revista de cultura # 56
fortaleza, são paulo - março/abril de 2007






 

Um diálogo com Ná Ozzetti
[entrevista]

Erico Baymma

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Ná OzzettiPor vezes pergunto-me se minha emoção se exubera pela superação da técnica (mas técnicas não alienadas em si, emocionadas). Mas tantas vezes sou surpreendido muito mais. E me desligo do que seja um aparato de conhecimentos que construíram determinada técnica de expressão e visão, que fluo, apenas.

“A vida é feita de encontros, embora haja tantos desencontros na vida”, assim definiu o poetinha, Vinícius de Moraes. Hoje em dia - no que não me detenho em datar nenhuma concepção de comportamento humano senão a própria explosão de informações e suas fontes, que nos deixam cegos – encontro-me encantadamente envolvido na capacidade de encontro e da simbiose entre linguagens diversas, em quaisquer planos da vida.

Não buscando um didatismo, mas ilustrando, a linguagem é a caça e o caçador de referenciais. Neste arsenal minuciosamente articulado dentro das capacidades da linguagem em si e seus referenciais afora é que imagino que se faça a arte.

A música contemporânea comercial, é certo, está recheada de equívocos, mas não é dos equívocos que desejo regar “as minhas plantas”. Redundante é fincar pés em solo movediço e estéril, no que não se deve alienar, também.

E “sobre todas as coisas” volto ao encontro.

Por volta de 2005, Ná Ozzetti e André Mehmari tiveram a oportunidade de se encontrar em projetos soltos e observaram tal identidade entre si que vieram a construir e lançar o espetacular CD Piano e Voz, cuja apresentação em Fortaleza se deu em 2006, com Theatro José de Alencar cheio e completamente ligado no magnífico repertório e performances simbióticas de Ná e André, tal dissessem “como acontecem as coisas”. Não são únicos, mas eles são únicos neste “recitalonde passeiam por um repertório significativo da canção brasileira, incluindo as infinitas referências multi-nacionais que André armou e harmonizou no piano para que Ná dançasse livremente. Sóbria, mas livre, a ponto de mostrar a versão de Cry Me a River (Artur Hamilton) – Chora um Rio (versão de Arthur Nestrovsky) – numa postura sutilmente irônica, proposta na versão, um blues relido, o que dá à música umtom contemporâneo”, que o romantismo desbragado das interpretações registradas anteriormente sempre tratou o amor como drama. Será tão dramático assim?

Cícero DiasA construção harmônica do André Mehmari é uma pletora de referências em que se dialogam as presenças claras de Ernesto Nazareth, Thelonius Monk, Oscar Peterson e Egberto Gismonti (principalmente) entre muitos outros grandes compositores e instrumentistas que marcaram a história com uma identidade inconfundível. Tudo possui seu tom certo e é minuciosamente pesquisado e explorado para a valorização ímpar da voz/interpretação de Ná Ozzetti. No entanto, apesar de tantas referências é incrível seu personalíssimo piano, que viaja e volta à sua linguagem, perfeito domínio confirmado pelo Prêmio Carlos Gomes, pela Fundação Padre Anchieta, de Revelação do Ano.

Ná está em seu auge. As canções estão perfeitas em sua voz e na composição dos arranjos junto ao André. Voz límpida, emissão com alguns sinais de lirismo – no que não perde a elegância e simplicidade –, torna tudo em uma bela paisagem nada inútil.

Ao terminar este recital, no Theatro José de Alencar, perguntava aos dois se estavam preparando outro trabalho juntos, pois vieram, no show, com duas músicas a mais: Clube da Esquina I e Os Povos, ambas de autoria de Milton Nascimento e Márcio Borges. A resposta, claro, não foi objetiva: “Quem sabe?”, como se não houvesse passado na mente dos dois esta continuação do belo projeto, lançado agora em DVD e CD, gravados em 2006, em bela edição pela MCD.

O DVD alia repertório dos dois CDs, num contínuo que mostra ainda mais aprendizado na ourivesaria que tratavam com tamanho apuro. No novo trabalho há a inclusão de mais duas canções de Caetano Veloso, duas do Tom Jobim, a maravilhosa Maracatu, de Egberto Gismonti, que é “envolvida” pelas belas Asturiana (Manoel de Falla) e Copla de Ordeño, do folclore Colombiano, Claraflor da idade) de Robert Schumann, com versão de Arthur Nestrovsky, além de Nelson Cavaquinho, Dante Ozzetti, Luiz Tatit, André Mehmari (em sua composição Eternamente, que ganhou bela letra de Rita Altério), Lennon e MacCartney, na valiosa Because, que ganha um arranjo especialíssimo, entre outros.

Como o lançamento deste trabalho é bem recente, e tem uma vida própria, poesia que não se explica, nos voltamos para conversar com a Ná Ozzetti, que nos fala de seu trabalho e da parceria com André Mehmari. [EB]

 

EB Qual a sua visão entre a época em que firmou uma identidade de performance "fora dos padrões" de sua postura hoje? Há alguma diferença, no que diz respeito à sua postura autoral de intérprete, compositora, na concepção do som que você deseja e o que você conseguiu realizar? (Também em termos de pressão de mercado, identidade artística, parceiros de trabalho etc.)?

NO "Fora dos padrões" você se refere a que fase? Quando eu integrava o Rumo? A estética do Rumo eu considero muito singular, nãonada até hoje que soe parecido com o que o Rumo fazia na época.

Quanto à carreira-solo, no início eu trazia na interpretação uma influência mais declarada do trabalho com o Rumo no que diz respeito ao canto falado, e que foi muito importante para o que faço hoje. Esta influência continua presente, mas foi incorporada e houve uma fusão com as experiências que tive posteriormente no próprio desenvolvimento do meu trabalho.

Acho que o trabalho sofreu, a exemplo do que ocorre com todos os artistas, transformações ao longo do tempo, mas vejo uma linha bem clara e definida nessa trajetória, na maneira de entender e me manifestar na música.

O trabalho de intérprete está presente desde o início e é ainda a minha maior forma de expressão, mas essa expressão vinha com um traço de compositora, que se manifestou posteriormente.

Todas as faces do trabalho estão ligadas umas às outras, são parte de um todo.

EB Como você se coloca frente à Música Brasileira, como mercado e como artista? Como artista, há alguma "pressão interna", algo que você busque atingir?

NO O meu trabalho está em constante diálogo com produção musical brasileira, de todos os tempos.

Sempre foi importante, para mim, entender minha personalidade nesse contexto tão amplo da música brasileira, e dar vazão a ela, buscar um desenvolvimento dentro dessa linha pessoal. Acredito ser esta a melhor forma de contribuir, que as melhores referências foram criadas por tantos grandes artistas de toda nossa história.

Cícero DiasEB Eu havia conhecido o livro Três canções de Tom Jobim (Lorenzo Mammi, Arthur Nestrovski e Luiz Tatit) em que você e o André gravaram juntos e fiquei encantado com a interpretação dos dois. Até pensei, intimamente, que seria ótimo um disco todo com vocês, que logo veio a se realizar. Foi uma surpresa conhecer o trabalho do André, com aquelas dissonantes e as releituras harmônicas dele, ímparComo se deu essa simbiose Ná Ozzetti e André Mehmari? (Dois ímpares!!) Vocês se conheciam há muito tempo? No que as características artísticas individuais levaram à escolha do repertório dos dois discos? Há alguma "mensagem" através do trabalho de vocêsVocê avaliaria que este projeto seria um desenvolvimento claro do seu cd Show?

NO Nós havíamos trabalhado em dois projetos que envolveram outros músicos, mas esta foi a primeira vez que trabalhamos nesse formato em duo, onde pudemos aprofundar uma relação musical. O resultado deste encontro nos surpreendeu, por este motivo demos continuidade e acabamos gravando o CD.

Desde a escolha do repertório sentimos uma afinidade muito grande.

Depois de os arranjos e interpretações concebidos, o André costuma pensar a ordem das canções, para o show, o CD e agora no DVD + o CD inédito (que acompanha o DVD). Em todas essas situações há uma série de mensagens musicais onde uma canção dialoga com a outra, seja pelo tema, pela harmonia, pelas tonalidades, época, autores, etc. Eu acho tão genial (além de tudo o que ele propõe) que prefiro não interferir, concordar, pois o resultado é maravilhoso.

EB Ao vê-los no palco, você e o André, fiquei pensando em todo o processo para a concretização deste projeto. E me chamou a atenção esta espécie de "duelo", muito bem articulado, quase um tango, em que vocês sempre saem ganhando. Houve algum desafio específico de uma ou outra parte, que ambos têm uma cultura musical incrível, mas estão prontos a este embate em um show? Há algum caso em que esta articulação não funcionou, na montagem do repertório, por exemplo?

NO Quanto ao desafio, senti mais no início do nosso trabalho, mais precisamente na nossa primeira apresentação em público, quando ainda estávamos nos conhecendo musicalmente. Depois desse entendimento tudo sempre fluiu com uma rapidez incrível.

Algumas poucas vezes não chegamos a um resultado satisfatório em uma canção ou outra, então esta é imediatamente substituída por outra, sem problemas.

EB Algo que fiz brincadeira com você, sobre a "cantora maldita"… risos… Vi um depoimento seu, na TV Cultura, falando sobre esta sua postura, mais ou menos: "do jeito que eu gosto, eu canto o que eu gosto"? Onde você achou essa cantora, com essa voz e interpretação? É ou foi difícil colocar esta sua linguagem em um mercado tão opressor, como o da música

NO Pois é “cantora maldita”, acho este termo meio “joga pedra na Geni”, bem desrespeitoso. Acho que o artista tem que ser visto pelo trabalho que ele apresenta (com tanta dedicação), e não pelosmodelos” mercadológicos em questão, pois estes também passam e correm o risco de ficarem caducos em algum momento.

Um trabalho artístico exige desprendimento, transcendência, tempo. Pode ter uma assimilação imediata ou não.

Mas independentemente disso, temos que olhar para os meios de comunicação que temos à disposição da produção artística nesses últimos anos, o público é aberto e receptivo sempre que tem acesso ao trabalho de um artista.

Esse conceito de que existe o que está na mídia, é equivocado a meu ver, é “a ditadura na culturacomo dizia o Itamar Assumpção, ou como diz Luiz Tatit “tem mais país, muito além da TV” (na cançãoPra lá”, parceria com Dante Ozzetti).

Cícero DiasEB "A cantora maldita" sempre foi marcada por um repertório todo próprio, específico e inédito, na maioria de seus discos (exceto o Lovelee Rita, Show e os atuais - que não deixam de ter sua identidade forte impressa). Houve alguma transformação artística para incluir, em seu repertório, compositores "mais conhecidos" e uma "melodia mais popular"? Você pensou: quero gravar Tom Jobim ou Caetano Veloso? Mesmo que em seu cd "Show", logo após ganhar o Festival da Globo, tenha havido tantos clássicos no disco, houve alguma pressão ou modificação de "status" no quesito "estética Ná Ozzetti"?

NO Costumo pensar cada CD como um projeto específico, como se fosse um filme diferente, com novo roteiro, personagens, paisagens, etc., mesmo nos trabalhos mais autorais. Então gosto de mergulhar nesse universo e extrair o melhor que posso dessa experiência, sem procurar estabelecer uma ponte com os trabalhos anteriores, pois esta naturalmente se estabelece e é isso que eu gosto de ver acontecer.

EB Você cantava quando era criança, sempre gostou de cantar? Fez aulas? Há músicos em sua família, além do Dante?

NO Minhas lembranças mais remotas são todas musicais. A música está na vida de minha família desde sempre, todos somos músicos desde criança.

Estudei piano na infância, depois fiz outros cursos de formação musical. Quando entrei no Rumo, comecei a estudar canto lírico, o que fiz por 10 anos ininterruptos.

EB Em seu show, uma das coisas interessantíssimas que vi na interpretação é, por exemplo, quando você cantaChora um rio” (Cry me a River), sua postura é sutilmente irônica, ao invés do anterior "derramamento de sangue e ódio" (lembrei-me da interpretação da Barbra Streisand). Aliás, mesmo sendo o único show seu que assisti, e tendo este uma estrutura camerística, a interpretação tem sempre uma carga dramática identificável, mas muito sutil. Você faz trabalhos de pesquisa de interpretação a partir de alguma linha teatral?

NO Não. O trabalho de interpretação é intuitivo. Fica entre a sonoridade da voz, a expressão musical (sempre unida ao arranjo) e o universo poético de cada canção. Mais ou menos isso que me norteia, se é que me explico bem, pois este é um assunto complexo e abstrato.

EB Mesmo sendo possivelmente redundante, como é dividir o palco (e trabalhocom um instrumentista, inclusive pelas características do André Mehmari?

NO É sempre maravilhoso e surpreendente. Por mais que os arranjos estejam concebidos, nunca interpretamos da mesma forma, e como somos dois solistas, dois interpretes, a dinâmica é maior, pois há a expressão pessoal e o diálogo, a interferência do outro, acontecendo ao mesmo tempo.

E trabalhar com o André é realmente o privilégio dos privilégios, tenho vontade de interpretar, mas também de assistir ao que ele faz naquele momento, que é sempre absolutamente genial.

EB algum(a) intérprete na música brasileira que seja sua inspiração?

NO Milton Nascimento, João Gilberto, Caetano Veloso, Elis Regina, Carmen Miranda, Maria Bethânia, Mônica Salmaso…, e tantos outros.

EB Assisti a parte de um show no programa Bem Brasil, da Cultura, em que você e a Mônica Salmaso (outra paixão) dividiram o palco. Você se sente mais "protegida" pela diversidade de artistas com características tão próprias, com "mais identidade"? Havia insegurança em seu começo de carreira? Aliás, lidar com arte é ótimo, mas estabelecer linguagem é um desafio.

NO Acho estimulante o contato com a obra de outros artistas.

No início da carreira com o Rumo nunca sentimos insegurança, pois havia um público (e ainda há) numeroso e atento. Além disso, tinha os colegas de geração como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, o Premê, etc. que da mesma forma nos estimulavam com seus trabalhos.

Cícero DiasO período mais difícil foi nos primeiros anos do meu trabalho solo, daí a coisa complicou, me sentia realmente e num mato sem cachorro, pois o trabalho não se sustentava. Mas a vontade de seguir em frente foi maior, então esta fase felizmente ficou para trás.

EB Você poderia falar de alguns trabalhos brasileiros em que haja uma paixão sua, mesmo não sendo da sua identidade artística? Quais seriam as suas escolhas?

NO São tantas, tantas, tantas, e gosto realmente de vários estilos, de toda essa diversidade que nos é peculiar.

Tem alguns trabalhos que realmente aprecio, como o do Uakti, do Egberto, do Vitor Ramil, do Antonio Nóbrega, sim, e do Paulinho da Viola, do Tom Jobim, Chico, Caetano, e por vai, sem falar em Tatit, Wisnik, Itamar, Dante, Mehmari, os quais tenho orgulho de estar bem perto.

EB Você teria interesse em fazer trabalhos como " Wisnik", " Itamar" ou" Tatit"? Ou outro compositor? (Falo do Wisnik, Itamar e Tatit pela sua proximidade a eles e por serem paulistas e possuírem mesmo esta linguagem diferenciada)

NO Nunca pensei nisso, mas não descarto a possibilidade, quem sabe?

EB Qual um projeto acalentado para um futuro próximo? Há algum segredo a ser revelado, em termos de projeto e interpretação?

NO Tenho um trabalho em andamento, com canções inéditas.

Erico Baymma (Brasil, 1961). Músico e compositor. Gravou os CDs: Artesanato (1997) e ImageShadow (2003). Trilhas sonoras: Conto Logo, Quanto Louco (1991 - Prêmio de Melhor Trilha Sonora), O Alvo (1993), Eu chovo, tu choves, Eles chovem (1996 - Prêmio Destaque do Teatro Cearense, Direção Musical), A Guerra dos Bárbaros (2003), Inferno 1932 (2004), e Ballet Espaço Vazio (2004). Contato: erico@ericobaymma.com.br. Página ilustrada com obras do artista Cícero Dias (Brasil).

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