalidade humana; alma psíquica é o algo a sobrepor-se às fases sócio-culturais do momento, por trazer os elementos da “herança arcaica” depositados em cada ser humano. E os exemplos em relação a isso são uma enormidade.

Se não fosse assim, não poderíamos entender como uma mulher, negra e pobre, nascida no interior de Minas Gerais e moradora de favela na cidade de São Paulo; tendo sido apenas alfabetizada por freqüentar dois anos do primário em escola do interior – Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) - tivesse produzido um livro, em forma de diário, sobre suas impressões de vida - O Quarto de Despejo - escrito em pedaços de papel que recolhia, catando lixo nas ruas da capital paulista. Lançado em 1960 em edição de trinta mil exemplares, a primeira edição esgotou-se em apenas três dias. Carolina Maria de Jesus, posteriormente esquecida, teve seu livro traduzido, em seguida, para 13 línguas sendo, a seguir, editada em 40 paises. Um estudo (de 1999) do historiador e professor J.C. Bom Meihy, nos dá os seguintes dados a respeito: “ Carolina superou todos os escritores brasileiros em termos de conhecimento internacional, ultrapassando Jorge Amado, e permanece, até hoje, como escritora brasileira mais publicada no exterior, em particular nos Estados Unidos. Publicou ainda mais três livros, Casa de Alvenaria, Diário de Bitita e Provérbios e Pedaços da Fome, sendo o último pago com recursos próprios. Depois de sua morte, com 62 anos em 1977, foi encontrada uma caixa contendo trinta e sete cadernos, com mais de cinco mil páginas com sua letra característica. Ali, Carolina deixou poemas, contos, quatro romances e três peças de teatro”.

Não custa lembrar que esses dados do historiador, provavelmente não levam em conta a escalada editorial posterior de Paulo Coelho, o que não diminui absolutamente o impacto da importância da autora, no exterior, comparado ao menosprezo dentro do próprio país. É importante ressaltar, segundo Bom Meihy, que a Carolina de Jesus revelara em várias ocasiões que seu objetivo como escritora era ser poeta, o que de certa maneira revela o ímpeto intuitivo que conduzia sua psique, pois a poesia é uma linguagem essencialmente da alma.

Carolina foi “descoberta” ao acaso, por um jovem jornalista, Audálio Dantas, que passava pela rua e ouviu a catadora de papel brigar com arruaceiros e bêbados, ameaçando que os colocaria em seu “livro” caso não se comportassem. Ao ouvir a palavra “livro”, o jornalista foi atrás e descobriu o talento inato de Carolina.

Isso ilustra como os componentes do inconsciente individual e coletivo se manifestam na arte; e neste caso nos referimos aos arquétipos milenares de acontecimentos ancestrais repetidos, que ficam impregnados na psique coletiva, captados por indivíduos com sensibilidade especial. Os arquétipos coletivos, que circundam a subjetividade do individuo, aparecem como impulsos da alma, podendo aflorar em qualquer pessoa comum, a partir de objetos da realidade que tocam sua sensibilidade. Quem escreve tem mais chance de apresentar isso por intermédio do veículo artístico da literatura, mas são bem conhecidos os casos de psicóticos que, ao perderem a consciência racional, desenvolveram extraordinariamente tais qualidades através da pintura, ou outros meios. Diríamos, de passagem, que uma pessoa (irracionalmente) apaixonada, pode estar “possuída” por esse interessante complexo, de rara explicação racional.

Essas forças misteriosas e aparentemente “irracionais” da arte, na medida em que se tornem conscientes, isto é, ao serem evidenciadas viram manifestação e resultam em inúmeras expressões, com imagens e personagens representativos da emoção do autor, quer dizer, movimentam uma energia vivificadora entre o autor e o objeto pelo canal da subjetividade. Quando o autor não é o próprio personagem, ou personagem principal, ele tem a função de ser espelho, refletindo as imagens em constante funcionando, num fluxo de libido vital em que alimenta a obra e é alimentado por ela.

Sendo assim, qual seria a diferença entre o escritor e uma pessoa que não é? O escritor conseguiu, através de técnicas aliadas ao resultado involuntário de seu psiquismo, plasmar o escrito, de forma a ser compreendido por um leitor movido por equivalentes fatores psíquicos, ou características, muitas vezes desconhecidas, que mobilizam a energia interior, e se manifestam através de imagens próprias, ou se colam a imagens produzidas por outros.

Como exemplo de caso extremo, e curioso, seria interessante pensar nos livros psicografados por médiuns; são geralmente ditados por um “espírito”, em que as relações do inconsciente (coletivo e individual) com a consciência, aparecem de forma peculiar, tendo em vista que nesse ato de escrever, o escritor anula sua própria personalidade para dar lugar a uma “posse do espírito” sobre o ato consciente.

O fato da existência dessa força, por assim dizer, imaginativa do além, naturalmente, não elimina as outras importantes formas de sedução, beleza e “choque”, que o escritor possa ter como virtude adquirida culturalmente e que, em muitos casos, trata-se de uma gama de “virtudes” que podem fazer a diferença na qualidade da obra.

JulioNa escrita (prosa ou poesia), na música, dança, pintura, desenho, escultura, essas manifestações adquirem forma nas imagens, muitas vezes através de metáforas e símbolos. Na escrita, a forma de expressão compõe imagens a partir dos signos da descrição, e os mesmos serão entendidos por uma comunidade treinada em traduzi-los automaticamente por formulas culturalmente convencionadas de entendimento. Chamaríamos a isso de conhecimento convencionado por técnicas da escrita, daqueles que expressam para aqueles lêem, e pela leitura captam esse mundo e o entendem, incorporando-lhe sua adaptação individual.  

De passagem, em relação às formas de expressão, assinalamos que hoje o visual adquiriu figurações autônomas em movimento (diferentes do abstracionismo da escrita e pintura), ao expressar cenas da vida, com a filmagem e o cinema; são aceitas popularmente devido à proximidade espontânea, ou à milagrosa magia das imagens em relação ao inconsciente que também usa imagens, milenarmente, para “falar-nos” diariamente, em sonhos. Não quer dizer que os filmes expressem automaticamente imagens do inconsciente, mas referimo-nos apenas a analogias na forma de comunicação, entendidas com mais facilidade, por serem habituais também nos sonhos diários de todos. Estas formas acabam tornando-se familiares por serem expressas também em figuras, desde o início da humanidade e bem antes da escrita. Tais reflexões nos levam a uma explicação para o sucesso do cinema e da televisão, além da fotografia; técnicas que, mesmo sendo mais aceitas pela semelhança com nosso habito de sonhar, nem por isso automaticamente contém a essência da poesia, nas imagens. A não ser que seu conteúdo se transforme numa obra artística. Da mesma forma resultaria estranho afirmar que o sonho é uma obra de arte. Mesmo que ele possa servir como matéria prima para um artista produzi-la, não poderíamos dizer que uma imagem é obra artística, por si só.

Igualmente isso não substitui a escrita, que hoje é popular também em forma de determinado tipo de romance, letra de música, poesia de cordel, história infantil, livro religioso ou de auto-ajuda, para um público amplo que conserva algum hábito de leitura. Mas ao tratar-se de literatura mais profunda, tanto ensaio como poesia, a leitura acontece em setores mais restritos, porém com influencia sobre a sociedade. Além disso, a escrita (poesia e prosa), por contar com a imaginação do leitor possui, mais do que as outras formas de expressão, a permanência da emoção por muito mais tempo, significando uma possibilidade maior de aprofundamento dos conteúdos, das idéias, etc. Também se constitui na forma mais acabada e transcendente de manifestar o inconsciente, a subjetividade, o interior da personalidade; e exerce maior influência para o desenvolvimento autônomo da criatividade, entendendo isso como uso profundo da linguagem.

Nesse sentido, o leitor seria, de maneira particular, e com características muito próprias, um “analista” do escritor, sem a intenção de curá-lo, ao reagir com estímulos à obra que lhe chega às mãos; ora identificando-se com ela ou não, ou mesmo respondendo aos estímulos de sensações e emoções provenientes do texto. E isso acontece em função das qualidades do escrito, que falem à alma do leitor ou que provoquem nele uma criação de alma.

Para isso, um dos pontos de partida é uma relação de individualidade entre o escritor e o leitor. Para Jung, esse conceito de individualidade “…é uma tendência ou sentido de desenvolvimento, que sempre se diferencia e se separa de uma dada coletividade”. E, da mesma forma como a individualidade é determinada pelo princípio da singularidade e da diferenciação, por esse mesmo motivo o individuo será imprescindível ao contexto social, somente quando mantenha a singularidade, não se diluindo no comum.

Assim, Jung considera que “…o desenvolvimento da individualidade, é simultâneo ao da sociedade…” e “… a repressão à individualidade pela predominância de idéias de organizações coletivas significa a decadência moral da sociedade.”

Isso, tanto pode ser tomado por processos autoritários de cultura, a exemplo de um tipo de socialismo de estado, como por ditaduras de direita, e, hoje em dia, encontramos esse autoritarismo na organização do pensamento coletivo da cultura uniformizada capitalista, falsamente democrática, com uso intensivo da televisão como “meio” de um sistema cultural dominador e dogmático; ou processos equivalentes de mídia e cultura comercial consumista e comercial-religiosa.

Extraímos da individualidade que, se o leitor é um escritor em potencial, o escritor é um leitor potencializado por vários fatores, entre eles a determinada capacitação cultural e técnica (capacidade em extrair experiência por suas leituras, convívios, sensibilidade em apreender, e uso inteligente das técnicas), fatores estimulantes – mas não únicos – para desenvolver a escrita. Ao expressar as imagens do inconsciente coletivo e individual, esse escritor só poderá fazê-lo a partir de uma atitude de individualidade e somente a partir desse ponto seu trabalho será pertinente à sociedade. Da mesma forma o leitor captará as imagens formuladas, partindo de sua ótica individual. Para tanto, cada um deles deverá adquirir a capacidade de libertar-se da repressão à individualidade – muito sutil na atual sociedade de consumo globalizado – isto é, só será possível escrever (e ler) uma obra válida, ao ter compreensão da liberdade em relação às idéias de “organizações coletivas opressivas”. Elas podem ser uma tendência da moda, deformando a realidade no sentido de corrompê-la. Por exemplo: a corrupção de um pensamento de justiça, como é o caso das guerras justificadas pelo uso metafórico da propaganda de paz. Inúmeras outras ações de corrupção da verdade podem ser atribuídas ao uso massivo de comunicação da cultura de massa.

O pensador e filósofo da teoria da arte, o inglês R.G. Collingwood (1889 –1943), dedicou-se a desvendar essa questão através de pensar os conceitos do autêntico e do inautêntico, tanto na expressão da arte, como numa obra escrita. Para ele, o desafio da autenticidade implica em não cair na corrupção do desempenho. Vejamos como ele descreve essa ação de corrupção na expressão escrita:

…Dirigimos primeiramente nossa atenção para um certo sentimento ou tornamo-nos conscientes dele. Assustamo-nos então com o que reconhecemos, não porque o sentimento, enquanto impressão, seja uma impressão alarmante, mas porque a idéia na qual o estamos convertendo mostra-se uma idéia alarmante. Não vemos como dominá-la e desistimos de perseverar na tentativa. Abandonamo-la, então, e voltamos nossa atenção para algo menos intimidador…chamo isto “corrupção” da consciência porque a consciência se deixa subornar ou corromper no desempenho de sua função, desviando-se de uma tarefa intimidadora para uma mais fácil.

 

A diferença entre escritor e leitor

O desafio aos escritores livres, de hoje, estaria não somente em escrever, mas em dialogar com os leitores, considerando-os sob a ótica de escritores potenciais; apreender os mecanismos da edição, com o intuito de completar o ciclo da expressão e da divulgação, seria um prolongamento de seu trabalho de escrever “o autêntico”, se levarmos em conta que a edição é um mecanismo opressivo do senso comercial coletivo, e, com exceções é manipulada pelo medo de ir contra a corrente da aceitação que implica em conceder. Ao mesmo tempo, editar alternativamente cria a possibilidade de ser “analisado”, única forma de acontecer a relação dialógica leitor-escritor-leitor e dar-se o processo re-criativo.

JulioO escritor (leitor potencializado) seria um “analista” do leitor, e o leitor (escritor em potencial) funciona também como “analista” do escritor. Escrever é apenas o detalhe, de suma importância, para que a expressão do inconsciente - o movimento de imagens associado à consciência que as expressa - aconteça na obra.

Quando o ser humano tem necessidade e descobre que deve representar o mundo de suas imagens interiores e manifestá-lo, ele se coloca à disposição de inúmeros “analistas”, que raramente farão esse contato usando as vias convencionais de um psicanalista. Mas o escritor, misteriosamente recolhe essa experiência para transformar-se, no reflexo das sensações de “ser lido” e “ser sentido”. É esse um processo muito pessoal, semelhante a um espelho interior, através do qual, imagens recebem estímulos e agem como fatores de transmutação. Ter a técnica de analisar (processo psíquico), e saber fazê-lo, constitui-se como um dos aspectos da cultura predominante (técnica e meio social), referente à sensibilidade e à emoção. Também o próprio escritor pode descobrir as maneiras de ajudar seu analista (leitor) a compreendê-lo; fazendo emergir, de determinada forma, seus sentimentos, espantos, intuições e emoções de todo tipo. E qualquer passo nesse campo poderia ter como critério a busca da felicidade, isto é, desvendar os mistérios pelo conhecimento ou mantê-los em forma de desejos potenciais, cuidadosamente guardados.

O escritor, sentindo-se feliz ao escrever, pode (ou não) ser correspondido por um leitor no sentimento desse bem estar, ao lê-lo. Mas dificilmente alguém despertará felicidade não sendo autêntico no ato de escrever, mesmo que isso implique numa dor. E a felicidade não está em mascarar a tragédia, a angústia, a melancolia, com falsas imagens coloridas; por ser a essência da arte uma atitude de salvação, mas somente através de sua expressão autêntica, seja triste ou alegre, de ódio ou amor. Notemos as palavras de R.G.Collingwood, referindo-se ao escritor:

revelar à sua audiência os segredos de seus próprios corações, mesmo correndo o risco de desagradá-la (…) A razão pela qual essa audiência precisa dele é que nenhuma comunidade conhece completamente seu próprio coração (…) A arte é o remédio da comunidade para a pior doença do espírito, a corrupção da consciência.

 

Seguimos a trajetória de entender a escrita como apropriação da idéia de um mundo desconhecido, transformando-a em imagens do mundo explicitado. Não nos referimos exatamente a um relatório administrativo ou a manual de fabricação de qualquer coisa, a livros de como emagrecer, textos didáticos ou manuais de auto-ajuda, nem a determinadas novelas (televisivas ou não), livros de história, etc., mesmo que estes possam conter em seu texto boa literatura também, e mesmo serem possível matéria prima, essencial para a obra de arte. Tais escritos podem ter sua explicação sociológica no contexto das atuais formas de vivenciar as relações no mundo e vislumbrarem caminhos educativos e informativos de inestimável valor. No entanto, nosso interesse será tratar de obras que habitam o contexto do artístico em sua totalidade, partam da experiência de uma individualidade que capta a expressão do mundo de imagens e, em grande parte, utilizam o inconsciente. Aquelas obras, pequenas ou grandes, cuja função na sociedade completa o conhecimento do “coração”; aquelas que conseguem a apropriação das idéias, transformando-as em concepções artísticas do mundo, ou melhor, nos símbolos vivos, que permitem um desenvolver humano-natureza; aquelas que atuam sob pressão de impulso de imagens e não sob a regressão de um simbolismo mórbido, determinado por tudo aquilo que tenda a paralisar a energia vital da libido. Mesmo que, neste último caso, consideramos a regressão como válida quando venha motivar reflexão, ou como instrumento para procurar certas imagens, ou também etapa subseqüente do evoluir no símbolo - que nasce entre a fantasia viva e a realidade - como etapa intermediaria, permitindo a “incubação” da nova criatura. Pois, mesmo de uma profunda depressão, pode surgir o elemento que desperta a criação.

Assim, a obra poética ou prosa ficcional, mesmo partindo de um relato da realidade, distingue-se dos outros escritos pela capacidade de captar o espírito das coisas, de forma artística. Se, por exemplo, a filosofia tenta explicar o fenômeno por vias metafísicas, a história o fato acontecido, no caso da poesia (inserida em qualquer obra) vive o sentido (sentimento) do fato ou do fenômeno, infundindo ação criativa à emoção. Um texto de filosofia, de sociologia, de psicologia, ao tratar de um tema, como, por exemplo, o amor (também o ódio ou a morte), seu conceito é traduzível, por convenções racionais, podendo-se buscar atrás dele o objeto que a linguagem quis oferecer. Na poesia, dentro de suas variadas formas, a captação da imagem é a própria representação do sentimento (de amor e vida, de ódio ou morte) pelo fenômeno emotivo. Atrás desse “vivo representado” não há nada, aparentemente além de estados emotivos, que pode desenvolver-se em associação a outros. Significa traduzir a sensação das coisas do entorno, por mecanismos que as fazem viver dentro e em relação com a psique. Mesmo que se sucedam infinitas imagens, alegóricas ou metafóricas, será esse um esforço contínuo do escritor, aquele de representar (ou re-apresentar) o sentimento sob formas, sem precisar explicá-lo filosófica, sociológica, ou psicologicamente. Tal fenômeno ocorre em poemas, romances, contos, dramas, etc., independente do tamanho do texto, como também pode ocorrer na música, pintura, escultura, desenho, etc.

JulioCompletar uma obra significa um passo indispensável para o fechamento do ciclo da compreensão ou da vivência incluindo no ciclo a participação dos outros: os leitores. Não podemos esquecer que o escritor passa a ser leitor de sua própria obra, que já saiu dele, e que agora terá o efeito de também transforma-lo. Se, ao participar da confecção de uma obra histórica ou educativa, o escritor estabelece com o leitor uma troca de conhecimento, na obra poética e ficcional se estabelecerá uma troca de vivências e sentimentos, da libido vital, do interior de uma pessoa - que é um mundo - para o interior de outras, e vice-versa. A isso também poderíamos chamar de conhecimento pela experiência. Porém, não basta ao autor e ao leitor completarem-se, como seres humanos, apenas com essa troca de experiências interiores, na expressão; o escritor igualmente incorpora formas estéticas à sua obra, ou melhor, trata-se das artimanhas criadas pelo mundo exterior para desenvolver o mecanismo da vida, ampliada e diversificada. São códigos de equilíbrio ou desequilíbrio; de beleza, de prazer e choque, estabelecidos por seduções, atrações, desejos, humores que funcionam com determinados ritmos, melodias e cores. 

Quando se diz que no texto poético é imprescindível o Ritmo, é porque a vida e o mundo se harmonizam com ele, e a pessoa precisa exercitar o ritmo dentro de si (ou saber captá-lo) para identificá-lo; ou mesmo saber traduzi-lo, na obra. Quando também se diz ser fundamental a Melodia, é porque a vida e o mundo são regidos por sons e cores que se expressam em cadência melódica, e são também acumulados pela herança “genética” do inconsciente. Ao serem mobilizados acentuam a libido e o erotismo vital, em sensações de desejo e felicidade (associado à ancestralidade arquetípica dessas emoções, na humanidade) isto é, significa a existência da libido, como energia vital que movimenta as imagens do inconsciente para trazê-las à tona; e a musicalidade ajuda essa função. Enquanto a reportagem jornalística, como herdeira de uma estrutura semântica própria na comunicação humana, manifesta um conteúdo mais objetivo, a obra artística é um pouco diferente, como diria Johannes Pfeiffer (ensaísta e critico literário alemão), diferenciando a poesia de outras formas de escrita:

…na corrente acústica da linguagem, o tom, o ritmo e a acentuação expressam a atitude e o estado de ânimo – momentâneo ou permanente – daquele que fala…” sendo, o ritmo “a vibração interna que confere vida.

Para o mesmo autor, falando da melodia, diz: “… o ritmo poderia, despegar-se, numa massa acústica, por assim dizer incolor; a melodia, porém apóia-se em sons de uma determinada coloração, de certa altura e profundidade…”

Dizendo que cada palavra possui uma emanação afetiva, determinada pelo volume de som e coloração acústica, Pfeiffer atribui à melodia das cordas vocais altas e luminosas, uma atmosfera diáfana, leve e mágica; e para expressar sentimento de pena e aflição, alguns textos usam sons de profundidade e afinação escura.

Se, por um lado, nos apoiamos na experiência de Jung, para ressaltar o enfoque da personalidade humana ao expressar seu mundo interno, em formatos de seu diálogo de alma com os demais, é importante, por outro lado, estabelecer os fatores que determinam a estética, fazendo da escrita uma arte. Dessa forma, quando se fala em ritmo; em musicalidade dos sons e cores; em uso da imagem e da metáfora; em estilo; em originalidade; etc. pensamos no plano do que comumente se considera “beleza”, ou mais exatamente aquilo que atrai, sendo fruto de um outro sentimento de fundo: o desejo, ou sentir-se bem nessa troca emocional, tanto com os seres como com os objetos e fenômenos da natureza. E aí se encontram vários dos elementos que fazem parte do aperfeiçoamento da expressão. Esses elementos permitem-nos, como leitores, distinguir os sinais do despertar para o interior de nossos sentimentos, através do sentimento de quem escreve. Caso abstraíssemos a técnica, o estilo e certos elementos exteriores próprios da criatividade artística, essa diferença, entre escrever e ler poderia parecer-nos bem pequena, no entanto é sutilmente profunda se a leitura de um texto, pequeno ou grande, desencadeia imagens criativas, no leitor, para conceber o mundo e recriá-lo, a partir da mobilização do sentimento interior. E nesse aspecto, mais uma vez, não poderíamos deixar de citar R. G. Collingwood, quando fala da essência do ser poeta:

… Se uma pessoa diz algo para expressar o que vai em sua mente e outra ouve e entende, então, o ouvinte que entende tem essa mesma coisa em sua mente…E isso vale igualmente no caso da expressão de emoções…Quando alguém lê e entende um poema, ele não está simplesmente entendendo a expressão do poeta, de suas próprias emoções, isto é, das emoções do poeta; o que o ouvinte está expressando são suas próprias emoções pelas palavras do poeta, que assim se tornaram suas próprias palavras. Como afirma Coleridge, sabemos que um homem é um poeta pelo fato de que ele nos faz poetas.

Ao finalizar não poderíamos deixar uma última consideração sobre aspectos das diferenças entre escritor e leitor (escritor em potencial), citaremos um caso muito significativo mencionado por Jung. Refere-se a detalhes colhidos da análise de um paciente. Fala desse paciente, acometido de loucura, que fez do mundo seu “livro de imagens” e Jung compara essas imagens ao “Mundo Como Vontade e Representação” do escritor Schopenhauer, tentando explicar fantasias extremamente significativas constatadas em doenças mentais, de certos fenômenos que podem aparecer em indivíduos normais. O paciente a que se refere, sofria de demência paranóica, com mania de grandeza, portanto, segundo Jung, ele mantinha ligação telefônica com a mãe de Deus, além de outras personalidades célebres. Mas na verdade tratava-se de um simples serralheiro aprendiz que se tornara louco ao final da adolescência. Mesmo sem inteligência destacada, ele se caracterizava pela imaginação prodigiosa e teve uma “grandiosa idéia entre outras: o mundo era seu livro de imagens e podia folheá-lo à vontade. Era muito simples, bastava virar-se para o outro lado e estava diante de uma nova página.”

Isso, ainda na afirmação de Jung, assemelhava-se a uma versão simples, primitiva e concreta do “Mundo como vontade e representação” de Schopenhauer. Idéia comovedora, nascida de uma solidão extrema e de uma total alienação frente ao mundo, manifestada, no entanto, de um modo tão simples e ingênuo, que de início pode provocar o riso por sua estranheza. No entanto, este modo primitivo de ver as coisas sub-jaz no fundamento da magnífica visão do mundo de Schopenhauer. Só um gênio ou um louco pode desligar-se suficientemente dos vínculos da realidade, a ponto de ver o mundo como seu livro de imagens.

JulioE Jung faz-se a pergunta, se o doente mental em causa, construiu tal concepção ou teria esta concepção, ocorrido por acaso, ao doente. Terá sucumbido a essa visão? Indaga o psicólogo. E ele próprio responde:

…Esta última alternativa pode ser corroborada por seu estado de desintegração patológica e por sua inflação. Não é mais ele quem pensa e fala, mas algo pensa e fala dentro dele: por isso ouve vozes…

E o raciocínio segue ao determinar-se a diferença que separa um Schopenhauer em relação ao mesmo paciente. Essa diferença estaria no fato de que no jovem paciente a visão permaneceu no estádio de um mero produto espontâneo, ao passo que Schopenhauer soube abstraí-la, exprimindo-a numa linguagem de validade universal… E assim conclui que o paciente elevou a visão, partindo de um estado inicial subterrâneo para estabelecê-la à clara luz da consciência coletiva.

A seguir o psicólogo parte para as seguintes conclusões: uma delas estaria no erro em dizer-se… que a visão do paciente possui apenas um caráter ou valor meramente pessoal, como algo que lhe pertencesse. Se assim fosse, seria um filósofo. Entretanto, filósofo ou gênio é precisamente aquele que consegue transmudar uma visão primitiva e natural numa idéia abstrata, que pertence ao patrimônio geral da consciência. Esta realização, e somente ela, constitui seu valor pessoal, cujo reconhecimento não o fará sucumbir inevitavelmente à inflação psíquica. E a partir disso Jung afirma que a visão do paciente é um valor impessoal surgido de forma natural, … contra o qual ele não pôde defender-se e que o engoliu, e “transportou” para fora do mundo. A inegável grandeza da visão inflou-o até proporções patológicas, sem que ele pudesse apropriar-se da idéia, transformando-a numa concepção filosófica do mundo.

E a conclusão final do caso está, para o psicólogo em que o … valor pessoal reside na realização filosófica e não na visão primária… pois, nesse caso o filosofo Schopenhauer… também teve essa visão, como incremento, procedente do patrimônio geral da humanidade do qual, em princípio, todos nós partilhamos. As maçãs de ouro caem da mesma árvore, quer sejam colhidas pelo insano aprendiz de serralheiro ou por Schopenhauer.

O exemplo serve, igualmente, para se quisermos mudar o termo “concepção filosófica do mundo” por poética ou ficcional, poderíamos fazê-lo, desde que estabeleçamos as diferenças entre escrita filosófica e poética, como já vimos antes.

José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Julio (Portugal).

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