revista de cultura # 58
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2007

livros da agulha

Visões do medo, de Beth Braitt Alvim1. Visões do medo, de Beth Braitt Alvim. Escrituras Editora. Brasil. 2007. www.escrituras.com.br.

Livro premiado pelo PAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Imagens que expressam uma revolta diante do tempo são tão recorrentes e têm tanta força em Visões do medo que vale a pena examiná-las e interpretá-las mais detalhadamente. Uma delas, o tempo circular das sociedades tribais e civilizações arcaicas. Outra, o tempo linear, progressivo, da nossa civilização.

O tempo circular é aquele dos fenômenos cósmicos e da natureza, com seus ritmos, ciclos e repetições. Correspondem a eventos mágicos, ao encontro de dois planos, temporal e atemporal, transcendente e imanente, sagrado e profano. Em contraste, em nossa civilização o tempo é série linear, feita de eventos sucessivos e únicos.

A história, em nossa cultura, é movimento dotado de sentido, progressivo: confunde-se com o crescimento do saber e com o acúmulo da riqueza. Mas não para Beth Brait Alvim, que vê o tempo muito mais como um crescimento da repressão e perpetuação da dor.

Beth Brait Alvim não é dualista, e não vê chances de transcendência do tipo religiosa; tampouco é tradicionalista, e por isso não antevê a recuperação de um tempo arquetípico, primordial, menos ainda, de retorno a um passado utópico, idealizado.

É claro que mudar o mundo por meio da poesia supõe um uso ou função mágica da palavra – daí as constantes referências a rituais e bruxarias. E uma solidariedade ou cumplicidade com os criadores visionários ou delirantes. Um desafio que ressoa nas páginas deste Visões do medo, e lhe confere vigor e alcance profético na razão direta de sua consistência e seu compromisso com a palavra poética.

Beth Brait Alvim é formada em Letras e especializada em Ação Cultural, ambos pela USP. Tem poesias, prosas, artigos, críticas, entrevistas e ensaios publicados em revistas, jornais, livros e sites nacionais e internacionais, além de resenhas divulgadas no programa Entrelinhas, da TV Cultura. Participa de seminários e palestras sobre literatura, cultura e políticas culturais, além de ter atuado em teatro, cinema e vídeo. Foi conselheira de literatura e diretora cultural da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos, assessora de literatura do Departamento de Cultura de Diadema, fundadora do Grupo Palavreiros e membro do Coletivo de Cultura do ABC e da Cátedra Celso Daniel de Gestão de Cidades. É membro titular do Conselho Municipal de Cultura de Santo André. Em 2003, recebeu a bolsa de especialização profissional Politiques de la Culture et leur Administration, do Programme Courants du Monde, promovido pela Aliança Francesa e pelo Ministério das Relações Internacionais da França. É assessora de literatura do Departamento de Cultura de Santo André, onde coordena a Casa da Palavra e a Escola Livre de Literatura. Recebeu diversos prêmios e menções, entre eles o Prêmio Alice Leonardos, da Academia Brasileira de Letras, pela idealização da Antologia de Dramaturgia Vladimir Maiakovski, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (1996). É autora de diversos livros de poesia e contos, entre eles Ciranda dos tempos – espaços do desejo (2a edição/Escrituras Editora), projeto beneficiado pela Lei de Incentivos Fiscais à Cultura de São José dos Campos, incentivado pela Kodak do Brasil e com apresentação de Teixeira Coelho.

Poesia & Utopia: sobre a função social da poesia e do poeta, de Carlos Felipe Moisés2. Poesia & Utopia: sobre a função social da poesia e do poeta, de Carlos Felipe Moisés. Coleção Ensaios Transversais - vol. 35. Escrituras Editora. Brasil. 2007. www.escrituras.com.br.

Poesia & Utopia, escrito pelo Prof. Carlos Felipe Moisés, gira em torno de uma só interrogação básica, que indaga sobre o papel social da poesia e do poeta, hoje.

Sem tirar os olhos da realidade contemporânea, o autor reflete sobre as razões que teriam levado Platão a expulsar o poeta da República; recua um pouco mais no tempo e, com o mesmo olhar posto simultaneamente no passado e no presente, dirige a Confúcio, aos pré-socráticos e à tradição que daí se origina, interrogando acerca do lugar ocupado pelo Homem no mundo; depois, investiga os modos de circulação e de percepção da poesia; discorrendo sobre o predomínio do lirismo, a crise do individualismo e o isolamento do poeta no mundo moderno.

O poeta e pesquisador avalia ainda as implicações da resposta pragmática, porventura dominante nos dias de hoje, segundo a qual a poesia é um passatempo inútil, quer isto ecoe, 2.400 anos depois, os temores aventados por Platão, quer se prenda às prerrogativas mais avançadas e “realistas” da sociedade atual, dominada pela técnica. Neste desfecho da obra, se assim o preferir, o leitor poderá ficar com esse juízo taxativo, como poderá aderir ao ceticismo que se desenrola nos capítulos anteriores, e prossegue, à procura de outras respostas, ou ao menos outras maneiras de formular a pergunta.

Carlos Felipe Moisés é poeta, com participação em várias antologias no Brasil e no exterior, e autor de livros como A poliflauta (1960), Carta de marear (Prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1966), Círculo imperfeito (Prêmio Gregório de Mattos e Guerra, Salvador, 1978), Subsolo (Prêmio APCA, 1989) e Lição de casa (1998). Formado em Letras clássicas e vernáculas pela Universidade de São Paulo, onde realizou o mestrado (1968) e o doutorado (1972), ensinou teoria literária e literaturas de língua portuguesa na Faculdade de Filosofia de São José do Rio Preto, na PUC de São Paulo, na USP e na Universidade Federal da Paraíba. Entre 1978 e 1982, lecionou na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Desde os anos 70, dedica-se regularmente à crítica literária, colaborando em órgãos especializados e na grande imprensa. É autor de vários estudos sobre autores modernos e contemporâneos, como Cesário Verde, Fernando Pessoa, João Cabral, Mário Cesariny, Vinícius de Moraes, Campos de Carvalho e outros. Dentre seus livros nessa área, destacam-se Poesia e realidade (1977), O poema e as máscaras (1981, 2a ed., 1999), Literatura, para quê? (1996), Poesia não é difícil (1996), Mensagem de Fernando Pessoa: roteiro de leitura (1996), O desconcerto do mundo: do Renascimento ao Surrealismo (2001, Coleção Ensaios Transversais 15, Escrituras Editora) e Fernando Pessoa: almoxarifado de mitos (2005, Coleção Ensaios Transversais 33, Escrituras Editora). Traduziu Retórica da poesia, de Jacques Dubois (1980), Tudo o que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman (1986), Que é literatura?, de Jean-Paul Sartre (1989), O poder do mito, de Joseph Campbell (1990) e Alta traição, poemas de vários autores franceses, norte-americanos e outros (2005). É autor também de livros de literatura infanto-juvenil, como O livro da fortuna (1992), A deusa da minha rua (1996) e Poeta aprendiz (1997).

Palabras sin ruta, de Eduardo Mosches3. Palabras sin ruta, de Eduardo Mosches. Editorial Plaza y Valdés. México, 2007.

Eduardo Mosches ha escrito en estas Palabras sin ruta un testimonio lírico de los últimos veinte años del mundo que habitamos. En cuatro Justros ha habido lugar para huelgas y bombardeos, asesinatos y elecciones, pugnas étnicas y raciales, debate político y conflictos sociales, economías inhumanas, ideas despavoridas, dudas, convicciones y literatura. La revista Blanco Móvil albergó los escritos urgentes de Mosches durante todo ese tiempo; una escritura coyuntural que nos da cuenta y fe de diversos momentos de nuestro continente y del mundo. Textos, subtextos y contextos redactados a veces necesariamente apresurados pero también despacito y con buena letra, como Machado aconsejaba, y siempre con agudeza, inteligencia, humor. En estas líneas editoriales se reúnen viajes al interior de uno mismo y se comparten tas salidas al exterior: Mundo y necesidad de escritura, comarcas y territorios aún por escribir en una revista que en veinte años ha traído más gustos que disgustos, duelos y quebrantos, y el palomino dominical de Don Alonso el bueno, por añadidura. Estas Palabras sin ruta nos sugieren que las arrugas no son siempre símbolo de sabiduría y nos toca continuar la larga caminata; que la historia está llena de tropezones y deseos. Las páginas de Mosches han encontrado tréboles de cuatro hojas; han buscado a Borges para conversar con quienes no se les dificulta pronunciar ese nombre; han viajado por el Cabo de la buena esperança, han padecido exilios y gozado Ipanemas, han convocado al amado Jorge Amado, a Clarice Lispector, a Ciorán, a tantos otros escritores que conversan con nosotros desde la cima de cualquier idioma. Este es apenas un primer volumen de esa escritura continuada.

Expírito – multiversos, de Rubén Mejía4. Expírito – multiversos, de Rubén Mejía [tradução de Floriano Martins]. Escrituras Editora. Brasil. 2007. www.escrituras.com.br.

A Escrituras Editora publica no Brasil Expírito - multiversos, trabalho do poeta, editor e tradutor mexicano Rúben Mejía, que traz carta-prólogo de Jorge Aguilar Mora e posfácio de Reyna Armendáriz González.

Expírito representa a morte vital; o exercício sublime e iniludível de expirar em consciência da morte, da leveza humana, exercício que paradoxalmente dá asas e força à existência. Este é, a rigor, o sopro de vida que normalmente chamaríamos de “espírito”, e que Mejía permuta por um ex latino que de imediato nos coloca “fora de”.

Expírito sempre morre e, no entanto, vai modelando uma medula inesgotável na vida. O fundo encaixa-se à forma e deixa-nos profundos e gelados. Cruzamos a desolação sagrada da existência, a impossível fronteira do instante, o instante infinito da morte... religiosamente vivendo. O autor viaja no seu estado existencial, nas curvas mais ocultas das palavras que, por vezes, abruptamente cerceadas, brilham, se tocam, punçam melhor. Uma linguagem esculpida com profundidade oferece-nos harmonia e determinação, e, sobretudo, uma voz que está em condições de interatuar com a fagulha racional da alma.

Rubén Mejía nasceu na cidade do México, em 1956, e mora na cidade de Chihuahua, ao norte do México, fronteira com os Estados Unidos. Ao longo de 25 anos impulsionou, sempre contra a corrente, a criação de espaços e publicações culturais: a revista artesanal Palavras sem rugas (1981-1982); a coluna jornalística “Letras à margem” (1983-1987); o suplemento semanal “Pró-Logos” (1984-1988) e Azar Revista de literatura (1989-1998), uma das principais publicações culturais da década de 1990, no México. Atualmente é diretor da editora independente Edições do Azar A.C., que traduziu e dissemina no México obras de escritores brasileiros: João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Raimundo Gadelha e do poeta Lêdo Ivo, de quem publicou La tierra allende (2005), sua primeira antologia bilíngüe português-espanhol. Alguns dos livros de Rubén Mejía editados são: Segunda morte (poesia, Universidade Nacional Autônoma de México, 1987); A região romântica. Sete poetas do século XIX em Chihuahua (ensaio, Azar-Ayuntamiento de Chihuahua, 1996), um estudo sobre o extenso e arraigado romantismo regional do norte do México; os poemários Poesiglo e O poesible (Azar - Programa das Fronteiras, 1997), livros que significaram um preâmbulo, uma pré-escritura, da grande saga poética Expírito - multiversos (2000-2007), composta, até o momento, por quatro volumes.

Zôo Imaginário, de Sérgio de Castro Pinto5. Zôo Imaginário, de Sérgio de Castro Pinto. Escrituras Editora. Brasil. 2007. www.escrituras.com.br.

Livro selecionado no Programa Estadual Lendo e Aprendendo 2006, da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo

Prêmio de Poesia Guilherme de Almeida, da UBE - União Brasileira de Escritores/Rio de Janeiro, como melhor livro de poesia de 2005

Zôo Imaginário reúne cerca de 20 poemas inéditos e outros tantos éditos extraídos de livros anteriores do autor, o jornalista e professor Sérgio de Castro Pinto.

Logo no prefácio do livro, nos esclarece José Nêumanne Pinto:

 “Em Zôo Imaginário, ocorre-me chamar a atenção para o apelo monocromático, mas no qual a cor única consegue conter todas as outras, nunca desprezadas, como no poema do leão, a juba.: ‘sol de pêlos / ao redor / da cabeça, // a fulva juba flameja: // estrela / de primeiríssima / grandeza!’ Aqui chama-me atenção o uso do superlativo como elemento surpresa.

 “Ao contrário do mestre João Cabral, que nega a música, embora a construa, Castro Pinto vai direto ao ouvido do leitor, assumindo-a na linguagem e na metalinguagem: ‘As cigarras // são guitarras trágicas. // plugam-se/se/se/se / nas árvores / em dós sustenidos. // kipling recitam a plenos pulmões. // gargarejam / vidros / moídos. // o cristal dos verões.’

 “No poema a girafa (II), Castro Pinto esgrima o epigrama com ironia, sarcasmo e uma meiga memória afetiva, que transporta o leitor aos recantos mais úmidos e agradáveis de sua vida pregressa. Irreverente, sem perder a ternura, e conciso, sem perder a graça, o poema, uma vez mais, falará melhor das próprias qualidades, ao ser exibido diretamente a seus olhos neste espaço introdutório. Então, vamos lá: ‘a girafa é girassol, / a girafa é de lua, / não gira bem. // é top model, / é audrey hepburn, / olhem o pescoço / que a girafa tem!’.

 “Eu diria que a impressão que a leitura deste livro me causou foi a de estar numa festa, uma boda, o ‘casamento da raposa com o rouxinol!’ Núpcias da sagacidade com a sensibilidade, da precisão com a graça.”

Sérgio de Castro Pinto nasceu em João Pessoa, em 1947. É jornalista profissional e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal da Paraíba, onde defendeu dissertação de mestrado e tese de doutoramento sobre Manuel Bandeira e Mario Quintana. Sua poesia foi tema da primeira tese de doutorado no curso de Pós-graduação em Letras da UFPB, Signo e imagem em Castro Pinto (Editora da Universidade Federal da Paraíba, 1995), de João Batista B. de Brito. Tem poemas traduzidos para o inglês e participa de antologias publicadas na Espanha e em Portugal.

 


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