revista de cultura # 58
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2007






 

Uma leitura da poesia de Gérard Calandre

Ruy Ventura

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Gérard CalandreO texto que vai a seguir destinou-se a servir de prefácio ao acervo de poemas, “Vestígios”.

O título é a meu ver uma autêntica descrição da poesia a que serve de continente.

O que na minha opinião a define é uma ironia magoada, entre a vigília e o sonho; a certeza ou a suspeita, pelo menos, de que o quotidiano é feito de rastos, de vestígios, de representações muito reais de fragmentos que não podemos dominar mas que importa tentar se nos ofereçam coerentes e organizando dess’arte um mundo habitável e inteligível. Sente-se nesta poesia, se bem a entendo, uma indisfarçável amargura pelo tempo perdido ou que não é dado alcançar-se mas, ao mesmo tempo, um fio de alegria - diria mesmo de esperança – cifrada na possibilidade de através das palavras se atingir uma reconciliação entre o ser humano e o universo que lhe caiu em sorte.

É em consequência, nessa medida, uma poesia profundamente religiosa - não de religião revelada e sim de religação.

No aspecto formal, diria discursivo, revela-se uma assunção de imagens através das frases que a configuram que, mais do que fotografias ou apontamentos visuais, são como que pequenos flashes ou iluminuras retiradas, corajosa e persistentemente, da vida breve a que o autor esteve ligado e que salvou dum desaparecimento inevitável, inscrito no seio da espécie ou, mesmo, perceptível na memória dos deuses simbólicos. [Nicolau Saião]

*** 

Siegbert FranklinVestígios são caminhos. Traços mais ou menos visíveis, inscritos na terra ao longo do tempo, num espaço preciso.

Vestígios são fragmentos. Restos de um corpo disperso pelo vento. Um corpo que escreve, que se escreve, que se deixa escrever. Como a pedra – suporte, agente, matéria de escrita – que a erosão vai desgastando, dispersando, esculpindo.

Não nos esqueçamos: “Escrever é traçar linhas de fuga”, “Partir, evadir-se, é traçar uma linha. A linha de fuga é uma desterritorialização” (Deleuze & Parnet).

Depois do caminho percorrido, ficam apenas vestígios, indícios: pequenos objectos (ou fragmentos de um objecto) deixados perante as esquinas do espaço, a pequeníssima imagem da face dos segundos, o enorme vazio deixado no tempo interior pela ausência, “resíduos de amargura / dolorosa presença”.

Dos poemas de Gérard Calandre, escolho apenas dois, ou talvez três: aqueles que se fixam no olhar e na memória, como pontos luminosos, como utensílios cuja surpreendente presença perante a vista nos faz entender a inquietante voz da incerteza.

“Flagstaff”, espaço e geografia do mistério, linha de sentido a meio caminho entre a música e a “obra dos tempos”. A obra como mistério, o mistério como palavra; a palavra como segredo; o mistério fotografado na voz, residente na construção do tempo. Tudo elementos que, pelo caminho, nos vão abrindo a porta. A porta que “esconde, mostra retoma”. É o mistério que nos constrói e, logo de seguida, nos desfaz, integrando, dentro das nossas estruturas, a dor, os limites do segredo, “Uma parede ao longe / branca e preta, preta // e branca”. A voz que se cala, porque só no silêncio, incorporando o indizível, revelará o seu corpo profundo, inteiro.

Siegbert FranklinVestígio. “Rasto”. Verbo, palavra com a substância da vereda, do carreiro traçado somente com os passos da noite e do dia. “Em Janeiro” (isto é, no princípio, nos alicerces da memória que o texto constrói como raiz) “somos fragmentos negros azuis / ocultos mundos cintilantes e tranquilos / Violentos, tranquilos. // Na superfície da terra”. O espaço e o tempo suspendem a continuação da caminhada; parado, o sujeito que se constitui na escrita, suspende-se, para assim melhor contemplar, contemplar-se, construção que se volatiliza, pois faz parte de um domínio particular, “o ano de verbos e ventos”. Vento e palavra, o movimento e a música. O som que “cumpre o olhar”. O vestígio cada vez mais ténue, fazendo desaparecer as imagens da memória.

A memória inscrita no texto, de que restam apenas “vestígios” que ele resguarda, é, como o corpo e o ser, uma memória em dissolução. Ligada ao espaço, muito mais do que ao tempo, desaparece, transforma-se em “linguagem secreta”, como no poema “Jitterbug”: “Perdi uma das casas / da minha infância”. O próprio texto, na elipse de algumas frases, reflecte o espaço interior deixado incompleto com a substituição: “Pombos por sobre as árvores / onde é agora um hipermercado”. A memória é inseparável da sua dimensão de morte, de imagem longínqua; luta contra o indistinto, substantiva o espaço e o ser, individualiza; partilha, no entanto, da dimensão flutuante dos fragmentos – “A mãe […] ausentou-se / […] / e a sua memória flutua” –, é ela própria uma reunião caótica de fragmentos, de vestígios.

Siegbert FranklinEscrever é, por isto, nesta poesia, a consciência da fragmentação, da dissolução. Movimento de viagem, traçando a própria estrada da viagem, o conjunto dos poemas tenta nomear, reconstruir o mundo (a memória não existe sem expressão), escrevendo “dissonâncias”, “linhas interseccionando-se quebradas abatidas”, num lugar do texto, misterioso, secreto, em que “se contemplam substantivos”, a substância escrita da vida e do mundo.

 

VESTÍGIOS

 

Na Rua do Touro, ao pé das escadinhas

que antecedem a grande descida da praça do Tribunal

entrei por uns minutos no livreiro-antiquário

Às vezes vejo-me ali como que em séculos passados

Palaciano se calhar aproximo-me com a boca aberta

Restos de sono vontade louca de ler    comichão

E diz-me o proprietário nos seus tempos um belo compincha

E ao dizer-me, não vou repeti-lo, mostra-me uma folha de papel

não de árvore verbena teixo das Índias eucalipto

Era um manuscrito de Manzonni

Só deus sabe como lhe teria ido parar às mãos

A letra muito firme as ideias límpidas um ar de quem

lavava as mãos simpaticamente depois de obrar

Tudo se conjuga

Tudo se irmana mesmo em casos particulares

linhas interseccionando-se quebradas abatidas

de rostos de passos que se perderam de motivos

Uma escrita articulada entre si e rigorosa

obedecendo bem a leis exactas e ao eventual aparo

 

Pouco depois no Café olho algumas folhas onde tracei

afirmações, ou dúvidas, ou restos de música retórica piolhenta

perdão um solfejo de palavras que afinal me dizem muito

letra mal acabada que pena um pouco rasca

emendas riscos agudos e graves    e o papel amarfanhado

 

Por vezes seremos obrigados a escrever dissonâncias

mas faz favor    não tenho o jeito dos séculos

o amplexo    mesmo a lisura    e isso me custa

Neste debate gramatical a que eu mesmo presido.

Siegbert Franklin

Ruy Ventura (Portugal, 1973). Poeta e ensaísta. Autor de Arquitectura do silêncio (2000), Sete capítulos do mundo (2003) e O lugar, a imagem (2006). Contato: ventura.1973@gmail.com. A tradução do poema é de Nicolau Saião, que também redigiu a nota introdutória. Página ilustrada com obras do artista Siegbert Franklin (Brasil).

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