revista de cultura # 58
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2007






 

O peso das palavras

Radovan Ivsic

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Radovan IvsicO surrealista franco-croata Radovan Ivsic [Zabreg, 1921] é dramaturgo, poeta e ensaísta. Entre suas peças se destaca o Rei Gordogão [1943]. Ao chegar a Paris em novembro de 1954, após ter deixado a então Iugoslávia, Ivsic encontra-se com Benjamin Péret e André Breton. Começava sua ativa participação no surrealismo. Em várias manifestações surrealistas Ivsic era encarregado da sonoplastia. Após a morte de André Breton em 1966, ele assume a direção da coleção Maintenant, nas Éditions Surréalistes. O ensaio que ora apresentamos em Agulha foi originalmente apresentado como uma conferência para o PEN Club, em Barcelona no ano de 1993. Em tempos de discussões sobre o equilíbrio da biosfera e o futuro da humanidade, este texto se mantém atualíssimo. Nele Ivsic lança uma questão crucial para os poetas [e para todos os que lidam com a palavra]: como, por exemplo, usar a palavra “água” se sabemos que ela está poluída; como usar a palavra “floresta” se sabemos que a cada dia a área da Amazônia diminui espantosamente? Toda a obra de Ivsic permanece praticamente desconhecida do público brasileiro. [Éclair Antonio Almeida Filho]

 

Eu amo, eu amava as palavras. As palavras calmas e silenciosas: relva (trava). As palavras sonoras: folhagem (krosnja). As palavras prolongadas: nas ondas (valovima). As palavras lisas: espádua (rame). As palavras que acariciam: água (voda). As palavras croatas: hridine (os rochedos). As palavras de Shakespeare: deny thy father and refuse thy name [Renega teu pai e recusa teu nome]. As palavras de Dante: selva oscura [selva escura]. As palavras de Federico Garcia Lorca: verde que te quiero verde [Verde que te quero verde].

E, depois, após muitas outras, descobri que as palavras se unem, se amam ou se repelem, fazem amor, se mantêm tranqüilas, se fazem de loucas, permanecem ou levam a alguma parte, onde? onde? Aqui, longe, lá longe, rumo aos novos perfumes, rumo às novas cores, rumo às novas luzes, rumo ao círculo inesperado do medo: em croata, a relva (trava) se torna pavor (strava), se vocês jogam com ela. Vocês declinam: “vjetar s travom, vjetar stravom” Vocês declinam: “a relva, da relva, na relva até o sétimo caso com a relva - s travom -: vjetar s travom, vjetar stravom”. O pavor (strava) está aí. Qual é esse vento e qual pavor ele provoca? De uma só vez, a relva calma e silenciosa desvela outros horizontes, vertiginosos horizontes com cores do medo. O que mostra também que as palavras, como os indivíduos, não são intercambiáveis, as palavras não o são mais de uma língua à outra.

Similarmente, poderíamos dizer que as palavras, como os indivíduos, determinam lugares. Assim há cidades de palavras, planícies de palavras, rios de palavras. De modo que, no melhor dos casos, a língua é a origem que desentrava, o lugar que faz viajar. E vi bastante em cinqüenta anos como esse lugar de liberdade paradoxal não parou de ser ameaçado, para que eu o não diga, quando ele é hoje mais ameaçado do que nunca.

Antigamente, por volta dos meus dezessete anos, eu amei loucamente a palavra areia (pijesak). A areia se espalha como a água, a areia escorria como o tempo na ampulheta, a areia se transformava em tudo, em não se sabe mais o quê, a areia era dura e doce, era o corpo amado, o céu e suas cintilações. Era a época da guerra, e eu vivia na Zagreb ocupada.

Eu punha as palavras sobre o papel, uma após outra, procurando, hesitando, e depois, cada vez mais rápido, cada vez mais freneticamente, sem parar, todos os dias, durante horas a fio. E eu escrevia não somente em croata, mas, em grande parte, em francês, e isto numa cidade ocupada pelo exército de Hitler.

Minha última preocupação era então aplicar ou violar as regras da gramática ou da ortografia francesas, porque, de todo modo, todos esses papéis estavam destinados a ser destruídos, queimados, e a minha própria vida, como tantas outras vidas naqueles tempos de morte, estava em questão. Na não-liberdade daqueles dias terríveis, eu me sentia mesmo assim livre de certa maneira. Já bem antes da guerra, muito jovem, eu tinha descoberto o surrealismo e a escritura automática, mas vários anos de proximidade com as palavras me foram necessários para me encontrar de repente confrontado não com um fluxo regular de frases monótonas, mas com uma erupção quase vulcânica de palavras incandescentes.

Depois de alguns meses, a erupção foi perdendo a sua intensidade, mas as palavras, as palavras nuas, continuavam a bater forte na janela. Uma noite - por causa do toque de recolher era proibido sair após as vinte horas - eu escrevi:

A folha

            da água

                        sobre o sonho da relva

Siegbert FranklinEssas palavras se tornaram o primeiro verso do poema Narciso[1] que eu teimosamente continuei a escrever durante vários meses em 1942, quer dizer, há cinqüenta anos. Quando esse poema (imaginado como uma recitação coral) foi terminado, de súbito - e isto contra todas as razões razoáveis - tive o desejo insano de publicá-lo em cem exemplares fora de comércio, como edição do autor. Descobri numa papelaria um resto esquecido de papel Ingres de antes da guerra, encontrei uma pequena gráfica, e a plaqueta apareceu bastante rapidamente. Os primeiros exemplares, eu os distribuí aos amigos. Entretanto, somente dois ou três dias depois, a polícia desceu até à minha casa para confiscar os exemplares restantes do meu livrinho. Os policiais me deixaram o ato oficial cujo carimbo Estado independente da Croácia já era uma mentira, pois esse Estado que não era um estado, era tudo menos independente.

Então, as minhas palavras leves, as minhas palavras transparentes, as minhas palavras inúteis: água, relva, vento, areia, calmas ou marulhadas, sobre o papel, dispersadas nas tempestades, carregadas pelos turbilhões, lançadas nas quedas d’água, essas palavras mais próximas do sonho do que da vigília, subitamente se revelaram sobre um aspecto totalmente diferente, tomando uma outra aparência. Elas tinham permanecido as mesmas, silenciosas, mas, ao mesmo tempo, elas tinham se tornado outras: a sombra se transformara em grito. Essas palavras, frágeis e fracas, tinham, pois, um peso, um tal peso que elas tinham se tornado perigosas, tão perigosas mesmo que a potente maquinaria do poder as tomara por alvo. E, na verdade, as palavras não faziam senão respirar, mas justamente aí estava o seu erro, o seu crime.

Isso se passou há muito, muito tempo, e há cada vez menos testemunhas desse tempo em que a poesia começou a ser selvagemente perseguida tanto por uns como entartete Kunst (arte degenerada), quanto por outros como “decadência pequeno-burguesa”, e tudo isso em nome de uma língua morta, totalmente artificial, de uma língua policial que ainda não era chamada de "langue de bois".[2] O que aconteceu aí, - se a Europa ocidental não pode nem quer compreendê-lo - infelizmente os habitantes de Dubrovnik que quase foram expulsos da sua cidade no inverno passado a fim de só se conservarem os monumentos da cidade, o compreenderão bastante. E assim que a “langue de bois” se põe em funcionamento: expulsando da linguagem, como de uma cidade, tudo o que é vivo.

Mas, como tudo recomeça hoje, é preciso, primeiro, contar como pouco a pouco as palavras foram encurraladas, e depois como os lugares das palavras foram ocupados.

Eu disse há pouco que, muito jovem, quando eu estava ainda no liceu, descobri os rudimentos do surrealismo. Consegui para mim, entre outros, alguns livros de André Breton, Benjamin Péret, Jarry, Lautréamont, Rimbaud, do marquês de Sade. Evidentemente, li também os antigos surrealistas belgradinos, em primeiro lugar Marko Ristic, e fiz muitos esforços para conseguir em Zagreb todos os livros deles, pensando que, por causa dos surrealistas parisienses dos quais eles se valiam, eu podia confiar neles. Entretanto, tudo saiu de través. Quando Hitler foi vencido, o partido comunista de Tito tomou o poder em Zagreb. O realismo socialista foi imediatamente imposto: fora dele não havia salvação. Cada palavra livre se tornava o alvo do novo poder, e, entre os primeiros ukases, [3] as minhas peças de teatro, como tantas outras coisas, foram proibidas e condenadas. Vivi muito mal isso, pois me parecia incompreensível que o poder, que se pretendia antifascista, usasse, para com as palavras os mesmos critérios que os fascistas que acabavam de perder a guerra. Eu não era o único a não compreender imediatamente a nova situação; houve mesmo dias em que eu pensava ou ter talvez perdido a razão, ou então não ser bastante inteligente para compreender o que se passava realmente. Sempre alguma coisa se decidia em alguma parte por trás das portas fechadas, e decisões incompreensíveis vos atingiam de repente como um raio. Hoje, o papel da polícia secreta nos regimes stalinistas vai sendo conhecido pouco a pouco, mas tem-se falado muito das manobras da toda-potente agit-prop, instância junto a cada comitê central, que decidia soberanamente sobre cada palavra, sobre cada quadro, cada música, cada filme, bem como sobre a importação ou não de livros, jornais e filmes.

Naqueles anos, o mundo se tornou para mim incompreensível, opaco, ilegível. Eu estava consternado pelo fato de que bastou a Marko Ristic ser nomeado primeiro embaixador de Tito em Paris para nunca mais pronunciar o nome do seu antigo amigo André Breton. Eu estava consternado também pelo fato de que Ristic começou a colaborar nas revistas literárias oficiais de Zagreb que estavam sob a influência das pessoas contra as quais ele tinha lutado antes da guerra. Eu encontrava desculpas para ele: longe em Paris, ele não podia saber o que se passava realmente na Iugoslávia de Tito. Similarmente, eu não podia compreender por que o poeta Paul Éluard veio imediatamente após a guerra visitar Belgrado para declarar que a Iugoslávia de Tito era uma “fortaleza da liberdade”, enquanto, justamente nesse país, o jdanovismo, quer dizer, o stalinismo, esmagava todas as liberdades, apenas um partido estava autorizado, suas fronteiras estavam hermeticamente fechadas, e éramos proibidos de conseguir livros ou publicações estrangeiras a não ser que eles fossem soviéticos. Era impossível saber o que se passava realmente em Paris, e ainda menos ter notícias de André Breton, do qual eu até mesmo ignorava se ainda estava vivo, ele que era a fera negra dos stalinistas desde que, em 1936, ele condenara os processos de Moscou.

Siegbert Franklin

Nesses primeiros anos de pós-guerra, encontrei-me preso numa armadilha invisível. Eu me perguntava: o que está acontecendo? Por que não compreendo mais nada? Será que alguém está mentindo? Quem está mentindo? Ou, mais grave, que não mente? Que veneno tinha sido pois injetado nas palavras? Naquela época, todas as palavras que eu tinha amado fugiram, elas se retiraram, desaparecendo como um sonho quando abrimos os olhos. Era como se a palavra: água, a palavra: areia, a palavra: sombra, a palavra: noite não respirassem mais ou não tivessem mais vida, quer dizer, não tivessem mais sentido. Então, como se entregar ainda a essa operação que tão bem exprimem dois velhos verbos croatas, bajati e bahoriti, e que poderíamos inabilmente traduzir por “entregar-se a encantações” ou “praticar a poesia”? Como fazer bajke, quer dizer, como fazer contos? Onde estão as palavras não envenenadas? As palavras bajoslovni, quer dizer, as palavras mágicas? Como respirar se as palavras não respiram mais? Se as palavras estão prestes a expirar? O que fazer se o sopro de vida não está mais nelas?

Daqueles tempos, eu me lembro ainda de duas cançonetas que arrotavam sobre as praças públicas os alto-falantes em pleno regime. A primeira é da época dos Ustachas: [4]

O fuzil cospe fogo

E o canhão ruge,

Troa como o trovão,

                         E o intrépido exército dos Ustachas

Luta por sua nação.

A segunda é da época de Tito:

Um dois, um dois,

A juventude de Tïto

                                           Parte para a guerra

                                          Contra a preguiça.

Contra tais palavras, nós podíamos mais ou menos nos defender pelo humor ou pela ironia. O verdadeiro veneno estava alhures. A algazarra ensurdecedora dos estados totalitários - e a Iugoslávia de Tito foi um perfeito exemplo disso -, por conseqüência ao martelar onipresente do discurso estatal, tinha por efeito de tornar totalmente inaudíveis, tanto o murmúrio quanto o grito individuais. Cada indivíduo era tornado surdo e mudo, cada indivíduo era condenado a ser só, só não na solidão, mas só na multidão, de modo a tornar cada indivíduo inclinado a pensar que ele ficou, que só ele é louco, porque ele não compreende bem a sadia missão da História que o Estado lhe repete como um papagaio, enquanto esta já o jogou na sua lata de lixo.

No entanto, o verdadeiro perigo, aquilo por cuja causa tínhamos a impressão de perder pé, era a traição dos poetas. Não penso aqui nas centenas de plumitivos diligente que se puseram todos ao mesmo tempo a começar ou a terminar suas enormes produções poéticas pelo verso:

Com Tito e Stalin…

ou então

… com Stalin e Tito.

para, naturalmente, apagar Stalin dois ou três anos mais tarde quando o agit-prop pediu. As hordas desses desprezíveis mercenários não representavam um grande perigo, porque a sua palavra era fragílima, magra e, no fundo, insignificante.

O golpe decisivo veio da parte dos poetas, que, antes da guerra, nos pareciam, me pareciam, ser poetas na plena significação dessa palavra, quer dizer, “verdadeiros” poetas. Havia alguns, mas, de uma maneira emblemática, escolherei Marko Ristic que mencionei agora há pouco. Marko Ristic, belgradino, era o co-signatário do Segundo manifesto do surrealismo de André Breton e o colaborador de uma revista zagrebina, Pecat, [5] dirigida por Miroslav Krleza, um escritor de esquerda bastante conhecido. Essa revista, Pecat, me tinha atraído, porque nela a poesia tinha um lugar importante e porque ela estava em conflito aberto com o iugo-jdanovismo integral, quer dizer, com o iugo-realismo socialista. Eu amava, com erro ou com razão, certos textos de Ristic, por exemplo: “Passando pelo sonho de uma jovem, talvez eu possa refletir mais profundamente do que pelo mais curto caminho das palavras da razão.” Mas então o que fazer quando esse “sonho de uma jovem” se transforma em 1945 em um hino Ao exército vermelho? Será que não é o fim do mundo e não é tal golpe, tal choque que precisamos na maior velocidade esquecer, recalcar, para podermos continuar a viver?

Eu devo vos citar esse horror, esse hino Ao exército vermelho, que não foi escrito por um propagandista profissional ou por um jdanovista do comitê central do partido, mas pelo “sonho de uma jovem”, por um ex-poeta, Marko Ristic, “promotor do surrealismo na Iugoslávia”, como o designavam os surrealistas franceses.

Marko Ristic:

AO EXÉRCITO VERMELHO

[trechos]

Siegbert FranklinTão simplesmente seria preciso te dizer, uma vez por todas, exército a nenhum outro igual, único no mundo, exército de Lenin e de Stalin, que todos nós, os homens dos tempos presentes, te devemos nossa salvação. Seria preciso encontrar palavras simples e eternas para te dizer que a humanidade te deve o seu porvir, que o porvir te deve a sua beleza humana, tornada possível somente por ti.

Os povos livres dos amanhãs já próximos, em seus esforços e na alegria profunda de sua cura distintiva, saberão que a história te designou, exército dos Eslavos, [6] exército do progresso humano, para ser a sua virada e a sua força motriz. […]

Exército alado com a consciência, tu que sabes o que são o amor e o ódio, tu que sabes o que são a vida e a morte […]

Pois tu és um exército que é, no fim das contas, a negação do exército, do exército tal como ele era antes que tu existisses. E tu és um melhor exército, tu és mais exército que todos os outros. […]

Tu acalmaste a inquietude desses sonhadores e pacifistas, semi-conscientes e benevolentes que não conseguiam amar o que eles não conheciam, o que eles não ousavam amar, o que lhes parecia, o que lhes aparecia somente como uma expressão da grosseria e da fugacidade enganosa. Há já vinte e sete anos que eles aprendem que o trabalho humano e o pensamento humano, a paz e os sonhos humanos, só podem encontrar sua verdadeira sustentação e sua segura proteção numa força militar, em sua bravura e em sua disciplina, em sua competência e em seu crescimento - quando a tua força nesse mundo vive, e se desenvolve, inexorável, como uma maré de consciência e de liberdade. Teus órgãos de Stalin iluminaram até o último dos utopistas humanitários, se ele era  sincero e honesto. […]

Exército alado com a liberdade, nós realmente esperamos por ti desde sempre […].

Exército vitorioso, que é o alvorecer vermelho de toda a humanidade! O tempo presente e o porvir te olham com admiração. O tempo presente te deve tudo, a ti e a teus heróis, a ti e à tua força de espírito e de coração. E o porvir te conjura a permanecer tal como tu és: bom e inexorável, humano, sobre-humano. E o porvir te ama e te abençoa, porque não há a menor dúvida de que tu permanecerás tal como tu és, de que tu és o que tu és, já que tu brotaste da terra russa como o trigo de ouro, já que tu és a criança querida do Grande Outubro.

Que fiquemos tranqüilos, pois não analisarei em detalhe esse hino de Ristic ao Exército vermelho, porque a sua monstruosidade é imediatamente perceptível. Todavia, como não observar que esse Exército vermelho, glorificado em 1945 pelo ex-surrealista Marko Ristic, não é um exército revolucionário internacionalista, mas sublinho “um exército dos Eslavos” que brotou da “terra russa”? E, nesta feita, se em 1945 alguém ainda surrealista pouco tempo antes, como Ristic, pudesse sustentar esse discurso eslavófilo, precisaríamos então nos espantar que floresça na Rússia de hoje “Pamiat"? [7] Somente mais isto: com qual desprezo Ristic não trata aqui utopistas, sonhadores e pacifistas, enquanto os surrealistas, dos quais ele tinha sido amigo, se reconheciam em palavras de ordem como: Licenciem o exército ! Abram as prisões! Não era realmente por acaso que Tito o escolhera para seu primeiro embaixador em Paris.

Seria preciso acrescentar a isso que um outro ex-surrealista belgradino, Koca Popovic, era um dos principais fundadores do Exército iugoslavo de Tito e ocupava cadeira nos mais altos aparelhos do Estado e do partido? Todavia, essa metamorfose me traumatizou muito menos, porque Koca Popovic tinha renunciado à poesia nos anos trinta para se dedicar ao trabalho no partido comunista. Esse Koca Popovic acaba de morrer em Belgrado de morte natural. Disseram-me que ele se encontrava bloqueado em Dubrovnik na época recente em que essa cidade foi selvagemente bombardeada pelo Exército iugoslavo, quer dizer, pelo seu exército, pelo exército que ele outrora fora um dos primeiros a construir. Ele poderia ter estado entre as vítimas do seu antigo exército, mas, naturalmente, é o pequeno povo que foi a vítima e não ele.

Siegbert FranklinA juventude se foi, as palavras se foram. Como recompensa por ter assim envenenado as palavras, os dois antigos amigos, Ristic e Popovic, receberam, um, o cargo de embaixador, e o outro, o uniforme rutilante de general.

Sim, as palavras, as palavras. Como atingir as palavras que não mentem e nas quais os engenheiros das almas - era assim que Stalin chamava os escritores - não inocularam todos os micróbios, todos os venenos, toda a podridão? Como empregar ainda a palavra paz, quando essa palavra foi escrita em grandes letras sobre os tanques de Milosevic que destruíam a cidade de Vukovar na Croácia? Como escrever ainda a palavra altivez, a palavra livre, quando a célebre inscrição nazista Arbeit macht frei [O trabalho liberta] num campo da morte é apenas uma ilustração entre outras dessa perversão da linguagem?

Todos os que tiveram a chance de não viver sob os regimes comunistas não podem imaginar qual pressão foi exercida sobre cada indivíduo para aniquilá-lo. Pressão que não é, em princípio, diferente da que é, naturalmente, exercida por todos os poderes do mundo; todavia, os métodos comunistas são tão refinados que era muito difícil - não digo impossível - de resistir a eles. No mundo inteiro, os métodos de tortura policial se aperfeiçoaram tanto que não há quase ninguém para resistir a eles. Acontece o mesmo com as palavras que são torturadas e aniquiladas no mundo inteiro. Poderíamos dizer que, como os métodos da tortura, os método de envenenamento das palavras se tornaram científicos e, aliás, não é por acaso que a palavra científico sempre foi uma das favoritas dos regimes totalitárias: eles podem fazê-la mentir sem vergonha.

Infelizmente, não estamos muito longe da limpeza étnica. Tudo se passa mesmo como se tivesse há muito tempo começado com a linguagem a empreitada de morte que ainda hoje prossegue sobre os seres. E chegamos a nos perguntar se a responsabilidade dos acontecimentos atuais não incumbe também a todos os que não souberam preservar a liberdade da língua.

Talvez eu tenha sido o mais desesperado quando um dos meus amigos, poeta de Zagreb, um pouco mais velho que eu, o qual tinha tido antes a coragem de resistir à mentira nazista, entrou no partido e se pôs, ele também, como tantos outros rimistas dessa época, a escrever poemas ornados do refrão Com Stalin e Tito.

Minha decepção foi terrível, justamente porque ele, em outros tempos, foi por um momento poeta.

Como então viver? Como viver sem palavras, já que elas estão mortas? Como dizer a palavra água, quando a água está poluída, como dizer floresta, quando as florestas estão doentes ou abatidas, como dizer a palavra ar, quando ela transporta as radioatividades mortíferas? A ter visto como cada traição no que concerne as palavras, carrega mil outras e a pressentir a qual ponto a devastação da linguagem prepara a devastação da vida sob todas as suas formas - tal como nós a vemos hoje - posso apenas dizer para terminar:

Do poeta é preciso exigir uma única coisa: não deixar de ser poeta. Ele não deixa de ser poeta se ele se cala, se ele não escreve, se ele não publica. Mas ele deixa de ser poeta, a partir do momento em que ele consente em escrever a língua que mente, a “langue de bois”, a língua morta, mesmo se ele alinha milhares de versos.

 

NOTAS

[1] Ver R. I: Poemas, p. 47-87. Éditions Gallimard, 2004.

[2] N. T. Segundo o dicionário Petit Larousse “Langue de bois” (literalmente, língua de madeira): é uma maneira rígida de se exprimir multiplicando os estereótipos e as fórmulas congeladas, notadamente em política.

[3] Segundo o dicionário Petit Larousse Ukase (russo oukaz, ordem) pode significar 1. a. [História] Édito do tsar, na Rússia. b. Decreto emitido pelo Estado, na antiga União soviética, e hoje na Rússia. 2. Lit. Decisão autoritária e arbitrária.

[4] N. T. Conforme o Dicionário Petit Larousse, Ustacha é uma sociedade secreta croata, fundada em 1929. Ela organizou o atentado contra o rei dos Sérvios, Alexandre I em 1934. Seus membros, os Ustachi, dirigiram o Estado croata independente de 1941a 1945, que era aliado das potências do Eixo.

[5] N. T. Pecat em croata significa selo, estampa.

[6] Sou eu que sublinho (R. I).

[7] N. T. Pamiat em russo significa memória, recordação.

Radovan Ivsic (Zagreb, 1921). Poeta e dramaturgo. Autor de livros como Tanke (1954), Mavena (1960) e Toyen (1974). Conferência dada no P. E. N. club, em Barcelona, em 17 de outubro de 1994. Tradução de Éclair Antonio Almeida Filho, Doutor em Língua Francesa e Literaturas de língua francesa pela USP [2006], com tese intitulada “Jacques Prévert e a poética do movimento”. Contato: eclair.filho@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Siegbert Fraklin (Brasil).

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