revista de cultura # 58
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2007






 

Notícias da Bósnia Herzegovina: Edin Numankadic

Allan Graubard

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Edin NumankadicEdin Numankadic é um dos principais artistas de Sarajevo. Em uma cidade ainda emergindo da extensa guerra genocida contra ela nos anos 1990, Numankadic, por meio de sua pessoa e de sua arte, é um motivo para esperança. Um alto e energético homem com seus cinqüentas anos, ele te atrai para ele quanto pelo seu afável senso de humor quanto por uma intensidade que ele carrega bem sob sua pele, uma intensidade, contudo, que é puramente interior. Desde que você o conhece, ele é alguém que você nunca esquecerá.

Meu primeiro encontro com a arte de Numankadic foi em 1998 numa galeria em Washington, DC dedicada a culturas dos Bálcãs. Galeria LIPA (Links for the International Promotion of the Arts) relocada para Chicago vários anos atrás, onde ela continua, organizando importantes exposições e performances.

Foi, todavia, em outubro de 2001, quando participei como jurado do MES Sarajevo International Theater Festival [Festival Internacional de Teatro de Sarajevo], que finalmente pude me encontrar com Numankadic em seu ateliê no bairro Ali Pshjini Polge de Sarajevo. Um pequeno flat de três quartos no quinto andar de um comum prédio sem elevador que margeava a terra de ninguém entre as posições de bósnios e sérvios durante a guerra, e que ainda carregava evidências de buracos causados por granadas e balas. Nós nos encontramos várias vezes depois disso em cafés de Sarajevo, e, desde então, temos mantido nossa amizade.

Edin NumankadicO ateliê de Numankadic é sua pedra-de-toque. É o lugar onde ele encontra a solidão necessária para suas criações, bem como para sua paz geral de espírito. Sem o seu ateliê, como ele mesmo observa, ele poderia não ser quem ele é hoje. O lugar tem várias pequeninas janelas cobertas de pó, mas a luz que você percebe – a luz que clarifica – vem de suas telas, objetos achados, caixas de collage, arte feita por companheiros do mundo todo, e Livros espalhados por toda a parte.

O seguinte texto está publicado no catálogo de uma exposição de sua série de “Inscrições” na Gradska Gallery em Bihac, Bósnia Herzegovina, que foi aberta em Janeiro último.

 

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“Por vários anos durante a guerra eu fiz ‘Inscrições’. Eu cheguei aqui; caminhei 8 km todo dia após o trabalho até o meu ateliê. Eu precisava fazer isto. O trabalho me permitiu manter minha sanidade, minha saúde mental. Às vezes era perigoso. O que mais eu poderia fazer? Para sobreviver, eu tinha que criar. Era uma questão de sobrevivência, de acordar na manhã seguinte. Você estava vivo… Deixei também Sarajevo umas sete ou oito vezes durante a guerra. Tive que viajar a Paris, Berlin, onde exposições de meu trabalho eram organizadas. Fui até mesmo a Seul, na Coréia do Sul, onde, pela primeira vez, recebi um prêmio numa exposição internacional de arte. E, quando tive que viajar de volta, meus amigos me pediram para ficar. ‘Como eu poderia retornar para Sarajevo’, perguntaram eles. ‘Eu estava em perigo, havia a guerra’, e assim por diante. ‘Por que não ficar aqui, trabalhar aqui’?”

Edin Numankadic“Eu retornava para Sarajevo toda vez. Este é o lugar de onde venho. Minha família já esta por aqui há mais de 400 anos. Eu partiria pelo túnel que passava por baixo do aeroporto e retornaria pelo mesmo túnel. Eu deixaria a Europa, e toda a liberdade e todo bem-estar lá, e voltaria para casa, com ou sem guerra. Eu poderia facilmente ter ido embora. Eu não fui.”

[Edin Numankadic]

 

A Arte de Edin Numankadic / Inscrições

 

Olhos que desenham, mãos que lêem; uma linguagem de gestos, coreografia de signos. A sintaxe do tempo, a lenta e inevitável corrosão do significado.

Lembro, esqueço; lembro-me de esquecer, esqueço-me de lembrar. A memória escoa por entre mim. Fecho meus olhos; abro-os. Sou homem e pedra, a pedra que sobrevive ao homem, o homem que marca a pedra para sobreviver a si mesmo.

Edin NumankadicUma palavra, uma frase. Ponho abaixo o livro, ponho abaixo a mim mesmo, ergo meu pincel, levanto-me acima da pedra, a pedra-tela, o retângulo bidimensional que mimetiza as pedras do meu lugar, meu tempo, minha origem. O que carregará meu deslumbramento, meu desespero, minha raiva, esperança, amor, perda, meu triunfo, minha derrota, meu silêncio, minha respiração, minha visão melhor do que a pedra-tela? O que devolverá um espaço tão pequeno quanto um momento, tão próximo quanto um firmamento, tão apressado quanto uma rua? – a pedra-tela.

Mas não deixarei a pedra-tela ser. Dou para ela o que ela recusa pegar. Luto, trabalho, inscrevo. E faço isso novamente, e novamente; novamente, e novamente no mesmo espaço, a mesma sensível obscuridade. Não descansarei até que a inscrição despoje-me das ilusões que freqüento. Não descansarei até que eu freqüente a inscrição, há muito não mais tendo necessidade das minhas ilusões, da minha necessidade de ilusão. Não descansarei até que a inscrição bana toda e qualquer esperança que eu possa ter colocado em meu pacto com significado ou silêncio, com quietude ou dança, com abraço, com solidão, com plenitude. Não descansarei até que eu arranque da pedra-tela o fechar de uma derradeira porta para a profundeza do problema à mão.

Pois a pedra-tela, que é sua própria porta, e que abre e fecha por sua própria vontade, me repudia. Ela é tanto quanto não é. Ela vem a ser; ela revela; rodopia até uma parada súbita e insubstituível. Só então ela é livre; só então sua liberdade me infecta. Só então o processo de inscrever catapulta para dentro do tempo o puro poder do ato. O ato que me inscreve em tudo que não sou; que me sustém e me bane; que vira e revira; que transforma a tela em pedra, a pedra em tela – o ato de inscrever a pedra-tela.

Aqui não há nem fábula nem poesia. Não há nem ficção nem filosofia. Nem sedução nem máscara. Há apenas o ato sobre a pedra-tela: o ritmo de signos que perderam seu significado; o signo de um ritmo que provoca uma aspiração a lhe assinalar um significado – e a convulsão do encontro entre eles.

Edin NumankadicA pedra-tela não é um espelho para o ego; é um espelho sem-ego para o espaço que o tempo habita. Seu corpo é silêncio; sua fala, gesto. É a clareza de aceitar a distância entre memória e imagem, linguagem e significado, lugar e movimento, origem e exílio, beleza e desfiguração. É, por seu próprio tempo, que é nosso, nosso tempo, um enigma atemporal que abusa do abuso que amontoamos sobre o significado, a linguagem e o gesto.

Tampouco a pedra-tela é de exclusividade de Edin Numankadic. Ela está em todo lugar que olhamos, em todo momento que captamos no movimento ou que nos capta, que nos fixa. É o lugar onde nos despedaçamos quando olhamos e quando escutamos sob uma nova forma. É o seu próprio despedaçar no calor do tempo que inscreve suas marcas sobre o espaço que habitamos.

Aqui estão as Inscrições de Edin Numankadic, inscrições com a densidade da pedra.

Allan Graubard (Estados Unidos, 1953). Poeta e dramaturgo. Autor de livros como Glimpses From A Fleeing Window (1992), Fragments from Nomad Days (1999), e The Wind’s Skeleton (2005), este último em colaboração com a coreógrafa Alice Farley. Artigo traduzido por Éclair Antonio Almeida Filho. Contato: a.graubard@starpower.net. página ilustrada com obras do artista Edin Numankadic (Sarajevo).

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